
Paranaenses fazem expedição de 5 dias entre estados do PR e SP remando de OC-6
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Muita gente quer praticar esporte. O problema é que querer não basta.
Um estudo recente da Decathlon com a Consumoteca ajuda a ver isso de um jeito mais amplo: 93% dos brasileiros gostariam de ter uma rotina esportiva ativa, mas só 44% conseguem manter. No meio desse caminho, aparecem barreiras como falta de motivação, falta de tempo e custo. O estudo não é sobre va’a, mas ilumina uma questão que eu vejo se repetir nos clubes de canoa: tem muita gente que chega cheia de vontade… e pouca gente que consegue ficar de verdade.
Quem já viveu um clube de canoa sabe como é. A pessoa chega animada, se encanta com a canoa, gosta do grupo, começa a se envolver com aquele ambiente novo. Por um tempo, tudo é novidade: os primeiros treinos, as histórias dos mais antigos, as conversas depois da remada. Só que, depois de um tempo, essa mesma pessoa pode desanimar. Às vezes porque a rotina aperta, às vezes porque falta motivação, às vezes porque os treinos viram sempre a mesma coisa e param de trazer aquela sensação de evolução. Em outros casos, ela até entrou, participou, mas nunca chegou a criar um vínculo forte o suficiente para querer ficar de verdade.
Eu mesmo já me desanimei algumas vezes. Talvez por isso esse tema me chame tanto a atenção. A gente fala muito sobre começar, mas permanecer no esporte também exige sentido. Não basta só ter a vontade lá no começo; alguém que continua treinando, mês após mês, normalmente encontrou algo maior ali — um motivo, uma conexão, um lugar onde se sente parte.
Entrar é uma coisa. Permanecer é outra. E talvez esse seja um dos maiores desafios dos clubes hoje: não apenas receber bem quem chega, mas construir um ambiente em que a pessoa queira continuar. A permanência não nasce do nada; ela se constrói no detalhe, na energia do grupo, na intenção por trás dos treinos, na sensação de estar melhorando, na forma como o clube acolhe as pessoas novas e cuida das antigas, e até em como organiza o espaço físico onde todo mundo se encontra. Quem chega percebe rápido quando existe cuidado e intenção em cada pequena coisa — e também percebe quando tudo começa a funcionar no automático, só cumprindo tabela.
O esporte, hoje, vai muito além do exercício. O mesmo estudo mostra que metade das pessoas entrevistadas associa a prática esportiva à redução da ansiedade e à melhora da autoestima. E 72% ligam o esporte à construção da própria identidade. O ambiente esportivo aparece também como espaço de socialização e pertencimento, um lugar onde a pessoa se encontra com os outros e consigo mesma. Isso conversa muito com a canoa. Porque, no va’a, quase ninguém está buscando só “malhar” ou “gastar caloria”. As pessoas buscam presença, conexão, um grupo, uma pausa na correria, um jeito diferente de viver o próprio corpo e a cabeça. E, justamente por isso, o clube faz tanta diferença: ele é o cenário onde tudo isso acontece — ou deixa de acontecer.
Na prática, não falta gente querendo se mexer. A pergunta, então, não é “como fazer mais pessoas desejarem o esporte?”, mas “o que faz alguém continuar?”. Na minha visão, o clube tem um papel central nessa resposta. É ele que ajuda a transformar um impulso em rotina, uma aula solta em vínculo, uma curiosidade inicial em parte da vida da pessoa. É o clube que sustenta o caminho quando a empolgação inicial passa e sobra o dia a dia, com cansaço, trabalho, família, imprevistos. Chegar ao clube é só o começo. Ficar nele é uma construção diária.
Talvez valha inverter o raciocínio: se tanta gente quer praticar esporte, mas tão pouca consegue sustentar uma rotina, o que nós, como clubes, grupos e comunidades esportivas, estamos fazendo com quem chega até nós? Estamos apenas recebendo, mostrando o básico, encaixando essa pessoa em uma planilha de horários? Ou estamos, de fato, criando um ambiente em que ela queira ficar, se envolver, trazer amigos, se reconhecer naquele lugar? Pode ser que o esporte, em si, não precise de mais desejo. Desejo já existe — e em quantidade. O que talvez falte são mais lugares onde esse desejo consiga virar rotina, onde a prática faça sentido o suficiente para que a pessoa escolha ficar.