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Quando começamos a remar, aprendemos que a posição mais importante da canoa é a do leme ou capitão. De fato, quem assume essa função carrega uma enorme responsabilidade ao colocar vidas no mar, como escrevi em um artigo recente. Mas, ao longo da minha trajetória na canoa polinésia, passei a enxergar com mais clareza a importância de quem ocupa a outra extremidade da embarcação: o voga.
Todos sabemos que o “remador 01” dita o ritmo, a cadência e o sincronismo da canoa. Esse, na verdade, é o básico que se espera de quem assume o primeiro banco. Mas ser um bom voga vai muito além de manter uma cadência de remada.
Um voga que não sabe interpretar o mar, não tem sensibilidade para sentir a canoa, não sabe executar um leme de proa ou acelera sem perceber que seus companheiros não conseguem acompanhá-lo pode comprometer toda a equipe. Foi uma experiência vivida na Bravus Va’a que me fez olhar para essa posição de outra maneira.
Quando iniciamos as atividades do clube no Pontal do Recreio, a maioria dos nossos remadores era iniciante. Muitos ainda estavam aprendendo os fundamentos da remada, mas já precisavam enfrentar a arrebentação com ondas para entrar no mar e retornar à praia com a canoa.
Naquela época, a vida de quem estava no leme era muito dura. Pegar uma onda com uma OC6 já exige técnica, leitura e responsabilidade. Fazer isso sem o apoio de um bom voga torna a situação ainda mais difícil e, principalmente, mais arriscada.
Foi então que começamos a ensinar os alunos a executar o leme de proa, técnica que alguns também chamam de “espetar”. Independentemente da denominação mais correta, o resultado foi muito claro: reduzimos a quase zero as situações em que nossas canoas patinavam nas ondas.
Naquele momento, percebi que a segurança da canoa não estava apenas nas mãos de quem ocupava o banco seis. Havia também uma enorme responsabilidade no banco um. O leme lê o que vem por trás, mas o voga é o primeiro a encontrar o que está pela frente.

É ele quem sente a entrada da canoa na onda, percebe uma mudança de corrente e identifica o momento de estabilizar a canoa ou ajudar a direcionar a proa. Em condições mais exigentes, essa leitura pode ser tão importante quanto a condução realizada pelo leme.
Também foi no clube que percebi outra questão: não adianta corrigir excessivamente a remada de quem está atrás quando o próprio voga apresenta muitas deficiências técnicas.
Muitos lemes recorrem ao comando mais comum e até controverso da canoa: “Alonga a remada!”. Mas, enquanto isso, o voga segue à frente, remando com seus braços de T-Rex e cadência beija-flor.
Não se trata de criticar o remador, mas de compreender como o conjunto funciona. Especialmente em uma aula coletiva, com pessoas de diferentes níveis técnicos, nem sempre a equipe conseguirá encaixar sua remada se a referência oferecida pelo primeiro banco não for adequada.
O movimento do voga se propaga pela canoa. Se ele encurta, a tendência é que os demais também encurtem. Se perde o tempo, o desequilíbrio percorre os bancos. Se acelera além da capacidade da equipe, a sincronia desaparece e cada remador começa a remar individualmente, tentando alcançar a pá da frente. Um bom voga, portanto, não é necessariamente aquele que imprime a maior frequência. É aquele que encontra a frequência possível para aquele conjunto de remadores, naquele mar e naquele momento.
Ele precisa ter técnica, mas também muita sensibilidade. Precisa conhecer muito bem sua equipe, observar a resposta da canoa e entender que liderar a cadência não significa impor um ritmo. Significa construir um ritmo que todos consigam sustentar.
Da mesma forma, voga e leme precisam estar conectados. Um observa o caminho à frente; o outro, o comportamento da canoa e o que se aproxima por trás. Quando essa comunicação funciona, as decisões se complementam. Quando não funciona, a canoa pode receber comandos conflitantes, mesmo que nenhuma palavra seja dita.
Continuo acreditando que o leme carrega uma responsabilidade enorme. É ele quem conduz, toma decisões e responde diretamente pela segurança da embarcação. Mas hoje também acredito que precisamos preparar nossos vogas com o mesmo cuidado dedicado à formação dos lemes.
Não basta colocar no primeiro banco o remador mais forte, mais experiente ou mais rápido. É preciso formar alguém que saiba ler o mar, compreender a equipe, ajustar a própria remada e colaborar nas manobras quando necessário. Uma canoa não é conduzida apenas por quem está atrás. Ela também é orientada por quem está à frente.
Talvez o leme seja o responsável por indicar para onde a canoa deve ir. Mas é o voga quem transforma essa direção em um movimento que todos conseguem acompanhar.
Por isso, depois de algum tempo remando, ensinando e observando canoas no mar, cheguei a uma conclusão simples: o voga é tão importante quanto o leme. Cada um exerce uma função diferente, mas ambos carregam a responsabilidade de fazer seis remadores se tornarem uma única canoa.