Mau Piailug – Capítulo final: Ao mestre com carinho

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Mau Piailug
Nainoa Thompson ao lado de Mau Piailug: enfim, o legado seria mantido. Foto: Reprodução Polynesian Voyaging Society

Como vimos no episódio anterior, Mau Piailug abandonou a Polynesian Voyaging Society após sua decepção com o comportamento dos havaianos durante a primeira viagem da Hokule’a ao Taiti. Sem a presença do mestre navegador, a PVS tentou novamente realizar uma travessia pelo Pacífico, que terminou com a trágica morte de Eddie Aikau já no primeiro dia da expedição.

Porém, após tudo o que havia sido conquistado com a primeira viagem da Hokule’a, o legado da navegação ancestral polinésia precisava ser continuado e um prodígio da navegação, Nainoa Thompson, havia sido escolhido para ser no novo mestre navegador da canoa, em uma nova travessia. No entanto, diante de tamanha responsabilidade, o nervosismo do jovem havaiano com a missão foi ficando cada vez mais evidente. Assim, com o passar do tempo, ficou claro que, apesar de seu talento natural, aquele diamante precisava ser melhor lapidado.

Seria vital trazer Mau Piailug de volta para a Hokule’a. Mais do que isso, era importante que o mestre navegador micronésio encontrasse em Nainoa um legítimo discípulo. Os havaianos então saíram à procura de Mau pelo Pacífico e o encontraram em Saipan, a maior das ilhas das Marianas Setentrionais.

Mais do que um símbolo, a Hokule’a e arte da navegação ancestral representavam o futuro de uma nação. Foto: Reprodução de imagem do vídeo Papa Mau: The Wayfinder

Nainoa então viajou até Saipan para encontrar Mau pessoalmente e convencê-lo a lhe aceitar como discípulo. Levando-se em consideração tudo que acontecera, o havaiano até que foi bem recebido por Mau Piailug. No entanto, o mestre navegador foi evasivo diante dos anseios de Nainoa:

Mau é um homem de poucas palavras, e tudo o que ele disse em resposta ao meu pedido de ajuda foi: ‘Veremos. Manterei você informado‘”, lembra Nainoa, em seu livro “Hawaiki Rising: Hōkūle‘a, Nainoa Thompson, and the Hawaiian Renaissance”. Meses depois, Mau finalmente deu sua resposta. “Ele disse: ‘Vou treiná-lo para chegar ao Taiti porque não quero que você morra'”, recorda.

Mau soube do que acontecera com Eddie Aikau e não queria que aquilo se repetisse. Assim teve início a parceria que manteria viva as tradições da navegação ancestral do Pacífico. Quando Nainoa passou a ser treinado por Mau e viu que o mestre usava uma bússola estelar semelhante a sua, sentiu que estava na direção certa. Mais do que isso, percebeu que, de fato, os dois, mestre e discípulo, se completavam.

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Mau Piailug ensinando a técnica do compasso estelar em Satawal. Foto: Reprodução Polynesian Voyaging Society

Nainoa tinha a matemática e ciência, enquanto Mau era a manifestação do conhecimento encarnado, que se mantinha vivo através de gerações. Porém, assim que começaram a trabalhar juntos, o jovem havaiano pediu a Mau que o ensinasse da maneira tradicional. O mestre, no entanto, recusou. “Você pega papel e lápis”, disse Mau.

O motivo da recusa ficou claro nos dias que se seguiram aos ensinamentos. Havia muito para guardar na memória e pouco tempo disponível. Além disso, este conhecimento estava codificado em canções e histórias na língua de Satawal, que Nainoa não entende. O mestre, então, deu suas aulas em inglês simples, porém eficaz. O discípulo tomava nota de cada palavra.

Anos depois, Nainoa exaltaria em seu livro a grandeza de Mau como professor, reconhecendo que o mestre navegador teve a sabedoria de lhe ensinar da melhor forma. O estilo de orientação de Mau combinava um profundo conhecimento do mar e dos céus com uma vida inteira de experiência prática. Um sistema holístico, onde cálculos matemáticos eram materializados em estado de arte.

