
Remando Para a Vida
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Remadoras gaúchas enfrentam o frio de quase zero grau centígrados às 5 horas da manhã para treinar durante os meses de inverno. Em Porto Alegre, capital do estado, não é diferente. Remar no Guaíba é um teste diário de resiliência e de saúde. Aí você vai dizer: mas nos países frios, como Canadá e Suécia, ninguém para de treinar mesmo quando neva. Acontece que nesses países há centros de treinamento cobertos, com piscinas especialmente projetadas para remadas fixas. É outro mundo.
Treinar para competir na prova Volta da Ilha de Va’a, realizada nos dias 16 e 17 de maio, em Porto Belo, Santa Catarina, foi um grande desafio para as remadoras da Equipe Kalola, da qual faço parte, coordenada pela atleta Adriana Peppl, 58, professora e graduanda em Educação Física. Nosso time de remadoras conquistou o primeiro e segundo lugares em provas de OC1 e V3 em Porto Belo. Essas Moanas contemporâneas são veteranas, nem tanto na canoa polinésia, mas na vida. Começando por mim, Márcia Turcato, jornalista, meia maratonista, 70 anos; Jeane kostelnaki Trintinaglia, pedagoga, 61; Maristela Assunção da Rosa, fisioterapeuta e ciclista, 54; Karen Loss, servidora pública, 54; e Daniela Rossato, dentista, 53. Todas dedicaram inúmeras horas de seus dias gelados para treinar com emoção e propósito.

Cada remadora tem sua própria motivação para se dedicar à canoa polinésia. Maristela começou a remar após a pandemia de Covid. Com o fim do isolamento social, ela buscou a prática de um esporte coletivo. “A canoa agrega e me dá sensação de liberdade”, afirma. Eu comecei a remar no Lago Paranoá, em Brasília, há quatro anos, para melhorar a respiração em provas de corrida de rua e me apaixonei pelo esporte e pela cultura em torno da canoa polinésia. Daniela rema há uma década e percebe que a canoa tem uma conexão com o esporte e com o prazer. Karen é uma praticante assídua de musculação, rema há cinco anos e tem foco total em disciplina e alto desempenho. “Sou competitiva”, afirma. Jeane conta que sua relação com a canoa é quase terapêutica. “Meu corpo e mente ficam extremamente saudáveis”.
A treinadora desse grupo focado, que ainda inclui mais atletas, mas que não competiram em Porto Belo, Adriana, é a grande maestra dessa engrenagem. Empreendedora single da Kalola, ela rema desde 2015, mas sua relação com esporte náutico é mais antiga, começou na adolescência com a prática do bodyboard e depois passou para o Stand Up Paddle. Adriana já participou de várias provas, desde festivais, como o Aloha e o Viva’a, a campeonatos estaduais e um internacional, realizado em 2024 no Havaí.
Abaixo, segue entrevista que fiz com Adriana Peppl sobre o cenário da canoa polinésia no Sul do Brasil:

O cenário atual revela pontos fundamentais sobre essa presença, que são protagonismo e liderança. As mulheres deixaram de ser apenas praticantes para assumirem papéis de liderança no estado. Temos mulheres na gestão de clubes, comandando bases, atuando como instrutoras e capitãs de equipes. Essa liderança feminina atrai e encoraja novas remadoras, criando um ambiente acolhedor e seguro para quem está começando.
A canoa havaiana carrega em sua essência o espírito de equipe e o acolhimento. No RS, as mulheres abraçaram fortemente esse conceito. Vemos a formação de tripulações exclusivamente femininas que buscam o esporte tanto pela saúde e conexão com a natureza quanto pela rede de apoio e amizade que se cria fora da água.
Em Porto Alegre, as águas do Lago Guaíba têm sido o cenário perfeito para essa expansão da canoagem. A facilidade de acesso à prática náutica na capital permitiu que muitas mulheres incluíssem o remo na rotina diária, equilibrando a vida profissional e familiar com o esporte.
Mas é preciso destacar que, apesar do Guaíba ser um cenário maravilhoso, ele impõe barreiras físicas reais. Como Porto Alegre recebe o escoamento de várias bacias hidrográficas do estado, períodos de chuvas intensas mudam completamente a dinâmica do lago. O nível da água sobe, a correnteza fica perigosa e o acúmulo de detritos, como galhos e troncos flutuantes, exige suspender os treinos por dias, algo que afetou profundamente a rotina de todos os clubes nos últimos anos, especialmente na grande enchente de 2024.
