
Marca australiana cria primeira quilha de SUP inteligente
Quilha de SUP inteligente criada pela marca australiana VMG Blades possui um sistema que permite seu ... leia mais

Empreender no Brasil nunca foi para amador. No Va’a, então, é “modo hard”, sem tutorial e sem “save” automático. Quem entra achando que é só fazer canoa bonita e vender… já começou errado.
De um lado do balcão está o “fabricante”. Muitas vezes um cara talentoso, apaixonado pela canoa, bom de laminação e ótimo de conversa. O problema? Empresário zero quilômetro. Gestão, fluxo de caixa, prazo, custo… tudo isso ele aprende do jeito mais brasileiro possível: tomando porrada.
Começa pelo básico: matéria-prima cotada em dólar. Num dia você acorda achando que sabe quanto custa uma canoa. No outro, o câmbio resolve brincar de montanha-russa. O preço flutua, o custo explode e o fabricante segue fingindo que está tudo sob controle. Spoiler: não está.
E a odisseia não para aí. Falta matéria-prima básica: resina epóxi e poliéster, alumínio, madeira de qualidade. O impacto é óbvio — prazo estoura, preço combinado vira ficção e a entrega atrasa. Quase sempre.
Pra temperar o caos, entra a mão de obra. Escassa é elogio. Quase inexistente. A maioria aprende “na marra”, errando na sua canoa enquanto tenta acertar na próxima. Escola técnica de laminação de canoa? Não existe. Cursos On-line? Loucura. É tudo artesanal — no melhor e no pior sentido da palavra.
O mercado cresceu, isso é fato. Antes tínhamos praticamente um único fabricante de OC6. Hoje? Uns oito… talvez. Já perdi a conta. O problema é que crescimento sem base vira bagunça. Não existe fórmula mágica, ninguém reinventa a roda. O que existe é CTRL C + CTRL V de molde, com pequenas alterações para não ficar escancarado demais. Muda um detalhe aqui, outro ali, e pronto: “novo modelo”.
Nas canoas individuais, o cenário beira o insano. Fabricante brota mais rápido que mato depois da chuva. Fundo de quintal, sem estrutura, sem espaço adequado, sem controle de qualidade… mas com Instagram ativo e canoa à venda. Dá medo. Medo real.
Quem ganha dinheiro nesse jogo? Os reparadores. Pena que, pelo menos no Rio de Janeiro, eles são tipo mosca branca: raríssimos. Resultado? O remador aceita qualquer reparo torto, feio e malfeito, porque a alternativa é ficar sem remar. Isso não é exagero. É a realidade nua e crua.
E aí chegamos ao ponto mais surreal: as filas intermináveis. Fabricante prometendo prazo de 10 meses, 1 ano, às vezes mais. A desculpa oficial? “Muitos pedidos”. Ok. Mas se você é empresário e tem demanda para um ano inteiro, você aumenta a produção, contrata, cresce, entrega mais rápido e fatura mais. Simples… na teoria.
Na prática, a fila muitas vezes serve a outro propósito: equilibrar o caixa e manter a empresa respirando por aparelhos. Funciona assim: o dinheiro da sua canoa paga a canoa do primeiro da fila. A do próximo paga a seguinte. Uma pirâmide informal — sem má intenção declarada, mas perigosíssima. Enquanto entra pedido novo, o castelo fica em pé. Quando dá um escorregão… desmorona rápido.
E é exatamente isso que estamos vendo agora. A pirâmide das fábricas de canoa polinésia no Brasil está rachando. Sobrevive quem consegue manter volume de pedidos e giro constante. Quem tropeça, se enrola no próprio prazo e se enforca no caminho. E não são poucos.
E no meio desse caos todo, quem acaba pagando um preço alto são justamente os bons fabricantes. Os poucos que trabalham sério, entregam qualidade, cumprem prazos possíveis e tentam fazer o jogo certo acabam sendo colocados no mesmo balaio dos aventureiros. A bagunça generalizada cria desconfiança, e hoje muitos clientes chegam inseguros, com o pé atrás, adiando ou até desistindo de concretizar a compra. Não por falta de vontade de remar, mas por medo de entrar numa fila que não anda ou numa promessa que não se cumpre. Quando o amadorismo vira regra, até quem faz direito sofre o impacto.
O lado sombrio de algumas fábricas de canoa polinésia no Brasil não é falta de paixão. É falta de estrutura, gestão e maturidade empresarial. Enquanto isso não mudar, o remador segue pagando caro, esperando muito e torcendo para a canoa chegar algum dia.