Mau desenhava um círculo na areia e marcava as estrelas com pedras ou conchas. As folhas das palmeiras representavam a canoa e a direção do swell. Pedaços de barbante marcavam o caminho das estrelas no céu. Os modelos faziam sentido intuitivo para Nainoa, treinado desde os tempos de escola para ler palavras, mapas e gráficos. Outras habilidades demandavam prática e vivência.

Segundo Nainoa, o mais difícil foi aprender a ler os elementos da natureza tal qual Mau fazia. Foto: Reprodução Polynesian Voyaging Society / Sam Kapoi

O mais difícil, para Nainoa, foi aprender a ler as ondas do oceano da maneira que Mau as lia. O mestre navegador era capaz de extrair uma série de informações através da observação das ondulações, como, por exemplo, a direção em que a canoa deveria avançar para navegar com mais eficiência, até a aproximação de uma ilha que sequer havia surgido no horizonte. Mas esse conhecimento, bastante sensitivo, era, de fato, difícil de transmitir, pois dependia em grande parte da conexão que cada pessoa tem com o mar.

Um dia, perto do final de 1979, Nainoa foi com Mau para o costão de Lanai, um conhecido ponto de observação da ilha havaiana de Oahu. Lá, o mestre navegador pediu a seu discípulo que apontasse na direção do Taiti. Nainoa hesitou um pouco e então apontou. Em seguida, o Mau perguntou ao jovem havaiano se ele conseguia ver a ilha que estava há 2.200 milhas de distância.

Nainoa respondeu que não conseguia avistar o Taiti, mas, ao mesmo, era capaz de ver uma imagem da ilha em sua mente. “Ótimo”, disse Mau. “Nunca perca essa imagem ou você estará perdido”.

Nainoa respondeu que não conseguia avistar o Taiti, mas, ao mesmo, era capaz de ver uma imagem da ilha em sua mente.

Ótimo”, disse Mau. “Nunca perca essa imagem ou você estará perdido”.

Passados alguns meses, era chagada a hora do teste final. Em 1980, Nainoa guiou Hokule’a até o Taiti e voltou, usando as técnicas tradicionais de orientação ensinadas por Mau, que participou da expedição como como observador. A travessia transcorreu sem maiores problemas e Nainoa Thompson recebeu a aprovação pela qual ansiava. Mau Piailug, por sua vez, sentiu-se aliviado por ver ali que a tradição seria mantida viva.

Mau é entrevistado por canal de TV após a chegada da Hokule’a ao Taiti. Sua expressão agora era outra. Foto: Reprodução de imagem do vídeo Papa Mau: The Wayfinder

De 1985 a 1987, Hokule’a navegou cerca de 12.000 milhas percorrendo toda a Polinésia e convidando pessoas das ilhas visitadas para se juntar à tripulação em partes da viagem.

Agora posso acreditar nas histórias de meus ancestrais”.

Em uma passagem noturna a caninho da ilha de Nomuka, em Tonga, um capitão profissional tonganês, chamado Sione Taupeamuhu, que havia sido recrutado para fazer parte da tripulação, expressou suas dúvidas de que Nainoa pudesse encontrar a ilha sem o auxílio de instrumentos. Quando Nomuka apareceu no horizonte, ao amanhecer, Taupeamuhu disse: “Agora posso acreditar nas histórias de meus ancestrais”. Mau, que estava a bordo, agora como observador, sorriu. Era o sentimento de orgulho que aflorava e transparecia à sua maneira, discreta e imponente, ao mesmo tempo.

Graças em grande parte a Mau, Hokule’a e a Polynesian Voyaging Society provocaram uma onda de interesse pela navegação ancestral em todo o Pacífico, inspirando a construção de novas canoas de navegação em diferentes ilhas da Polinésia. Quando a Hokule’a e duas outras canoas havaianas retornaram às águas do Taiti, em 1995, juntaram-se a elas canoas de outras ilhas. Desta vez, Nainoa foi o observador. Seus aprendizes guiaram as embarcações do Havaí ao arquipélago de Tuamotu e, de lá, à ilha do Taiti.

