
Entrevista | Guilherme Borrajo
Medalhista no Mundial de Sprint Va’a, Guilherme Borrajo troca passa a limpo sua carreira e recorda ... leia mais

Tem uma hora, na V1, em que você para de pensar. Não é hora bonita, não é aquela do vídeo com drone e trilha havaiana. É por volta do quilômetro seis, o ombro já reclamou duas vezes, a ama bate na onda fora do tempo e a cabeça, sem ter mais nada de útil a fazer, começa a cantar. Sozinha. Sem pedir licença. E o que ela canta, no meu caso, é taitiano. Ou algo que eu jurava ser taitiano.
Isso é culpa de anos assistindo Vaa Vision, Shell Va’a e o resto do acervo que o YouTube entrega para quem se comporta mal e dorme às onze pesquisando “V1 technique catch“. A gente entra ali por causa da remada — pela rotação de tronco daqueles caras, pela pá que entra na água sem espirrar, pela naturalidade de quem cresceu com o mar do lado de casa. Mas ninguém sai só com a remada. Sai também com a trilha sonora. Aquele reggae taitiano meio arrastado, meio malandro, com uma batida que parece feita para o corpo ir junto. E, no meio de tudo, sempre a mesma palavra, repetida como mantra, como refrão, como senha: “shipa”. “Shipa. Shipa. Elle aime shipa”.
Eu, com meu português de Charitas e minha reverência de quem respeita a cultura alheia, criei uma teoria bonita. Devia ser algo ancestral. Espírito, força, mana, sabe-se lá. Palavra que os navegadores gritavam quando o vento entrava na vela de caranguejo. Eu remava ouvindo aquilo e me sentia parte de uma linhagem de cinco mil anos de Pacífico. Repetia baixinho na proa, todo solene, como quem reza. Aí fui pesquisar.
Primeiro descobri que “shipa” não pode nem ser palavra taitiana. O taitiano não tem “s”. Nem “sh”. O alfabeto tem oito consoantes e a oclusiva glotal, e nenhuma delas faz aquele barulho. Ou seja: minha palavra ancestral era gíria. Nova em folha. Filha da internet, da caixa de som e do TikTok. Depois descobri o resto, e o resto me derrubou do banquinho: “shipa” é o “créu” deles!
Não é metáfora. É dança. É requebrado. É a palavra que se canta enquanto o quadril faz o que o quadril faz, e todo mundo na festa entende exatamente o que fazer com aquilo. Eu estava, durante todos aqueles quilômetros de treino, com cara de monge polinésio, cantando funk. Funk de Papeete. Créu com sotaque francês e tambor tō’ere no lugar do tamborzão. E o mais engraçado: faz todo sentido.
“Porque o “créu”, aquele nosso, o de 2008, com a contagem subindo até velocidade cinco, nunca foi só sacanagem. Era uma instrução técnica. Era progressão de cadência.”
Porque o “créu”, aquele nosso, o de 2008, com a contagem subindo até velocidade cinco, nunca foi só sacanagem. Era uma instrução técnica. Era progressão de cadência. Era, se você parar para pensar, um treino intervalado com letra. O sujeito anunciava a velocidade e o corpo respondia — e quem não tinha condicionamento entregava lá pela três.
Remo é igualzinho. A prova inteira é uma contagem de “créu”. Você larga em velocidade cinco porque todo mundo larga em velocidade cinco, cai para dois porque descobre que é humano, encontra o três que dá para sustentar, e guarda o cinco para os últimos quinhentos metros, quando a boia amarela aparece e a sua taxa de remada sobe de sessenta para oitenta sem você autorizar. Quem chega inteiro nessa hora ganha. Quem gastou o “créu” no começo assiste. E tem a segunda coincidência, que é a que realmente importa.
Tanto no “créu” quanto no “shipa”, o negócio acontece no quadril. Não é braço. Nunca foi braço. Todo remador iniciante — eu incluído, com orgulho e com dor — acha que se rema com o bíceps, e passa os primeiros meses puxando a água como quem briga com ela. Aí um dia alguém filma você de lado, você assiste, e entende: os caras do Shell não têm braço maior que o seu. Eles têm rotação. Têm quadril entrando na remada, tronco girando, perna empurrando o barco por baixo. O braço é só a corda que liga uma coisa na outra. Ou seja: para remar bem, tem que saber requebrar. Tem que ter “shipa”. Tem que ter “créu”.
O Pacífico e a Zona Norte carioca chegaram, cada um do seu jeito, na mesma conclusão sobre o corpo humano: que a força mora no meio, e que quem só usa a ponta se cansa. Uma descobriu isso na canoa, a outra no baile. As duas transformaram em música, porque nas duas culturas o corpo aprende melhor cantando.
Então agora eu remo em paz. Ainda ponho a mesma playlist. Ainda canto “shipa” na proa às cinco e meia da manhã, com o Rio inteiro do outro lado da baía ainda dormindo. Só que agora eu sei o que estou cantando. E, honestamente, gosto ainda mais.
Velocidade cinco na última boia. Sempre.