Va’a além dos números: o que os clubes sacrificam ao aderir aos apps de bem-estar

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plataformas de aulas Wellhub & TotalPass
O que parece moderno e eficiente à primeira vista esconde um impacto profundo, que vai muito além do financeiro. Foto: Porapak Apichodilok / Pexels

O Va’a nunca foi apenas um esporte. Sempre foi comunidade, lealdade e pertencimento. Quem entrou de verdade nesse mundo sabe que nunca foi só sobre remar bem, ganhar prova ou cumprir treino. O clube é casa. A canoa é família. O grupo está junto no treino duro, no evento, no perrengue e também nos momentos difíceis da vida. Sempre foi assim.

O problema é que esse tipo de remador está desaparecendo. E não por acaso. Falo isso como gestor da Bravus Va’a, que hoje opera com duas bases. Uma no Recreio, que não aceita Wellhub nem TotalPass, e outra na Barra da Tijuca, que aceita. E a diferença entre elas não é sutil. É gritante. É diária. É humana.

Na busca por crescimento rápido e números inflados, muitos clubes abriram as portas para plataformas como Wellhub (ex-GymPass) e TotalPass. Para quem não conhece, esses apps são plataformas de bem-estar que permitem aos usuários acessar diversas academias e atividades físicas por meio de uma única assinatura, geralmente oferecida por empresas aos seus funcionários. O que parece moderno e eficiente à primeira vista esconde um impacto profundo, que vai muito além do financeiro. O impacto é cultural e, principalmente, humano.

Esses sistemas não formam remadores. Formam usuários. Pessoas que consomem a aula como quem escolhe um treino qualquer na agenda do dia. Não criam vínculo, não desenvolvem compromisso e não constroem identidade com o clube. Remam onde dá, quando dá. Hoje em um clube, amanhã em outro. Não por curiosidade saudável, mas porque o próprio sistema incentiva essa lógica de passagem.

No Va’a, pertencimento é base de segurança, de evolução técnica e de confiança dentro da canoa. Remador que aparece de forma irregular, que não conhece o grupo, que não entende o ritmo coletivo, ocupa banco, mas não soma. Não cria sintonia, não cria leitura de mar compartilhada e não fortalece a canoa como unidade.

Quem pertence investe. Investe tempo, energia e também equipamento. Compra remo, compra colete, entende a logística, ajuda a carregar canoa, participa do que acontece fora da água. O usuário de aplicativo, na maioria das vezes, não faz nada disso. Ele consome a aula e vai embora. Onde não há compromisso, não nasce vínculo. E sem investimento emocional, não existe lealdade.

Essa diferença fica escancarada quando olhamos para fora da água. Na festa de fim de ano da Bravus, quase 90% dos alunos da base do Recreio estavam presentes. Gente que se conhece, que convive, que se sente parte de uma família. Já na base da Barra da Tijuca, onde os aplicativos operam, apenas cerca de 20% apareceram — na maioria mensalistas. Não por maldade. Mas porque não há laço e nem pertencimento real.

Com o tempo, o clube muda de natureza. A conversa diminui, o cuidado coletivo enfraquece e a ajuda espontânea desaparece. Tudo passa a ser responsabilidade do instrutor. O clube deixa de ser comunidade e passa a funcionar como um prestador de serviço rotativo, com gente entrando e saindo diariamente sem deixar marca.

É verdade que esses sistemas trazem mais pessoas. E é preciso ser honesto: hoje, no caso da base da base Barra da Tijuca, eles representam cerca de 35% do faturamento. Aceitamos essa realidade cruel. Mas não romantizamos. Porque esse crescimento tem custo refletido na cultura e na alma do clube.

Crescer sem pertencimento é inchaço. E todo inchaço cansa, desorganiza e, em algum momento, estoura. O Va’a sempre foi construído sobre confiança, lealdade e tempo compartilhado. Nada disso nasce de um aplicativo que incentiva a rotatividade.

Se essas plataformas deixassem de existir amanhã, quantos desses remadores continuariam no mesmo clube? Talvez o maior risco desses serviços não seja apenas o financeiro. Talvez seja cultural. E cultura, quando se perde, não se recompra com dinheiro nenhum.

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