
2ª etapa do Circuito Va’a Costa do Sol é neste fim de semana
Neste fim de semana, dias 1 e 2 de julho, o bairro Praia Linda, em São Pedro da Aldeia (RJ), sediará a 2ª ... leia mais

Confesso que fui um dos defensores da criação dos protocolos de segurança na Va’a após os diversos incidentes ocorridos no Rio de Janeiro. Parecia uma medida óbvia: estabelecer regras mínimas para evitar acidentes e preservar vidas. O problema é que aquilo que deveria ser um instrumento de proteção acabou se transformando em algo muito mais modesto: uma simples recomendação. Daquelas que todo mundo aplaude, mas poucos seguem.
A primeira justificativa é que as associações não possuem poder de fiscalização. A segunda, mais grave na minha opinião, é que ninguém quer apontar o dedo para ninguém. E assim nasceu a grande ilusão da segurança na Va’a: criamos protocolos para fingir que estamos enfrentando um problema que, na prática, continuamos fingindo não existir. Todo mundo sabe quem descumpre as regras, quem sai para o mar sem equipamentos básicos e quem dá maus exemplos. Mas o silêncio parece ser parte do regulamento não escrito do esporte.
Enquanto isso, quem deveria exercer algum protagonismo como a Federação e Confederação, limita-se a organizar campeonatos, distribuir medalhas, buscar patrocínios das prefeituras e garantir transmissões ao vivo. Sobre os incidentes, pouco ou nada se fala. A impressão é que o importante é manter as canoas na água e as fotos nas redes sociais. Segurança parece ter virado um detalhe administrativo, algo menos interessante do que troféus e likes.
O caso do colete salva-vidas é quase cômico, se não fosse tão sério. Ainda hoje existem clubes renomados que toleram remadores saindo para o mar sem o equipamento. A desculpa é sempre a mesma: “não podemos obrigar ninguém”. Talvez não possam obrigar, mas podem impedir que participe das atividades. Podem criar regras internas. Podem proteger a reputação do clube. O que falta não é autoridade. É disposição para assumir desgaste.
Também já ouvi a clássica frase: “somos apenas uma guarderia de canoas”. Curioso. Recebem embarcações, recebem mensalidades e convivem diariamente com os remadores, mas não teriam qualquer responsabilidade sobre a cultura de segurança daquele ambiente. Se existe um protocolo definido pelas associações locais, exigir seu cumprimento deveria ser o mínimo. Quer guardar sua canoa aqui? Siga as regras. Não parece exatamente um desafio filosófico.
Recentemente vimos um vídeo de um remador à deriva em alto-mar, sem colete, exausto e sendo resgatado por pescadores. Nessas horas acontece algo curioso: ninguém sabe de qual clube ele é, ninguém conhece, ninguém viu. Mas a Va’a é pequena demais para esse teatro durar muito. A notícia corre rápido e, quase sempre, descobre-se a mesma coisa: não se trata de um iniciante perdido, mas de alguém experiente, muitas vezes ligado a equipes de competição que deveriam servir de exemplo para quem está começando.
O mais irônico é que o protocolo não fracassou porque era ruim. Fracassou porque ninguém teve coragem de transformá-lo em obrigação. Preferimos a confortável política da recomendação. Afinal, recomendar não gera conflitos, não afasta alunos e não cria inimigos. O problema é que também não salva vidas. E quando acontecer a próxima fatalidade, muitos irão chamá-la de tragédia. Eu prefiro outro nome: negligência de todos nós.