
Programação do Aloha Spirit Brasília
Maior evento de esportes de água da América Latina começa nessa sexta-feira (21), em Brasília, com uma ... leia mais

Se existe uma modalidade olímpica que ainda não foi criada, ela certamente seria a de inventar desculpas para faltar ao treino de canoa havaiana das 5h30 da manhã.
Depois de anos como responsável por um clube de canoa havaiana, posso afirmar com absoluta convicção: o brasileiro é criativo, mas o remador que perde o horário consegue elevar essa criatividade a um nível quase artístico. É impressionante como tragédias, doenças, compromissos e fenômenos sobrenaturais escolhem exatamente o mesmo horário para acontecer. Nunca às dez da noite. Nunca na tarde anterior. É sempre entre 5h00 e 5h30, antes da primeira remada.
A campeã absoluta continua imbatível: “Surgiu uma reunião no trabalho.” Essa desculpa já venceu todas as outras por larga vantagem. Confesso que ainda tento descobrir quem é o ser humano que marca uma reunião durante a madrugada. Imagino uma diretoria inteira reunida duas horas depois discutindo metas enquanto o resto da cidade ainda está tentando entender por que o despertador tocou. É uma dedicação admirável… à ficção.
Logo atrás vem o eterno coitado do pet. Esse animal merece uma homenagem. Alguns cachorros passam quinze anos saudáveis; já o cachorro de certos remadores vive uma sequência de emergências médicas que desafia qualquer veterinário. Toda semana ele passa mal justamente antes da aula. Curiosamente, às oito da manhã já está correndo, brincando e aparecendo nos stories da família como se nada tivesse acontecido. É praticamente um milagre recorrente.
Também existe o clássico do Uber que “não aceitou a corrida”. Claro que não aceitou. Afinal, pedir um carro cinco minutos antes do início do treino e esperar chegar à praia pontualmente exige um nível de otimismo que deveria ser estudado pela NASA. O problema nunca foi o motorista; foi acreditar que o teletransporte seria implantado justamente naquela madrugada.
Há ainda os mais audaciosos, aqueles cuja árvore genealógica desafia as leis da biologia. Tios, avós e parentes distantes falecem mais de uma vez ao longo do ano. O constrangimento aparece quando o suposto falecido ressuscita rapidamente e começa a curtir publicações nas redes sociais antes do almoço. É uma ressurreição digital realmente emocionante.
Não podemos esquecer da famosa enxaqueca das 5h00. Ela é extremamente disciplinada: espera o despertador tocar para começar. A pessoa dorme perfeitamente bem, mas basta abrir os olhos para surgir uma dor incapacitante. O tratamento, felizmente, é revolucionário. Algumas horas depois, um café especial, uma caminhada na praia e uma selfie resolvem tudo. A medicina ainda procura uma explicação.
O resfriado relâmpago segue a mesma lógica. Às dez da noite o remador estava saudável, conversando normalmente no grupo. Às 5h15 aparece uma gripe devastadora, com dor de garganta, coriza e voz de quem passou três meses no Polo Sul. Menos de vinte e quatro horas depois, está recuperado o suficiente para um chopp ou um treino no dia seguinte. Uma eficiência clínica invejável.
O mais curioso é que, entre centenas de desculpas, existe apenas uma que sempre recebe meu respeito: “Professor, hoje eu falhei com todos.” Simples. Honesta. Sem roteiro, sem drama e sem sacrificar parentes ou animais de estimação. É muito mais digno admitir que falhou do que transformar uma manhã comum em um episódio de série médica.
Na Bravus Va’a do Recreio, porém, esse assunto nunca foi tratado como brincadeira. A pontualidade e o compromisso fazem parte da cultura do clube e estão previstos até em contrato. A regra é objetiva: quem falta sem atestado médico ou chega um único minuto atrasado é suspenso por três dias corridos, não podendo agendar treinos nesse período e volta para casa sem remar se chegou atrasado apenas um único minuto.
Parece rígido? É mesmo. E seria desonesto dizer que essa rigidez não tem consequências. A Bravus já perdeu muitos alunos por causa dessas regras. Pessoas que preferiram procurar clubes com uma política mais flexível, onde faltar ou chegar atrasado não produz necessariamente nenhuma consequência. E está tudo bem. Existem clubes diferentes, com culturas diferentes, e cada remador é livre para escolher o ambiente que melhor combina com a sua rotina e com a maneira como entende o compromisso coletivo. Nós, porém, fizemos uma escolha.
Na Bravus, queremos pessoas que entendam que um treino de canoa polinésia não é uma atividade individual. Quando alguém falta sem avisar ou chega atrasado, não está simplesmente deixando de fazer o próprio treino. Está alterando o treino de outras pessoas que acordaram de madrugada, se organizaram, chegaram no horário e contavam com aquele remador.
E no Pontal do Recreio existe ainda uma questão mais importante: segurança. Uma canoa com número reduzido de remadores não é apenas uma equipe incompleta; dependendo das condições do mar, isso pode significar menos capacidade de resposta, menor estabilidade e maior exposição a situações de risco. Em uma modalidade coletiva praticada no oceano, a irresponsabilidade de um pode aumentar o risco de todos.
É por isso que a regra existe. Não para punir por punir, muito menos para criar uma cultura militarizada. Ela existe para estabelecer uma expectativa clara: se você confirmou que vai remar, os outros precisam poder contar com você.
É perfeitamente legítimo preferir um clube mais flexível. O que não é razoável é querer a liberdade de faltar quando quiser e, ao mesmo tempo, esperar que os outros estejam sempre disponíveis quando você precisar deles.
Porque, no fim das contas, remar em equipe começa muito antes de entrar na água. Começa quando o despertador toca e cada um decide honrar o compromisso assumido com os outros remadores que acordaram na mesma madrugada.
Na Bravus Va’a, preferimos perder alunos a perder esse princípio. O despertador toca para todos. A diferença está no que cada um decide fazer depois.