Excesso de confiança: é aí que os piores acidentes acontecem

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confiança na canoa
O mar não reconhece currículo ou experiência. Foto: Imagem gerada por IA

A segurança é um dos temas mais para quem rema no mar. No caso da va’a, por ser um esporte extremamente democrático, há uma sensação de segurança que engana muita gente. A canoa aceita todos, e isso é uma das coisas mais lindas da modalidade. Mas essa aceitação depende muito da responsabilidade de quem é aceito.

Por esse motivo, a gente sempre alerta quem está começando a remar, seja de canoa ou de stand up paddle, a ir devagar, ficar atento à previsão climática e aos equipamentos de segurança. Mas o que eu quero falar aqui, nesse texto, é sobre quem já tem mais experiência, porque é nessa categoria que acontecem os piores acidentes.

O excesso de confiança é considerado um dos vieses cognitivos mais perigosos porque cria uma falsa sensação de controle e infalibilidade, distorcendo a forma como avaliamos a realidade. Quando confiamos demais em nossas próprias habilidades ou conhecimentos, nosso julgamento fica severamente comprometido.

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Semana passada, fiz uma collab no perfil do Instagram do Aloha Spirit Mídia com o remador Flavio Bazilio. É um vídeo feito por ele durante uma sessão de downwind no litoral norte do Rio (Búzios x Cabo Frio), uma região que, quando alinha vento e ondulação, proporciona um downwind épico, principalmente pelo tamanho das vagas, que não tem comparação com nenhuma outra região do Brasil. Por isso mesmo, não dá pra vacilar nesse lugar.

Bazilio estava fazendo o downwind junto com Claudio Roy, que acaba sofrendo um huli (virada da canoa). Ao desvirar a OC1, ele se afastou da embarcação e o vento forte começou a levá-la rapidamente. Roy não usava colete flutuador e nem cordinha (leash). Por muita sorte e reflexo, ele conseguiu alcançá-la e segurá-la pelo leme, mas precisou abandonar o remo. Eles estavam a 5 quilômetros da costa. Como Bazilio bem pontuou: “Imagine se ele não tivesse conseguido. E se eu não estivesse por perto? A situação poderia ter se tornado extremamente grave.”

A mesma sorte não teve, em 2019, Guy Ringrave, fundador da WOO, uma das maiores fabricantes de canoas polinésias da Europa. Ele estava fazendo downwind na companhia de amigos na costa da França quando se afastou do grupo após conectar vários bumps. Porém, ele ficou tempo demais fora do alcance visual de seus companheiros, que então encontraram somente a canoa. Guy não usava nem colete e nem leash. Seu corpo só foi encontrado na madrugada do dia seguinte.

No início dessa semana, mais um alerta trágico: Arran Strong, um surfista profissional português muito experiente em situações pesadas de surfe, fazia uma travessia de stand up paddle com seu amigo e mentor, José Maria Pyrrait, e desapareceu no mar. Ambos haviam feito uma pausa no mar para descansar, beber água e tirar algumas fotografias. Ao retomarem o trajeto, Arran seguiu na frente, como era de costume. Pouco tempo depois, Pyrrait encontrou apenas a prancha do jovem à deriva, a cerca de 100 metros de distância. Ele também não usava leash e seu corpo, até o momento, não foi encontrado.

Ontem, vi uma postagem do Rogério Mendes, atleta e treinador muito respeitado no universo da va’a, ironizando o fato de que às vezes recebe remadores que acham ruim quando ele indica que, para remar em seu clube, precisam usar equipamentos de proteção, como coletes, porque se julgam “experientes”.

Não vou julgar essas pessoas, se são ou não são experientes, porque isso não faz muita diferença no fim das contas quando estamos lidando com o mar. Acho o Claudio Roy um cara muito casca grossa. Ele é de fato um waterman e é provável que conseguisse sair daquela situação sozinho, se o Bazilio não estivesse ali. Mas, de novo, esse não é o ponto, porque quando a nossa sobrevivência depende de “possibilidade”, a coisa se complica. Também quero salientar que todos nós estamos sujeitos a isso. Difícil (para não dizer improvável) encontrar alguém com mais de dez anos de mar que não tenha cometido alguma imprudência. Eu já fiz várias, me lasquei em algumas, e aprendi com elas: principalmente em reconhecer minha insignificância diante da imensidão do oceano.

E, então, é nesse ponto que quero chegar: especialistas em comportamento humano alertam que manter uma dose de ceticismo sobre as próprias certezas é fundamental para o sucesso a longo prazo em qualquer atividade. Por esse motivo, profissionais e líderes de alto nível costumam usar a “dúvida construtiva” para testar suas hipóteses e consultar outras pessoas antes de tomar decisões demasiadamente arriscadas.

Por mais experiente que você seja (ou acredite ser), o mar será sempre infinitamente mais poderoso. Mesmo equipado, usando todos os equipamentos de segurança e vendo a previsão do tempo, você pode passar apuro. Porque ainda existe o fator da imprevisibilidade (hoje mesmo, aqui em Floripa, havia mais de 25 nós de vento de manhã cedo, enquanto a previsão indicava apenas 7 nós para o mesmo horário).

Portanto, a verdadeira experiência na água não se mede pela coragem de desafiar o oceano de peito aberto, mas pela humildade de reconhecer nossa própria vulnerabilidade nesse ambiente.

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