A água doce e o regime de ventos do Guaíba exigem cuidados constantes com o assoreamento de margens e a manutenção das estruturas de ancoragem e rampa das bases. Superar esses obstáculos é o que dá às remadoras do Sul aquela garra e resiliência tão características. Quem consegue manter a consistência treinando no inverno gaúcho e dominando o vento do Guaíba está pronta para remar em qualquer lugar do mundo.
Avaliar o desempenho das nossas remadoras em comparação com as de outros estados exige olhar para duas vertentes: o tempo de estrada e a natureza das nossas águas. Os clubes de canoa polinésia do eixo RJ-SP-ES estão localizados no berço da canoa havaiana no Brasil. Eles têm décadas de tradição, um volume massivo de atletas, competições estaduais consolidadas e, acima de tudo, o mar aberto como quintal. O Rio de Janeiro e o Espírito Santo, por exemplo, formam remadoras acostumadas com a ondulação do oceano, a arrebentação e a leitura de correntes marítimas complexas desde o primeiro dia na canoa.
Quando olhamos para Porto Alegre, o nosso cenário é diferente, mas o desempenho das nossas atletas surpreende positivamente, inclusive temos atletas que já despontaram no cenário Internacional, compondo a equipe que participou do Mundial de Sprint no Hawaii, em 2024.
Mas o Lago Guaíba é um excelente professor. Ele pode parecer calmo, mas quem rema aqui sabe que ele muda de humor muito rápido. O vento minuano ou as formações de “carneirinhos” criam um tipo de ondulação curta, picada e muito técnica, que exige das remadoras de Porto Alegre um controle de leme e uma cadência de remada extremamente refinada.
Embora nossa história no esporte seja mais recente que a do Sudeste, a evolução técnica das gaúchas tem sido geométrica. As mulheres buscam muita informação, investem em clínicas de técnica, assistem a circuitos nacionais e se dedicam com rigor aos treinos de força e de resistência. O gap técnico que existia há alguns anos diminuiu drasticamente.
Em termos de força física e mental, as remadoras gaúchas não ficam atrás de nenhum grande centro. Quando as nossas atletas saem para competir em festivais, estaduais e até internacional, elas enfrentam o desafio extra de adaptar a leitura de mar aberto, mas compensam com uma conexão de equipe técnica, sincronia e uma entrega absurda na água.
Se os clubes mais antigos ainda levam vantagem pelo volume de atletas de elite e pela vivência diária no mar, Porto Alegre compensa com qualidade técnica, dedicação e resiliência. Não estamos mais apenas participando; as remadoras da cidade estão construindo uma identidade técnica forte, mostrando que a água doce do Sul forma atletas prontas para qualquer mar de almirante ou ressaca.
Treinar no Sul Brasil, especialmente em Porto Alegre, traz um conjunto muito específico de desafios que os centros de treinamento do Sudeste e Nordeste raramente enfrentam. Quem gerencia uma base ou treina por aqui sabe que a nossa rotina exige uma dose extra de resiliência. Os principais obstáculos são o clima e as estações bem definidas.
Diferente do resto do Brasil, onde o clima varia pouco ao longo do ano, o Rio Grande do Sul tem estações muito extremas, o que impacta diretamente a consistência dos treinos. Remar no inverno gaúcho exige superação. Enfrentar madrugadas ou fins de tarde com temperaturas de um dígito, e sensações térmicas ainda mais baixas devido ao vento, afasta os praticantes recreativos e exige investimentos pesados em vestuário técnico, como roupas de neoprene e corta-vento.
O vento minuano é o maior adversário do remador. No Sul, ventos fortes e frentes frias são frequentes, muitas vezes inviabilizando a saída da canoa por questões de segurança ou transformando um treino técnico em uma batalha de pura sobrevivência contra a correnteza.
Além disso, o eixo principal das grandes competições de Va’a no Brasil, como o Circuito Brasileiro, ainda está concentrado no Sudeste e Nordeste. O custo do deslocamento para as atletas do Sul competirem em nível nacional é alto.Deslocar equipes inteiras, pagar passagens, hospedagem e, principalmente, arcar com o frete ou aluguel de canoas de competição nesses estados torna o esporte muito caro para quem quer evoluir no ranking.
Embora o esporte esteja crescendo no Rio Grande do Sul, o número de eventos e a quantidade de atletas competindo localmente ainda são menores do que nos outros centros do país , o que reduz o ritmo de competição interna.
Se preparar para atuar nessas duas frentes exige um equilíbrio constante entre a alta performance física, como remadora, e a excelência pedagógica e de segurança como instrutora e gestora. É um papel duplo onde um lado alimenta o outro. A vivência na água me dá repertório para ensinar, e o estudo para ensinar refina a minha própria técnica.
