Professor não é necessariamente comandante

Compartilhe
professor de canoa
É fácil ser dono de clube, basta ter dinheiro. Controlar o leme de uma canoa, também não é muito complicado. Mas ser comandante de uma embarcação é outra história. Foto: Imagem gerada por IA

Começo esse artigo escrevendo essa frase depois de um evento que vi no, dia 08 de novembro de 2025, aqui em Niterói. Graças a Deus sem nenhuma consequência, mas que me chamou muito a atenção em como os erros se repetem.

Um contexto: havia previsão de um vento muito forte de Sudoeste desde pelo menos
uma semana antes. Eu mesmo tinha um trabalho corporativo para fazer e, tendo que dar uma
resposta na terça, a resposta foi: “Evento cancelado”. Todas as previsões indicavam no mínimo
um cenário ruim. Avisos da Marinha, todos os sites de previsão, e até mesmo os meios de
comunicação tradicionais, como tvs abertas e rádios.

Todos os eventos (que eu tenho notícias) outdoors na água especialmente seguiram
esse mesmo protocolo, de cancelar. Campeonatos de surf, corridas entre outros postergaram
os eventos no estado do Rio de Janeiro.

Ocorre que com relação as aulas sou muito partidário de que previsão não é
“assertação”. E que as aulas tradicionais podem e devem ser canceladas na areia. MAS DEVEM
SER CANCELADAS SE ASSIM AS CONDIÇÕES ESTIVEREM RUINS OU COM CHANCES DE FICAR
RUINS. Não é porque o aluno chegou que ele vai para o mar.

Moro em uma vila de pescador e olho para o mar e para o céu todos os dias e nesse dia, as 04h30, estava tudo parado; aqueles dias que parece que Deus está enchendo seu pulmão para depois soprar. Nesses dias, essa é a minha sensação. Saí de casa, cheguei na praia e no Rio de Janeiro já tudo escuro e encrespado, vindo para Niterói, ou seja, o Noroeste previsto já estava na área e apertando a cada minuto.

Cancelamos a aula, e no mar uma única canoa saiu em uma uma direção na qual, se o vento previsto entrasse mesmo, ela não voltaria para sua base com os alunos. Estaria de “bochecha”, ou seja de lado pela proa, no caminho do vento. O vento entrou e , obviamente, a canoa não conseguiu voltar e teve que desembarcar em uma praia na qual o vento jogava, dando sorte que não haviam os tradicionais quebras cocos existentes nessa praia. Ventos fortes de ao menos 30 nós sopravam e na canoa o Leme no “banco 7” e todos sem colete. Bastava um Huli ou o Leme se desequilibrar e cair da canoa para o caos se instaurar. Mais uma vez, a sorte, ou o anjo da guarda, esteve presente.

Bem, isso em tese não é nada demais. Todos saíram ilesos, exceto que as decisões tomadas não foram as melhores, salvo a de, já no final, decidir aterrar. Foram elas:

1 – Sair quando não havia nenhuma embarcação, repito, nenhuma embarcação, os barcos que estavam fora da Baia entraram para se abrigar;

2 – Sair pelo para uma direção cuja volta não seria possível com o vento contra dessa magnitude e com a tripulação envolvida;

3 – Ir contra todas as previsões de vento;

4 – Nessas condições, ninguém de colete.

5 – Em caso de Huli, os procedimentos de esgotamento naquelas condições se tornam impossível mesmo para os mais experientes.

Daí vem a real questão: Professor não é comandante.

De acordo com a Norman 211, que trata de embarcações de esporte e recreio como as
canoas polinésias em tese se enquadram:

“COMANDANTE – também denominado Mestre, Arrais ou Patrão, é a designação do tripulante responsável pela operação e manutenção da embarcação, em condições de segurança extensivas à carga, aos tripulantes e às demais pessoas a bordo.”

Percebam como isso se aplica a canoa. Aquele gestor de clube que um dia aprendeu a lemear, porém passou por pouca experiência, não terá capacidade de assegurar nem a manutenção da embarcação (muitas vezes desconhece até mesmo que um problema é de fato um problema), não sabe ler gráficos e fazer sua própria analise (logo, não está garantindo as condições de segurança principalmente caso da canoa, às pessoas a bordo).

