
Programação do Aloha Spirit Brasília
Maior evento de esportes de água da América Latina começa nessa sexta-feira (21), em Brasília, com uma ... leia mais

Em algum momento, sem que ninguém percebesse exatamente quando, o Va’a mudou de vocabulário — e talvez um pouco de identidade também. O dono do clube virou CEO, o capitão virou Coach e o remador virou Atleta de alta performance. A canoa continuou com seis bancos, o remo continuou sendo remo e o mar seguiu absolutamente indiferente aos cargos escritos na bio do Instagram.
Talvez o melhor exemplo esteja no topo da pirâmide. O antigo dono de clube agora é CEO, muitas vezes de uma “grande corporação” com três canoas, alguns remos e um único funcionário: ele mesmo. Acumula direção, atendimento, manutenção, marketing, cobrança e logística. Mantido o ritmo, em breve teremos o CTO, responsável por consultar o Windguru, e o CFO, encarregado de conferir se o PIX da mensalidade caiu.
A transformação não parou por aí. Houve um tempo em que existia o capitão: o sujeito que sabia lemear, conhecia o mar, entendia de vento, corrente e previsão do tempo e assumia a responsabilidade por colocar uma canoa na água. Depois veio o instrutor, o que fazia sentido com o crescimento dos clubes.
O curioso é que, em alguns casos, o título começou a crescer mais rápido do que a experiência. Instrutor que mal sabia lemear, pouco entendia do mar ou ainda tinha domínio técnico limitado foi rapidamente promovido pelo vocabulário moderno. Nascia o COACH. Porque, aparentemente, ensinar a remar já não era sofisticado o suficiente. E o remador, claro, também não escapou.
Antes éramos simplesmente remadores de Va’a. Depois surgiram os atletas. Agora temos Elite Paddler, High-Performance Athlete, Professional Paddler e até World Champion Paddler. Algumas bios já parecem currículos esportivos comprimidos, com medalhas, campeonatos e colocações suficientes para justificar, em breve, um link direto para o Lattes do Va’a.
O problema, evidentemente, não está nos nomes. Profissionalizar clubes, melhorar estruturas e valorizar quem trabalha no esporte é positivo. A distorção começa quando o título vale mais do que a experiência, a aparência mais do que o conhecimento e a autopromoção mais do que a responsabilidade.
Porque aquilo que realmente importa no Va’a continua sendo muito mais simples e não cabe numa bio: a confiança entre os remadores, o respeito ao mar, a responsabilidade pelo outro, a lealdade aos companheiros, a experiência construída com o tempo e, acima de tudo, a consciência de que, dentro de uma canoa, ninguém é melhor do que ninguém.