O dilema do profissional de Educação Física na Va’a

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educação física va'a
A realidade da formação de instrutores na Va’a brasileira esbarra em dilemas legais, práticos e estruturais da educação física. Foto: Imagem gerada por IA

Em tese, não deveria haver muito o que discutir. Para se tornar instrutor de canoa polinésia, não basta apenas tempo de bunda na canoa. É preciso estudar, entender o corpo humano, o treinamento, a segurança e — goste-se ou não — conquistar um diploma de Bacharelado em Educação Física. No papel, a lógica é simples, organizada e relativamente coerente. O problema é que o mundo real da Va’a no Brasil passa longe desse cenário ideal.

A realidade dos clubes de canoa polinésia espalhados pelo país é outra. E não por desleixo puro e simples, mas por um conjunto de dilemas práticos que, ao longo do tempo, me fizeram repensar posições que eu mesmo já defendi com mais rigidez.

O primeiro dilema está diretamente ligado à formação profissional. Pouca gente sabe — e muita gente prefere não saber — que a Licenciatura em Educação Física forma professores para atuar exclusivamente no ambiente escolar. Desde 2004, o Conselho Nacional de Educação (CNE) consolidou as diretrizes que separam licenciatura e bacharelado. Um licenciado não pode atuar como personal trainer, não pode treinar atletas, não pode trabalhar com condicionamento físico, não pode atuar em academias nem em projetos esportivos fora da escola. Ainda assim, esse é o caminho escolhido por muitos. Primeiro porque, até 2004, não existia uma regulamentação clara. Segundo porque é o caminho mais curto, mais acessível e mais barato. No universo do Va’a, arrisco dizer que essa é a regra, não a exceção.

O segundo dilema é o tamanho do mercado. A Va’a ainda é um nicho muito pequeno no Brasil. Poucos profissionais formados conseguem viver exclusivamente disso, e menos ainda reúnem, ao mesmo tempo, formação acadêmica adequada, experiência prática real e disponibilidade para se dedicar. Como gestor da Bravus Va’a, vivi esse impasse na prática. A solução encontrada foi formar instrutores do zero: gente que não tinha vivência de canoa, cultura de mar e que, muitas vezes, iniciou a faculdade junto com o remo. O problema é que esse processo leva tempo. E, durante esse intervalo, sejamos claros, ficamos em uma zona cinzenta do ponto de vista legal. Não por irresponsabilidade, mas porque a estrutura formal simplesmente não acompanha a realidade do esporte.

O terceiro dilema passa por uma pergunta simples, mas fundamental: qual é o objetivo do clube? Se a proposta é alta performance, competição, rendimento e busca por resultado, não há espaço para debate. Deveria ser obrigatório ter um profissional gabaritado, com formação acadêmica, experiência prática e respaldo legal. Agora, quando o objetivo é social, recreativo ou cultural, sem foco competitivo e sem cobrança de performance, hoje eu já enxergo esse cenário de forma diferente. Nesses casos, talvez não seja indispensável um profissional de Educação Física formalmente constituído, desde que existam limites claros, responsabilidade e bom senso. Fingir que todo clube social precisa operar como um centro de alto rendimento é tão equivocado quanto ignorar completamente a legislação.

O quarto dilema envolve as Federações e Confederações. Em tese, deveriam exigir que atletas e equipes inscritos em competições tivessem um responsável técnico devidamente graduado, assumindo a responsabilidade pelo treinamento e pela segurança. Na prática, o que se vê são atletas e equipes em modo freestyle, treinando para alta performance por conta própria, sem qualquer acompanhamento profissional. É quase um pacto silencioso de “deixa como está”. O fato de haver poucos incidentes não valida o modelo — apenas revela que, até aqui, o Va’a tem sido mais protegido pela sorte (ou pelos deuses do mar) do que pela estrutura.

No fim das contas, o problema não está apenas no diploma, nem apenas na experiência acumulada dentro da canoa. Não é só saber remar bem, nem só entender de fisiologia. Não é apenas ler previsão do tempo, nem conhecer regras náuticas. A Va’a exige tudo isso junto: corpo, treino, mar, equipamento, segurança, liderança e tomada de decisão. Separar esses elementos é empobrecer o esporte. Ignorar a lei é brincar com fogo. Ignorar a realidade prática é viver de fantasia.

A Va’a ainda está amadurecendo no Brasil, e todo processo de amadurecimento passa por conflitos, incoerências e ajustes. Não dá para fingir que o modelo ideal já existe, mas também não dá para normalizar a irregularidade eterna. O futuro do esporte passa por diálogo, adaptação, formação mais completa e, acima de tudo, responsabilidade — com o esporte, com as pessoas e com o mar. Porque, no fim, diploma nenhum segura canoa em mar grosso. Mas a falta de preparo técnico também não perdoa.

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