É muito fácil ser dono de clube de canoa, em tese, ser Leme mais ainda. Como no mar, é fácil ser dono de uma empresa de embarcação, basta ter dinheiro; É fácil ser timoneiro e botar o leme para bombordo e boreste; Mas para ser COMANDANTE, aí é outra história.

Tem que ter tempo, tem que aprender com os mais antigos aonde colocar o barco em cada situação, tem que entender que os maiores acidentes acontecem não por falhas grandes, mas por pequenas falhas que desencadeiam grandes eventos, como uma escotilha aberta, como um cabo mal amarrado, como algo solto que fure o casco ou o convés. Essas falhas são geradas por dois fatores principais: ou a automação do processo pela equipe (o que gera desatenção, algo possivelmente desastroso), ou pelo desconhecimento. Portanto o comandante antes de sair faz um enorme check list mental e visual. A linha entre estar tudo bem ou o navio afundar é muito tênue, estatisticamente em um grande navio ocorre em até 5 minutos!

O comandante não conta com os passageiros para resolver problemas, conta com sua tripulação, e se todos da tripulação são passageiros (alunos são passageiros) ele se torna o comandante e o passageiro, logo ele tem que resolver tudo sozinho ou coordenar todo o processo! Ele tem que ter conhecimento, ter passado por situações e treinamentos de emergências e ter sangue frio para tomar decisões precisas e abortar diante das adversidades.

Seguir a frente em certas condições é naufragar. Portanto, ser professor, ser dono de clube, ser Leme e ser comandante são coisas totalmente diferentes!

Alunos – Times – Equipes

comandante canoa
Quando um dono de clube recebe um aluno inicialmente ele não recebe um tripulante, ele recebe um “passageiro” que confia 100% em sua avaliação. Foto: reprodução Instagram

Seguindo o raciocínio acima, quando um dono de clube recebe um aluno inicialmente ele não recebe um tripulante, ele recebe um “passageiro” que na maioria das vezes não tem noção alguma do que representa perigo ou tranquilidade e confia 100% na avaliação do comandante. Tudo o que o comandante falar o aluno vai fazer sem questionar. Uma enorme responsabilidade! Enorme! Esse “passageiro” por outro lado é o cliente do clube e dependendo de como se olhe para ele, ele vira “cifrão”, e aí os problemas acontecem. Para não perder dinheiro, com medo de perder o aluno, o clube mantém a aula nesse dia, apenas seria mais um dia. E a consequência é acidente, o incidente ou o trauma em alguém.

Essa também é uma outra causa em acidentes marítimos: Ir a qualquer custo já que se esperar perde-se
dinheiro, mesmo as condições estando severas demais. Um bom comandante irá contra o seu
patrão e não sairá do Porto Seguro, pois tem a consciência da gravidade e do risco envolvido.

Nada paga uma vida, e horas parado sem dúvida é mais barato que a perda do navio. Alunos não são cifrão, eles sustentam os clubes, mas são pessoas que a gente lida e tem a obrigação de colocá-los em situações de conforto e sem riscos. O conceito de conforto obviamente é individual, mas nesse sentido, no menor risco possível.

Agora analisando a diferença entre time e equipe eu diria que time é quem você corre provas e equipe é aquela que você pode contar na hora do problema. Nem todo o time é equipe e nem toda equipe é time. Um time são os remadores mais rápidos! Neste caso os alunos são atletas de provas de Va’a!

Muitos times não têm experiência para uma travessia sozinhos e, em caso de problema, não vão conseguir resolver. O barco de apoio é fundamental ou ao menos o comandante orientando o que fazer.

Quando falamos de equipe é aquela que vou olhar e vou saber que não vou precisar coordenar nada, todos já sabem imediatamente o que fazer, onde atuar no problema. Nas expedições que fazemos Anamaue, a escolha pelos tripulantes sempre foi: “Se eu precisar dele ele vai me salvar, se ele precisar de mim eu vou salva-lo”. Neste caso são tripulantes.

