O Va’a está crescendo ou é só a nossa bolha?

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Va'a Bolha
Antes da canoa entrar na água, existe cuidado, manutenção e bastidor. Foto: Arquivo pessoal / Caio Carvalho

Antes de repetir que a canoa está crescendo, talvez a gente precise entender se estamos olhando para o mercado inteiro ou apenas para quem já está dentro dele. Tenho escutado cada vez mais que o Va’a está em alta no Brasil. E, sinceramente, para quem vive a canoa por dentro, essa sensação faz sentido.

Há mais bases. Mais grupos. Mais canoas na água. Mais eventos. Mais gente descobrindo no Va’a uma forma de esporte, saúde, natureza, amizade e pertencimento. Mas uma pergunta tem me acompanhado: “O Va’a está mesmo em alta ou é só a nossa bolha que cresceu?”

Essa pergunta não diminui a modalidade. Pelo contrário. Talvez seja uma das perguntas mais importantes para quem quer ver a canoa crescer com mais consciência. Quem vem da tecnologia aprende rápido que nem toda bolha é apenas ilusão. Hoje, por exemplo, existe uma discussão global sobre inteligência artificial: estamos diante de uma bolha, de um boom ou do começo de uma transformação profunda? A tecnologia é real, o impacto também, mas ainda se discute quanto desse entusiasmo já virou valor concreto e quanto ainda está sustentado por expectativa.

O Bank of England apontou que algumas métricas de valorização ligadas à IA chegaram a níveis comparáveis aos da bolha pontocom, embora ressalte que parte dessas avaliações pode se justificar caso o crescimento futuro se confirme. Talvez essa seja a principal lição das bolhas. Elas não servem apenas para dizer o que é falso. Servem para perguntar o que existe de real por trás do excesso de confiança.

Beach Tennis
Exemplo de esporte que conseguiu furar a bolha no Brasil, o Beach Tennis ainda enfrenta o desafio de transformar esse crescimento em dados mais claros para marcas, investidores e patrocinadores. Foto: Bruno Storchi Bergmann

Outras modalidades deixam pistas. O beach tennis é um bom exemplo de esporte que cresceu muito antes de conseguir organizar totalmente sua leitura de mercado. Uma matéria recente do Brazil Journal mostrou que o Brasil se tornou o maior polo mundial da modalidade em torneios internacionais, sediando 180 torneios em 2025, mas ainda enfrenta o desafio de transformar esse crescimento em dados mais claros para marcas, investidores e patrocinadores.

O stand up paddle deixa outro tipo de alerta. Em texto publicado aqui no Aloha Spirit Mídia, João Castro falou com sinceridade sobre uma modalidade que viveu anos em alta, de brilho, largadas cheias, atletas, marcas e eventos fortes, mas que hoje enfrenta uma batalha para manter grupos, provas e comunidades ativos.

“Um pico de consumo ou atenção não garante, sozinho, permanência, comunidade e eventos sustentáveis.”

O ciclismo também ensina algo. Durante a pandemia, o mercado de bicicletas viveu um boom importante no Brasil. Depois, vieram correções relevantes: queda de 35% nas vendas em 2022 e novo recuo de 15% em 2023, segundo levantamentos da Aliança Bike. Isso não quer dizer que a bike perdeu relevância. Mas mostra que um pico de consumo ou atenção não garante, sozinho, permanência, comunidade e eventos sustentáveis.

Cada esporte tem sua história. Mas todos deixam a mesma pergunta: O que transforma uma bolha em cultura, mercado e comunidade duradoura?

E o Va’a?

E o Va’a? No caso da canoa, talvez a pergunta não seja apenas se a modalidade está crescendo. Talvez as perguntas mais assertivas sejam outras. Onde ela está crescendo? Onde está estável? Se está concentrada em determinadas regiões? Onde ainda não conseguimos enxergar potencial? Quem está chegando? Quem está ficando? Quem está organizando? Quem está remando?

Eventos contam uma parte da história. Redes sociais contam outra. A percepção de quem vive no meio também importa. Mas nenhuma dessas camadas, sozinha, explica o mercado inteiro. É por isso que medir importa.

A primeira fase da Pesquisa O Brasil que Rema, voltada a lideranças, professores, capitães e responsáveis por clubes, bases, escolas e projetos ligados à canoa, já passou de 90 respostas, com participação de diferentes estados e regiões do Brasil.

Os dados ainda são preliminares, mas começam a mostrar um Va’a mais estruturado do que muita gente imagina. Por trás da imagem bonita da canoa na água, existe operação. Existe professor. Existe aluno. Existe manutenção. Existe custo. Existe responsabilidade. Existe comunidade.

E, às vezes, essa percepção aparece em cenas simples. Outro dia, dando uma geral na minha própria canoa, fiquei pensando nisso. Quem olha de fora vê a remada pronta, a foto bonita, o grupo no mar, a canoa deslizando maravilhosamente na água. Mas quem vive a modalidade sabe o que existe muito antes e muito depois daquele momento. Existe lavar. Revisar. Guardar. Consertar. Organizar. Combinar horário. Cuidar do aluno. Olhar o vento. Olhar o mar.

E, muitas vezes, fazer tudo isso quase em silêncio. Acredito que por isso que medir o Va’a seja tão importante. Porque o esporte não está apenas nas aulas, na largada, no evento ou na foto da remada. Ele também está nesses bastidores dos quais que quase nunca se viu dado, mas que sustentam a canoa todos os dias.

O estudo da Decathlon

Por que responder importa? Um estudo da Decathlon, realizado em parceria com a Consumoteca, mostrou que 93% dos brasileiros querem se exercitar, mas apenas 44% conseguem manter uma rotina ativa. Esse dado ajuda a explicar por que modalidades capazes de criar vínculo, pertencimento e rotina como a canoagem polinésia têm tanta relevância hoje.

O Va’a não entrega apenas exercício. Entrega grupo. Entrega presença. Entrega natureza. Entrega compromisso. Entrega escuta. Entrega pertencimento. Mas, se queremos que essa força seja reconhecida também por marcas, patrocinadores, eventos, destinos turísticos, entidades e pelo próprio mercado esportivo, precisamos entender melhor o que estamos construindo para dar visibilidade a quem faz a canoa acontecer.

Responder à pesquisa ajuda a transformar sensações em leitura. É ajudar a mostrar onde a canoa está, quem está remando, por que as pessoas ficam, quais comunidades estão se formando e que futuro esse movimento pode construir. Participe!

Participe da pesquisa!

Se você é remador, praticante, aluno, atleta ou iniciante, participe da Fase 2 — Remadores e Praticantes: https://forms.gle/H4ZE2pvNqiJKhMUYA

E se você lidera uma base, clube, escola, guarderia ou projeto ligado à canoa e ainda não respondeu à primeira etapa, ainda dá tempo: https://forms.gle/YqSCiUh55eSnn6zR8

Talvez o Va’a esteja mesmo em alta ou seja só a nossa bolha crescendo. Talvez as duas coisas sejam verdade. Mas, antes de repetir qualquer certeza, precisamos fazer o mais simples: escutar quem organiza e quem rema. O Brasil que rema não cabe apenas no mapa das bases. Ele também vive na voz de cada remador.

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