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Como jornalista esportivo e praticante de diferentes esportes aquáticos há mais de 30 anos, acompanhei com apreensão as notícias do último sábado sobre um incidente envolvendo uma canoa trimarã (canoa havaiana com três cascos conectados) na baía de Santos (SP). Nove pessoas precisaram ser resgatadas após a embarcação ser arrastada por fortes ventos na região da Ilha das Palmas e Praia do Sangava.
Segundo o Grupamento de Bombeiros Marítimo (GBMar), a operação exigiu duas embarcações e o apoio de guarda-vidas de Santos. Nas canoas, havia homens e mulheres, de diferentes idades, e duas crianças de apenas 4 e 5 anos. Felizmente, todos foram levados a um local seguro, mas o susto levanta uma discussão urgente que precisa ir além do óbvio.
Muita gente correu para as redes sociais para criticar os responsáveis e, de fato, a Marinha do Brasil havia emitido um alerta sobre a chegada de uma frente fria e ventos fortes no quadrante sudoeste no litoral paulista. O trimarã, contudo, não foi a única embarcação a precisar de ajuda no dia. Outras canoas também precisaram de resgate durante o vendaval. Para quem rema ou veleja na região, essa direção de vento é uma das mais perigosas: ele te joga direto contra a extensa encosta rochosa da Ilha de Santo Amaro, que compõe a baía de Santos.
Porém, há um detalhe crucial que pouca gente está comentando sobre esse acidente. Todos os sites de previsão, inclusive o alerta da Marinha, apontavam para a entrada desses ventos somente no período da noite. Muita gente foi pega de surpresa, incluindo os organizadores do Campeonato Sudeste Brasileiro de Veleiros Classe Snipe, que estava sendo realizado normalmente na mesma baía de Santos no momento em que o vendaval começou, fazendo com que um deles fosse parar na areia da praia, após quebrar o mastro. Um barco de pesca também precisou de resgate. Há relatos de outras embarcações que foram atingidas e precisaram de ajuda.
Apesar de morar há mais de 10 anos em Florianópolis, sou nascido e criado em Santos. Minha família toda mora lá e tenho muitos amigos locais com experiência na água. Assim que soube do incidente, entrei em contato com vários deles para entender o ocorrido e fui checar os sites de meteorologia. Nenhum deles, de fato, indicava que os ventos entrariam naquele horário.
É aqui que precisamos encarar uma nova realidade. Com as mudanças climáticas, por mais precisos que sejam os modelos meteorológicos, não dá mais para confiar cegamente apenas nas informações digitais. Vai ficar cada vez mais difícil para a tecnologia acertar com precisão o momento das viradas de tempo.
O que isso significa? Que, embora continue sendo indispensável, não basta mais analisar somente os aplicativos antes de sair para remar. Fica cada vez mais evidente que o conhecimento empírico é vital, sobretudo para quem vai se responsabilizar por outras vidas. A vivência na água, saber olhar o céu, o movimento das correntes, interpretar as nuvens, notar a mudança de direção da brisa ou aquela repentina calmaria são habilidades que um capitão de canoa precisa dominar. E isso só se conquista com o tempo.
Muitas das pessoas com quem conversei em Santos disseram que apesar da calmaria, a natureza já dava seus avisos. “O dia estava ensolarado, mas no horizonte você via que havia nuvens bem carregadas, indicando que a entrada do sudoeste poderia ser bem antes do previsto”, me relatou um amigo velejador que estava na praia no momento da virada do tempo.
Diante desse cenário de incertezas climáticas, algumas decisões precisam ser tomadas antes mesmo de colocar a canoa na água. As previsões continuam bem acuradas quanto à direção e intensidade dos ventos, mesmo com a tendência cada vez maior de errar o timing. Sabendo que o pior pode acontecer, ainda que não esteja previsto para aquela hora, é preciso se questionar:
São questões que precisam ser respondidas com sinceridade e humildade, pois cada tipo de resposta demandará um tipo de ação. As projeções meteorológicas indicam que um El Niño muito forte deve se formar no segundo semestre de 2026, trazendo ainda mais instabilidade climática. Isso significa que todos nós devemos ter atenção redobrada daqui para frente. Acima de tudo, precisamos reconhecer a força e imprevisibilidade da natureza para decidir a hora certa de entrar ou sair do mar.