Stand Up Paddle: uma batalha pessoal

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Tempos de ouro do SUP: largadas lotadas que marcaram a história do Aloha Spirit. Foto: Arquivo Aloha Spirit

Os bastidores de um esporte são restritos a um grupo pequeno de pessoas e grande maioria desconhece as duras batalhas internas dentro de uma organização de eventos. O stand up paddle viveu anos de muito brilho, lindas largadas no mundo e no Brasil, provas internacionais glamurosas, ídolos, fábricas de pranchas, importações. Pois é, tudo isso é passado.

Deixando a moda de lado, a modalidade perdeu suas forças, foi abrindo o trem de pouso e procurando uma pista para pousar, mas ainda existe muita gente, grupos ou entidades que não só tem o SUP correndo nas veias, mas fazem tudo que pode para que ela não se acabe, muitas vezes sem perceber.

Ao longo dos últimos anos para o Aloha Spirit Festival tem sido uma enorme batalha e um desgastante trabalho criativo, de compreensão e de comunicação, para manter a modalidade forte dentro do festival. Conversando semana passada com o meu amigo, Luciano Meneghello ouvi: “Cara, aqui no Sul eu quase não vejo mais gente remando de stand up!” Luciano mora em Florianópolis. Hoje, aqui no Rio de Janeiro, e eu também poco vejo pranchas na água, uma ou outra de SUP Surf, mas as pranchas de remada já não me lembro a última vez que vi uma.

Sei que ainda existem polos de resistência, de persistência, acompanhados de paixão verdadeira, e o exemplo disso é o atleta e professor Jorge Soares, que na zona sul ainda consegue manter e reunir pessoas em volta desta paixão. Parabéns e obrigado, Jorge.

Vale citar o trabalho da Federação do Rio de Janeiro que por mais que eu tenha ouvido por muitos anos inúmeras críticas, principalmente na época de ouro, tem sido eles que também vêm mantendo a modalidade viva com a realização de eventos, competições, encontros, muitos desenhados para estimular novos e velhos remadores, além da introdução de jovens na modalidade. Parabéns e obrigado Federação.

Vamos observar que muitos destes críticos jamais se envolveram com a gestão e muitos nos dias de hoje nem estão mais remando. Isso é uma constatação. Antes de encerrar a análise sobre o Rio de Janeiro, vale lembrar mais um nome agregador, o atleta 70+ Moyses Cicero, que fica pedindo cupons, fazendo banners eletrônicos e disparando para todos… o cara é orgânico! Parabéns e obrigado, Moyses.

Sem entrar no aspecto legal, afinal isso de fato não me interessa, temos hoje duas entidades máximas envolvidas e a meu ver, as duas fazem um bom trabalho, diferente em boa parte, mas que se complementam. Faria um enorme bem para o Stand Up Paddle se as duas trabalhassem juntas, mas eu entendo que tudo tem o seu tempo e momento. Obrigado e Parabéns Surf Brasil (antiga CBsurf) e CBSUP. Independente de pessoas contrarias ou contrariadas por qualquer uma destas duas entidades, vocês têm colaborado para que a tampa do caixão não seja colocada e trancada.

As modalidades esportivas dependem muito do atleta de alto rendimento e do atleta participativo, e se algum dia um deles deixar de existir o outro cairá também, e foi por este motivo que o Aloha Spirit criou a ASE, categoria Elite no festival.

Agora vamos aos números?

Se formos falar sobre quem está há muitos anos alimentando os eventos ou a modalidade, dados mostram que são os paulistas e paulistanos. É São Paulo que tem segurado a peteca. Trago aqui apenas a análise feita em duas etapas deste ano: Paraty e Caraguatatuba.

Em Paraty o estado de São Paulo foi responsável por 52% dos atletas inscritos seguido do Rio de Janeiro com 36%.  E em Caraguatatuba São Paulo colocou 73% dos inscritos enquanto Rio de Janeiro foram 18%!