Nos anos seguintes, outros havaianos receberam ensinamentos de Mau Piaulig, inclusive na arte de da construção das canoas. Mas a saúde do mestre navegador já não era a mesma. Acometido pela diabetes, ele passou a sentir muita dificuldade para movimentar as pernas e perdeu parcialmente a visão. Debilitado, não seria mais seguro a ele participar das viagens da PVS.

Debilitado por conta da diabetes e sem condições de navegar com segurança, Mau decidiu retornar a Satawal. Foto: Reprodução de imagem do vídeo Papa Mau: The Wayfinder

Se permanecesse no Havaí, Mau teria acesso a uma boa estrutura hospitalar e pronto atendimento médico e, assim, prolongar seus anos de vida, mas o mestre desejava descansar em sua terra natal após o dever cumprido. Pouco tempo após o retorno de Mau à Micronésia, A Polynesian Voyaging Society perdeu Clay Bertelmann, que havia se destacado como o melhor aluno de Mau na construção de canoas.

Clay estava terminando a construção de uma canoa e seu legado precisava continuar. Dessa forma, seu irmão, Shorty Bertelmann, que também recebera os ensinamentos de Mau, propôs que a PVS terminasse a canoa para então entrega-la de presente à Mau Piailug, em Satawal.

Assim, em 2007, Shorty, acompanhado de Nainoa e outros membros proeminentes da Polynesian Voyaging Society percorreram 4.000 milhas até Satawal com o propósito de presentear Mau com a canoa na qual navegavam. A embarcação foi batizada de “Maisu”, uma palavra Satawalesa para a fruta-pão que cai no chão durante uma tempestade e, portanto, está livre para qualquer um pegar. O nome é uma metáfora para o conhecimento de viagem que o mestre navegador compartilhou tão livremente.

Nessa visita, o Mau introduziu 16 pessoas na irmandade Pwo (mestres navegadores). Os homenageados, ungidos com açafrão amarelo e adornados com colares de flores, incluíam cinco havaianos, entre eles Nainoa Thompson, Chad Baybayan e Shorty Bertelmann. A cerimônia foi a primeira em Satawal desde a posse de Mau como mestre navegador, 56 anos antes.

Em 2007, Nainoa Thompson (foto) e mais quatro havaianos receberam de Mau Piailug, em Satawal, o título de “Pwo” (mestre da navegação). Foto: Reprodução de imagem do vídeo Papa Mau: The Wayfinder

Nainoa conta que após a cerimônia, quando todos deram adeus e começaram a partir, ele olhou para trás e viu Mau, em silêncio, sozinho, envolto à penumbra no interior do salão. Do fundo de seu coração sentiu que talvez aquela fosse a última vez em que veria o mestre navegador e decidiu voltar para uma última conversa.

Quando Mau o avistou, disse: “Você veio se despedir de novo?” Então Nainoa perguntou: “Quando você nos ensinou a navegar, nós estávamos, na verdade, aprendendo ‘você’, certo?

Sim”, respondeu Mau Piailug.

Então, enquanto nós ensinarmos, você permanecerá conosco”, disse Nainoa.

Sim, vejo você em breve”, agradeceu o mestre.

Mau morreu três anos depois, em 2010, mas a tradição que ele jurou proteger continua viva e cada vez mais forte. A canoa que Mau recebeu de presente dos havaianos agora reside na ilha de Yap, onde serve como uma sala de aula flutuante para os navegadores da Micronésia.

Para escrever e gravar a série que você acabou de ouvir eu pesquisei através de livros e documentários sobre a história havaiana e a Hokule’a, mas boa parte das informações contidas aqui foram extraídas do site oficial da Polynesian Voyaging Society, que é o hokulea.com. Lá você vai encontra muita informação sobre o passado e o presente da navegação ancestral polinésia.

WATER CAST | OUÇA ESSE ESPISÓDIO:

Capítulos anteriores:

1 – Mau Piailug, o homem que mudou a história da canoagem polinésia

2 – Glória e tristeza a bordo da Hokule’a

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