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A canoa havaiana virou moda. Até aí, tudo certo. O problema é que, junto com o crescimento, veio aquele combo clássico brasileiro: improviso, pressão por dinheiro e uma boa dose de “vai dar nada”. E é exatamente nesse ambiente que as travessias e expedições começaram a se multiplicar como produto milagroso — vende fácil, dá margem e ainda rende muitas fotos bonitas de “superação” nas redes sociais.
Na prática? Nem sempre é essa poesia toda. Travessia não é aula estendida nem passeio gourmet com remo na mão. É mar aberto, com tudo que isso envolve: vento, corrente, onda, fadiga e imprevisto. Mas o que se vê hoje é gente tratando isso como se fosse um evento recreativo com leve tempero de aventura. E aí começa a dar errado antes mesmo de sair da areia.
A receita é quase sempre a mesma: junta remador de tudo quanto é canto, cada um com uma técnica diferente, alguns com nível físico duvidoso, outros que nunca viraram uma canoa na vida e que, se caírem na água, não voltam — viram passageiro do problema. Mistura isso com percurso longo, ego inflado e zero padronização. Pronto. Está montado o cenário do caos.
E não precisa de bola de cristal pra saber onde isso pode parar. Mas o ponto mais curioso — ou preocupante — é que muita gente acha que está segura só porque tem “barco de apoio”. Como se a simples presença de um barco resolvesse qualquer coisa. Não resolve. Se a operação for mal dimensionada, o barco vira espectador privilegiado de problema acontecendo em escala.
E aí entra outro detalhe que ninguém gosta de comentar: a lógica financeira. Travessia hoje não é só atividade esportiva, é produto. Foi vendida, foi parcelada, o dinheiro já entrou — às vezes já saiu também. Cancelar? Vira prejuízo. E é nesse momento que o discurso de segurança começa a ficar mais flexível do que deveria.
O mar está ruim? “Dá pra ir.” O vento apertou? “Mais emoção.” A previsão piorou? “Confia.” Confia em quê, exatamente?
O mar está ruim? “Dá pra ir.” O vento apertou? “Mais emoção.” A previsão piorou? “Confia.” Confia em quê, exatamente?
Porque o mar, diferente de planilha, não aceita ajuste depois. Ele só responde ao que encontra — e normalmente responde sem muita paciência.
Outro clássico é a falsa sensação de segurança em grupo grande. Tem gente que acredita que quanto mais canoa na água, melhor. Na teoria, parece bonito, quase uma procissão marítima. Na prática, vira desorganização, dispersão e aumento brutal da chance de dar problema em mais de um ponto ao mesmo tempo. E quando isso acontece, não tem apoio que resolva.
Sem falar na comunicação, que muitas vezes é na base do improviso. Coordenação? Cada um no seu padrão. Comando? Depende do tamanho do ego de cada remador. Em mar mexido, isso não é detalhe — é o tipo de coisa que separa controle de bagunça.
E claro, não dá pra ignorar o fator humano. Sempre tem aquele que quer provar alguma coisa, o que não admite recuar, o que ignora orientação e o que claramente não deveria estar ali, mas deu um jeito de entrar. Em terra, isso é só incômodo. No mar, vira risco coletivo.
E aqui entra uma verdade meio desconfortável: tem gente participando de travessia que não deveria nem estar cogitando isso ainda. Falta técnica, falta preparo, falta experiência básica. Mas, como sempre, aparece alguém disposto a aceitar e a faturar.
No fim, cria-se uma ilusão perigosa de que travessia é algo acessível para qualquer um com coragem e dinheiro para pagar. Não é. Coragem sem critério, no mar, é só imprudência com marketing bonito.
E antes que pareça que a culpa é só de quem organiza, não é. Quem participa também precisa assumir um mínimo de responsabilidade. Se você entra em qualquer travessia sem saber quem está organizando, sem entender a estrutura, sem questionar nada e confiando só na vibe do grupo, você não está sendo aventureiro — está sendo displicente.
No meio disso tudo, o mais curioso é como o básico virou opcional. Saber nadar bem, entender como desvirar uma canoa, respeitar limite físico, usar equipamento de segurança — tudo isso deveria ser ponto de partida, não diferencial. Mas, em muitos casos, virou barreiras para aumentar o faturamento.
E o mar… bom, o mar continua o mesmo. Não está nem aí se a remada foi vendida, se o grupo é animado ou se a foto de “superação” vai ficar boa. Ele não negocia, não facilita e não releva erros básicos.