
Aloha Spirit Festival | Calendário de 2019 definido
Maior festival de esportes aquáticos da América Latina irá acontecer nos meses de março, junho e ... leia mais

A canoa polinésia tem algo escapa à lógica de quem pratica esporte. Não é só exercício. Existe uma conexão difícil de traduzir entre o remador, o mar, a equipe e aquele silêncio que acontece entre uma remada e outra. A modalidade nasceu muito antes de existir drone, câmera lenta, relógio esportivo, legenda motivacional pronta para Instagram ou textão em grupo de Whatsapp.
Só que, em algum momento, essa conexão começou a se perder dentro da própria vitrine. Hoje existe uma necessidade quase compulsiva de provar alguma coisa o tempo inteiro. Mostrar que treina dezenas de quilômetros por semana, que acorda antes do sol nascer, que faz musculação, que pertence às super equipes, que frequenta os clubes de maior visibilidade e vive uma rotina digna de documentário esportivo.
A impressão é simples: remar já não basta. Agora precisa ser registrado, editado, publicado e validado diariamente. Criou-se um lifestyle obrigatório dentro da canoa.
E o problema não está em compartilhar momentos do esporte. Isso sempre fez parte da comunidade. O problema começa quando a experiência deixa de ser vivida para ser performada. Quando o remador passa mais tempo preocupado com o conteúdo do que com a própria vivência.
A canoa entrou, silenciosamente, na lógica da exibição permanente. Todo dia parece repetir o mesmo roteiro: foto no nascer do sol, vídeo entrando na água, print do relógio mostrando quilometragem, treino em câmera lenta, frases sobre disciplina e legendas sobre superação, como se a vida normal já não fosse exigente o suficiente.
Porque trabalhar, enfrentar trânsito, pagar contas, cuidar da família e sobreviver emocionalmente ao mundo moderno já consome energia de sobra. Mas nas redes sociais parece existir uma obrigação constante de parecer altamente motivado, produtivo e inspirado o tempo inteiro. Só que os bastidores raramente acompanham a estética performada e publicada.
Por trás das fotos perfeitas existe cansaço, ansiedade, comparação, ego ferido, competição infantil e uma necessidade quase desesperada de aprovação. Muita gente que aparenta viver um sonho esportivo nas redes está emocionalmente esgotada fora delas. E talvez essa seja a maior ironia da história.
Muitos entraram na canoa justamente buscando o oposto disso tudo. Queriam paz. Queriam saúde mental. Queriam silêncio. Queriam escapar do excesso do mundo moderno. Mas sem perceber, transformaram o esporte em mais uma extensão da pressão estética e emocional das redes sociais.
Uma espécie de reality show fitness havaiano. É por isso que a autoavaliação se tornou tão necessária dentro da modalidade. Perguntar honestamente, “por que estou remando?”, talvez seja hoje mais importante do que qualquer planilha de treino de alta performance.
Porque muita gente já não consegue separar paixão de validação. Não sabe mais se rema porque ama o esporte ou porque precisa sustentar uma imagem construída online. E isso cobra um preço.
A comparação constante adoece. A exposição permanente desgasta. A obrigação de parecer forte, disciplinado e inspirado o tempo inteiro cansa qualquer pessoa. Ninguém consegue viver em estado permanente de trailer motivacional do Rocky Balboa.
Quem vive a canoa entende que nem todo treino precisa virar postagem, nem toda conquista precisa de aplauso e nem toda felicidade precisa ser exibida. O mar continua incrível mesmo sem plateia.
Aliás, curiosamente, algumas das pessoas mais fortes da modalidade quase não aparecem nas redes sociais e nem nos grupos de whastapp. Estão ocupadas demais vivendo o momento e não para transformá-lo em conteúdo.
Talvez esteja faltando exatamente isso: presença. Menos preocupação com engajamento. Menos ansiedade por validação. Menos necessidade de parecer algo o tempo inteiro. E mais conexão verdadeira com aquilo que fez tanta gente se apaixonar pela canoa desde o início.
O esporte nunca precisou de filtros para ser bonito. Em meio a tanta performance e necessidade de validação nas redes sociais, vale a pena se questionar: “Eu ainda amo remar… ou apenas amo parecer alguém que rema?”