Pode até ser um esporte mais SP, afinal enquanto o Rio de Janeiro tem mar, São Paulo tem o litoral, mas também as represas de onde vêm os grupos ou as assessorias. Remo Livre em Atibaia, Valhalla em Itupararanga, Supirados em São Paulo e o pessoal da Baixada Santista, pessoal de peso que chega com seu grupo animado, apaixonado e persistente. Estes foram apenas alguns exemplos. Parabéns e obrigado a todos vocês! Ainda sobre os paulistas, quem pode esquecer um dos mais significativos pontos de resistência da modalidade, a Suporte, comandada pela atleta de ponta Dani Paiva e Denis, que além de manter um grupo forte de remadores, eles juntamente com outras pessoas, ainda estão à frente com campeonato Paulista de SUP.

Hoje o Aloha Spirit é um dos melhores territórios da modalidade, não apenas o Brasil, mas no mundo. Por mérito ou por conquista, somos o espaço mais importante para os atletas amadores onde muitos dizem ser o Aloha Spirit o campeonato brasileiro amador. Isso é dito pela participação e atletas ainda em bom número que chegam de alguns estados brasileiros. Se já fomos 500 atletas na largada hoje somos pouco mais de 100 e continuamos a ser o evento com maior adesão no país, seja pelo volume de competidores ou pelo número de diferentes estados representados na raia. Em 2026 recebemos atletas do Pará, Distrito Federal, Bahia, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Paraíba e Santa Catarina.

Comecei este texto para falar dos bastidores, então divido com vocês que todas as estratégias que montamos nos últimos dois anos não funcionaram. De certa forma isso foi bom pois nos ajudou a aceitar o momento que a modalidade vive e entender que é ela que vai determinar o seu futuro. Quando falo “ela”, me refiro ao ecossistema Stand Up Paddle, e a conexão entre clubes, atletas, marcas, todos em um só bloco construtivo e não destrutivo ou crítico. Isso me parece urgente.

São os praticantes, os grupos, as escolas, as remadas no nascer ou pôr do sol, o SUP Yoga, são as pranchas encostadas nas garagens, é a insistência e a participação em eventos que manterão o sentimento de comunidade e que acabam influenciando novos praticantes que vão querer fazer parte de tudo isso.

E o alto rendimento? E a Elite? Pois é, mesmo com exposição, premiação em dinheiro, provas internacionais, a categoria ainda me parece sem apresentar novos nomes. Vejo Rebeka, Rudá Bosi e mais ninguém. Modalidade sem ídolos e sem jovens não acena de maneira otimista para o futuro.

Coisas boas também acontecem. O Aloha Spirit tem recebido cada vez mais atletas internacionais e na última etapa teve Alemanha, Porto Rico, Perú, Nova Zelândia, Argentina e outros países representados. O Campeonato ASE da elite mostra caminhos que não enxergávamos e controle parcerias que fortalecem a modalidade, um exemplo deste sucesso e da chegada de mais estrangeiros foi a parceria com a Analyticpaddle do amigo e treinador Arthur Santacreu, que hoje é responsável pela boa performance de atletas brasileiros e estrangeiros. Parabéns e obrigado, “Tuca”.

Sabe quem escreveu este texto? Alguém persistente e que nega qualquer forte sinalização de declínio. Alguém que chuta para longe a tampa do caixão. Enquanto houver Aloha Spirit haverá o Stand Up Paddle, e mesmo sendo difícil para outros eventos, convido todos a manter ou retomar a modalidade que um dia fez parte das suas largadas. Convido e me coloco à disposição para que o Rei e Rainha do Mar volte a ter o SUP, uma prova que entregava muito brilho para o Stand Up Paddle principalmente no Rio de Janeiro.

Estamos indo para a última etapa de 2026 e já pensando e planejando 2027, mas, por aqui na Ecooutdoor (Agência criadora e realizadora do Aloha), a gente continua acreditando e tentando promover nos ideias.

Aloha.

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