
Leme ao Pontal: Assista à reportagem do Globo Esporte
Assista à reportagem do Globo Esporte sobre o desafio Leme ao Pontal exibida nesta quarta-feira, 3 de março

Imagine um homem ou uma mulher de 40, 50 ou até 60 anos, que nunca praticou esporte com regularidade e, de repente, passa a acordar às 4h30, discutir planilha de treinamento, comprar relógio com GPS, controlar frequência cardíaca e falar sobre carboidrato como se estivesse se preparando para as Olimpíadas. Em pouco tempo, aquela pessoa que reclamava de subir dois lances de escada está remando quilômetros, viajando para competir e analisando vídeos da própria técnica em câmera lenta.
É uma transformação extraordinária. A autoestima cresce, o corpo muda, novas amizades aparecem e a pessoa descobre uma disposição que nem imaginava possuir. O problema começa quando o esporte deixa de fazer parte da vida e passa a comandá-la.
No início, tudo é festa. O companheiro ou a companheira incentiva, acorda cedo para assistir à largada, viaja junto, ajuda a carregar equipamento e aceita passar horas na areia, debaixo do sol, esperando por uma prova que deveria começar às 8h, mas foi transferida para às 11h30. E ainda sorri para a foto.
Achamos isso lindo. Pensamos: “Encontrei a pessoa perfeita.” E, de fato, encontramos. A questão é que até a pessoa perfeita tem limites, precisa de atenção e, eventualmente, gostaria de viajar para algum lugar que não envolvesse canoas, equipes de competição e uma reunião técnica na noite anterior.
Com o passar do tempo, o calendário da família começa a ser organizado em torno das competições. A viagem a dois é adiada porque haverá um treino importante. O aniversário do parente coincide com a prova. O almoço de domingo precisa terminar cedo porque segunda-feira tem treino às 5h30. O cartão de crédito passa a financiar inscrições, passagens, hospedagens, suplementos, remos, coletes, uniformes e aquele equipamento “indispensável” que promete reduzir alguns segundos no percurso.
Enquanto sacrifícios extremos são esperados do atleta profissional, cuja vida depende de uma carreira curta, essa não é a realidade de 99% dos remadores de va’a, que são amadores e não e não precisam carregar o fardo dessa mesma obrigação.
Enquanto isso, quem não rema vai ficando em segundo plano. Não por maldade, mas porque sempre existe mais um treino, mais uma prova e mais uma oportunidade “imperdível”. O problema é que, quando todas as oportunidades são “imperdíveis”, alguma outra coisa acaba sendo perdida.
Também chega o momento em que o companheiro ou a companheira se cansa de mofar na areia. Afinal, assistir a uma competição de canoa havaiana nem sempre é exatamente como acompanhar uma partida de futebol. A pessoa vê a largada, observa algumas canoas desaparecerem no horizonte e passa as próximas horas tentando descobrir se aquele pontinho no mar é você, outra equipe ou uma boia.
Quando finalmente a canoa retorna, o atleta está exausto, cercado pela equipe e ocupado analisando cada detalhe da prova. O acompanhante, que ficou horas esperando, recebe um abraço rápido e a promessa de que “na próxima será mais tranquilo”. Nunca é. Mas existe uma pergunta ainda mais desconfortável: valeu todo esse esforço?
O resultado apareceu? O investimento de tempo, dinheiro e energia trouxe o pódio esperado? Todo o desgaste familiar foi realmente necessário? Ou a equipe participou de tantas provas que não conseguiu treinar o suficiente para nenhuma delas?
Competir exige preparação, maturidade e escolhas. Não basta inscrever a equipe em todas as competições disponíveis e esperar que o volume de boletos se transforme automaticamente em desempenho. Muitas vezes, a ansiedade por competir impede justamente aquilo que produz resultados: continuidade, treinamento técnico, recuperação e tempo para amadurecer o conjunto.
E mesmo quando o pódio vem, é preciso perguntar qual foi o preço pago por ele. Medalhas são importantes, histórias são inesquecíveis e superar limites faz parte do esporte. Mas nenhum troféu deveria custar um relacionamento, a convivência com os filhos ou o equilíbrio financeiro da família.
No final, tudo entra na conta. As horas de treino, as viagens canceladas, os finais de semana ausentes, o dinheiro investido, as promessas adiadas e a paciência de quem permaneceu ao nosso lado. Mesmo que o atleta nunca faça essa conta, a balança estará lá — e alguém certamente estará fazendo.
A canoa havaiana deve transformar a vida para melhor, não ocupar todos os espaços dela. Competir é maravilhoso, mas escolher as provas certas, respeitar o tempo de preparação e preservar quem caminha ao nosso lado também faz parte da vitória.
A maior ironia é essa: o esporte que um dia trouxe leveza e liberdade, com o tempo, ganha peso de obrigação que pode cobrar um preço alto. Cruzar a linha de chegada e subir no pódio pode ser emocionante. Cruzar a linha e descobrir que não há mais ninguém esperando por você é uma derrota que medalha nenhuma consegue esconder. E então você se vê preso a algo que deveria, justamente, te libertar.