
Sunset Va’a Festival tem primeira edição promissora em Santos
Berço da Va'a nacional, Santos recebeu a primeira edição do Sunset Va’a Festival reunindo 250 atletas na ... leia mais

Eu estava naquela canoa. Naquele dia, em Caraguatatuba, durante o Aloha Spirit, éramos seis remadores vivendo uma situação atípica. Uma colisão não intencional entre as canoas do Supirados Va’a e Botinas Va’a interrompeu a nossa prova e, por alguns instantes, tudo aquilo que parecia importar — tempo, colocação, competição, resultado — deixou de fazer qualquer sentido. Naquele momento, havia algo maior: pessoas.
E foi justamente depois daquele episódio que começamos a perceber que aquela experiência tinha ultrapassado os limites daquela canoa.
Vieram as mensagens. Os comentários. As manifestações de atletas, clubes e pessoas que acompanham o esporte. E confesso que foi uma surpresa muito positiva para todos nós envolvidos, perceber a repercussão que a nossa atitude teve. Ficamos orgulhosos.
Não por termos feito algo extraordinário. Mas porque percebemos que aquilo que, para nós, parecia simplesmente a coisa certa a fazer, também representava algo para muita gente dentro do esporte.
A vida humana estava em primeiro lugar. A integridade dos atletas estava em primeiro lugar. A preocupação com as outras canoas estava em primeiro lugar. A competição podia esperar. E talvez essa seja uma das maiores lições que aquele dia nos deixou.
No mar, a gente aprende rapidamente que não controla tudo. Aprende a respeitar a natureza, as condições, os outros remadores e, principalmente, os limites de cada situação. Quando entramos em uma canoa para competir, queremos remar forte, queremos ganhar, queremos chegar na frente. É natural. Faz parte do esporte. Mas existe uma linha que não pode ser ultrapassada: nenhum resultado é maior do que uma vida.
Por isso, respeito profundamente a opinião do remador Alfredo Piragibe Jr., sua história e sua experiência dentro do Va’a. Mas preciso discordar de sua leitura sobre o episódio publicada em sua coluna, aqui no Aloha Spirit Midia.
Li que a atitude daquele dia, teria sido, em algum grau resultado, de sorte ou acaso. Não vejo dessa forma. Sorte pode até explicar parte do desfecho. Mas não explica a atitude. O que aconteceu naquela canoa foi resultado de empatia, respeito, prudência, treinamento, consciência e, acima de tudo, humanidade.
Éramos seis: Sabrina (banco 1), Nalu (banco 2), Caio (banco 3), Thiago (banco 4), Rose (banco 5) e Eperson (Leme). E tenho orgulho de dizer com absoluta convicção que os seis teriam feito exatamente a mesma coisa. Não importa quem estivesse sentado em qual banco. Não importa quem tivesse tomado determinada decisão primeiro.
Começando pelo nosso capitão, Eperson Marques, todos nós tínhamos a mesma prioridade: preservar vidas e preservar a integridade das pessoas e das canoas envolvidas. Não acho justo transformar uma atitude coletiva em mérito individual.
Na canoa, ninguém rema sozinho, e, talvez, essa seja justamente uma das coisas mais bonitas do Va’a. A força de um remador depende do outro. O equilíbrio depende do outro. O ritmo depende do outro. E, em determinadas situações, a decisão de um pode proteger todos. Por isso, acredito que também não exista espaço para vaidade ou egocentrismo dentro de uma canoa.
Eu tenho pouco tempo de Va’a, vou completar quatro anos no esporte. Muito menos estrada do que muitos dos que estão lendo este texto. Mas existe algo que já aprendi: quando a gente escolhe esse esporte, escolhe um estilo de vida. Escolhe uma conexão. Com o mar. Com a natureza. Com as pessoas. Com aqueles que dividem a mesma canoa. E, para muitos de nós, com Deus.
Foi por isso que fiquei muito feliz ao ler tantas manifestações reconhecendo a atitude dos seis remadores. Porque percebemos que existe muita gente que ainda entende que o esporte não termina na linha de chegada. E talvez aquela colisão tenha nos mostrado justamente isso: que, para algumas pessoas, a competição pode vir antes de tudo. Para nós, naquele dia, não veio.

Não tenho qualquer dúvida de que, se a mesma situação acontecesse novamente, faríamos tudo outra vez. Não porque somos melhores do que ninguém. Mas porque esse é o esporte que escolhemos praticar.
O Botinas Va’a é um clube da cidade de Angra dos Reis (RJ), que tem um vibe incrível, formado por pessoas maravilhosas e que ainda está dando os primeiros passos – completará 4 anos em novembro.
Que sorte ter aqueles cinco remadores ao meu lado, em especial a minha voga braba (e esposa) Sabrina Saboia. Que sorte poder chamar essa galera de companheiros e irmãos do mar. E que sorte que, naquele dia, o final foi feliz.
No fim das contas, não existe pódio maior do que uma vida preservada. Não existe medalha que valha mais do que a consciência tranquila. Não existe resultado que seja maior do que fazer aquilo que acreditamos ser certo.
Respeito a opinião do colega, mas discordo, com respeito. Para nós, aquilo não foi apenas uma prova, foi uma experiência que reafirmou aquilo em que acreditamos. Que sorte eu tenho em remar no Botinas Va’a.