
Adelson Carneiro entre os vencedores do Prêmio Outsiders 2023
Adelson Carneiro entre os vencedores do Prêmio Outsiders 2023 oferecido pela revista Go Outside aos ... leia mais

Existem lugares que mexem com a alma da gente. E o Desafio Yacht 40k foi exatamente isso: uma travessia que ficou na memória de todos nós que tivemos o privilégio de participar. Foram 40 quilômetros descendo o Rio Paraguaçu, uma prova desafiadora, intensa e cercada por uma beleza natural e histórica e impressionante. O evento reuniu atletas de todo o país em categorias como V1, OC1, OC2, OC6, V3, Paddleboard e Surfski individual, um desafio que tem potencial de se tornar uma das maiores competições de canoagem do Brasil.
A largada aconteceu na cidade de Cachoeira, um lugar que respira história. Lá funcionou a primeira Casa da Moeda do país, foi construída a primeira ponte do Brasil e ocorreram confrontos marcantes da luta pela Independência, quando tropas brasileiras enfrentaram os últimos soldados portugueses remanescentes no país. É uma cidade viva em significado. Até mesmo o lugar em que me hospedei era incrível. A Pousada Convento do Carmo é um edifício histórico que já abrigou freiras carmelitas em clausura. O lugar é um verdadeiro mergulho no passado, o que trouxe um tempero especial para o desafio.

Durante o percurso, consegui entrar ao vivo pelo Instagram em alguns trechos onde o sinal de celular permitia. O Rio Paraguaçu sofre forte influência de maré, mesmo a 40km de distância da Baía de todos os Santos. A força da maré baiana nunca decepciona, e deu a tônica na estratégia de navegação das equipes. Um destaque especial foram os saveiros, rústicas embarcações típicas da região, centenárias, que cruzavam trechos do rio Paraguaçu em que passavam as canoas e surfskis de fibra de carbono – um contraste entre o antigo e o moderno. O destino final foi a singela cidade de Salinas da Margarida, uma das mais seguras do Estado. Uma baía dentro da baía de todos os Santos, com um visual de tirar o fôlego.

Falando em performance, é impossível não destacar o atleta Cleverson Sacramento, do surfski, que conquistou a fita azul individual, sendo o primeiro a cruzar a linha de chegada entre os atletas solo. Também brilhou a Juliana Siqueira, que foi a primeira mulher a completar a prova, remando na categoria V1.

Entre as equipes, a OC6 Open masculina Kyrymurê garantiu a fita azul liderando a prova de maneira absoluta e impecável, enquanto o CB Paddle Team, com formação mista, ficou com a segunda colocação geral. Foi surpreendente ver uma equipe mista na frente de outras equipes masculinas, resultado de um bom trabalho do atleta e coach Cláudio Britto. O Clube Gamboa Va’a foi destaque ao levar quatro times para a competição, mostrando organização e força no coletivo – fiquei muito feliz em ver o trabalho do Capitão do clube Ziggy Marley prosperando; quando o conheci, era um menino que fazia parte de um projeto social, hoje é um homem feito, formado em educação física e empreendendo com sucesso. A equipe feminina do Yacht Club da Bahia não só cruzou a linha de chegada na primeira colocação feminina e quarta do geral, deixando canoas mistas pra trás, mostrando total propriedade em representar o Brasil no Mundial de Canoa Polinésia na categoria master 50.

É inevitável fazer uma comparação com a tradicional Chattajack, competição que acontece há anos no Rio Chattanooga, nos Estados Unidos. São 54 quilômetros de remada no coração do sul norte-americano — uma prova de enorme sucesso. Assim como no Paraguaçu, ela mostra que os grandes desafios da canoagem não estão restritos ao mar aberto.
E por trás de tudo isso, estava uma organização impecável. Deixo aqui meu reconhecimento ao Danilo Guimarães, coordenador de canoagem do clube; à diretora de canoagem Vanessa Castro; ao gerente de esportes Luis Pato; e ao comodoro Ricardo Dantas, do Yacht Club da Bahia. O trabalho de vocês foi digno de aplausos – e fez com que essa experiência fosse ainda mais especial para todos.

O Desafio Yacht 40k foi mais do que uma competição. Foi um reencontro com a natureza, com a história do nosso país e com a paixão que nos une: a canoagem. Que esse seja apenas o começo de muitas outras jornadas inesquecíveis pelo Rio Paraguaçu.