Divido essa preparação em pilares fundamentais: a disciplina e a conexão como remadora; treinamento híbrido; leitura da água e do clima; fortalecimento mental; segurança, técnica e cultura; estudo e capacitação contínuos. Minha rotina envolve treinos específicos na água e parte da minha preparação diária é analisar a meteorologia, a canoa polinésia exige resiliência, especialmente nos dias de inverno severo, para guiar os alunos e a evolução do clube, o foco muda da performance individual para o desenvolvimento do coletivo, eu invisto constantemente em clínicas técnicas, cursos de biomecânica da remada e atualizações sobre fisiologia do esporte. O objetivo é entender a individualidade biológica de cada aluno, adaptando o treino para quem busca performance ou para quem está ali pela saúde e bem-estar.
A preparação de uma treinadora exige domínio absoluto de protocolos de resgate e navegação. Garantir que a equipe saiba exatamente como agir em uma situação de virada da canoa, o huli, e sempre estar atenta ao uso do flutuador. Ser treinadora de canoa polinésia não é apenas ensinar a remar. Minha preparação envolve estudar a história, a tradição e os valores polinésios, como o conceito de Ohana — família, e a conexão com a natureza, para transmitir aos alunos que cada remada é um ato de respeito coletivo e sincronia.
Essa é uma provocação excelente e toca na ferida do desenvolvimento do esporte na nossa região. A realidade de Porto Alegre ter a VA’A baseada no “amor à camisa” e no esforço de profissionais multifacetados — que dividem seu tempo entre outras profissões e a gestão das bases — não se deve a um único fator, mas a um conjunto de barreiras estruturais, culturais e de mercado.
Para entender por que ainda não temos essa profissionalização plena e o sustento exclusivo vindo da canoa, precisamos analisar alguns pontos. Um deles é o mito do clima e o “CT Indoor”. O clima do Sul afasta o praticante recreativo no inverno, mas o atleta de alto rendimento treina na geada. Um CT indoor, com simuladores de remada, tanques de água estáticos e preparação física, resolveria, sim, a consistência dos treinos técnicos e físicos nos meses mais frios.
Mas não temos por conta do alto custo de implantação. Montar um tanque de remada profissional e uma estrutura de academia voltada para o Va’a exige um investimento financeiro pesado, cujo retorno- através de mensalidades, no cenário atual, demoraria anos para se pagar.
O perfil de quem abre um clube de canoa, historicamente, é o do apaixonado pelo esporte. A pessoa rema, ama o estilo de vida, compra uma canoa e começa a dar aulas. Mas existe uma diferença enorme entre ser um excelente instrutor/remador e ser um gestor de negócios. Para a canoa dar sustento financeiro exclusivo a uma equipe de profissionais, a base precisa ser gerida como uma empresa de médio porte.
Uma base profissionalizada não pode viver apenas de mensalidade de alunos. Ela precisa faturar com eventos corporativos, turismo náutico programado, venda de vestuário e equipamentos próprios, clínicas especializadas e escolinhas de base contratadas por colégios ou clubes tradicionais. É preciso ter pessoas dedicadas exclusivamente ao marketing, financeiro e administrativo, liberando os treinadores para focarem apenas na técnica e na água. Enquanto o dono do clube tiver que lavar a canoa, responder o WhatsApp de alunos, fazer o financeiro e dar a aula, o negócio não escala.
O patrocínio é fundamental, mas o mercado corporativo gaúcho ainda enxerga a canoa havaiana como um esporte “de nicho” ou puramente recreativo. Para atrair grandes marcas da iniciativa privada ou via Leis de Incentivo ao Esporte, o ecossistema do Va’a em Porto Alegre precisa entregar visibilidade e profissionalismo. Empresas patrocinam projetos que geram mídia, responsabilidade social ou ativação de marca robusta. Criar uma federação gaúcha forte, um circuito estadual profissional com transmissão ao vivo e projetos sociais estruturados, são os caminhos para abrir o bolso dos grandes patrocinadores do estado.
Porto Alegre não carece de público ou de águas maravilhosas, o Guaíba é uma mina de ouro para os esportes náuticos. O que falta para a virada de chave da profissionalização é capital inicial de giro e mentalidade estritamente empresarial. O mercado está amadurecendo. O “boom” da Semana Náutica de Porto Alegre, realizada em dezembro de 2025, atraiu olhares. O profissional que conseguir unir a paixão pela cultura Polinésia a um plano de negócios agressivo, buscando investidores-anjos, e não apenas alunos, será o primeiro a viver exclusivamente da canoa em Porto Alegre e a ditar as regras do novo mercado náutico no Sul.