Claro que tem muitos times que tem a pegada de Equipe, onde todos são antes de atletas, tripulantes. Apenas para exemplificar:

Fizemos uma travessia de canoa a vela de Jurujuba para Angra dos Reis passando por fora da Restinga da Marambaia. Já no final da restinga observamos que as amas estavam completamente cheias de agua, quebraram no fundo, com as ondas quicando no vento.

Tínhamos duas opções, ou tentar ir para Angra, ou parar na praia do Sino, no final da Marambaia. A solução decidia foi desembarcar na praia do Sino tentar consertar. Na hora que a gente desembarcou, imediatamente já foi cada um dos 4 para desamarrar um cabo, depois cada um buscando onde estava quebrado e juntos consertamos e seguimos viagem. Não foi preciso COMANDO. A tripulação éramos eu, Alex Piu – Vencedor da Regata Cape do Rio (Africa– Brasil); Guido Serafini (Sargento do GMAR e atualmente membro do GOA); Augusto Donadel, remador e velejador desde sua infância. Em tese, como time de Va’a de competição, nenhum grande atleta, como equipe, sem dúvidas uma das grandes que já trabalhei.

Conclusão: está na hora de aumentarmos os níveis de conhecimento do Profissional do Va’a

Existem inúmeras formas de viver do VAA. Uns clubes têm na sua veia as competições, outros o Lazer, outros os passeios turísticos, outros as Expedições, outros ainda um pouquinho de cada coisa. O que os clubes têm que entender é o papel que cada profissional exerce dentro da gestão, O gestor, o profissional de navegação, o profissional de educação física.

Estamos vivendo um momento de revermos protocolos de segurança. Coisas simples como em um downwind sempre estar dois remadores perto. Hoje há tags de rastreamento, localização em tempo real em GPS; entender que usar colete não é coisa de quem não tem habilidade ou coragem. Se fosse assim, piloto de formula um não usava capacete, nem os big rideres do surfe usariam coletes para se salvarem entre muitos outros eventos. Infelizmente, tivemos mortes recentes no Va’a que, com protocolos mínimos de segurança que devemos implementar, teriam sido evitadas. A ideia dessa mudança de protocolos é evitar que continuem acontecendo. Inevitavelmente se não aprendermos com os erros e continuarmos
achando que é o acaso o responsável pelos incidentes e acidentes esses eventos não se cessarão. A grande maioria dos acidentes que ocorreram até hoje foram quase na sua maioria ocasionados por eventos que outrora ocorrera.

Somos uma comunidade ainda pequena. Sequer estamos listados como atividade esportiva no quadro da Normam 211, logo os acidentes que ocorrem influenciam não apenas um determinado clube, mas toda essa comunidade, todo um esporte que vem se construindo há 25 anos no Brasil!

Quando um acidente ocorre e todos dizem que é normal, que “está tudo bem”, não estamos ajudando nem o clube que sofreu o acidente nem a comunidade do Va’a. Na verdade, estamos apenas maquiando um problema sério que precisa ser olhado com compaixão e também com seriedade para evitar que aconteça de novo.

A busca nunca será por culpados, mas sim causas que se forem ocasionadas por erros humanos, como evitar? Cursos nas plataformas das confederações, federações e associações? Temos a ACA – American Canoeing Association como uma excelente forma de seguir exemplos de cursos e de qualificações de
remadores!

Lembre-se de que se os influenciadores influenciam, a mudança de postura deve ser feita pelos grandes nomes e exemplos da nossa atividade. Acredito realmente que a maioria dos grandes atletas, donos de bases, professores de va’a tem total capacidade de gerenciar um problema, contudo será que quem o segue e se inspira terá também essa capacidade fazendo a mesma coisa?

Que sejamos Comandantes, não apenas lemes de nossos alunos! Que nossos alunos sejam pessoas, não apenas cifrão. Que entendamos que quando levamos pessoas para o mar, levamos sempre conosco internamente uma palavra polinésia: “Kuleana”, que significa além privilégio, principalmente, RESPONSABILIDADE!

Aloha!

Não perca nada! Clique AQUI para receber notícias do universo dos esportes de água no seu WhatsApp

Compartilhe