
Categoria SUP Inflável volta ao Aloha Spirit em 2026
Categoria SUP Inflável está de volta entre as provas de stand up paddle do circuito nacional Aloha Spirit ... leia mais

Como jornalista que acompanha a canoagem polinésia desde o início do esporte no Brasil, vejo com um misto de surpresa e apreensão o recente comunicado da CBVAA. Após a desistência do Chile em sediar o Campeonato Pan-Americano de Va’a deste ano por falta de recursos e apoio, a nossa confederação assumiu a responsabilidade de tentar viabilizar a competição no Brasil, mais especificamente em Porto Seguro, na Bahia.
Se essa empreitada se confirmar, será a quarta vez que a CBVAA realiza o Pan no Brasil. Tivemos a edição de 2023 em Vitória (ES) e a de 2024 em Niterói (RJ), além do Campeonato Sul-Americano de 2018 em Cabo Frio (RJ), que posteriormente ganhou status de Pan-Americano. Sediamos ainda dois campeonatos mundiais pela IVF (2014 e 2025).
A nossa tradição em sediar grandes eventos da modalidade, no entanto, vem de antes. Na época em que o esporte era chancelado pela Confederação Brasileira de Canoagem (CBCa), Santos (SP) sediou um Sul-Americano em 2015 e o Aloha Spirit, de forma independente, sempre atraiu atletas internacionais para seus festivais, que estão entre os maiores e mais bem organizados do mundo. Isso sem contar as Copas Sul-Americanas realizadas pelo clube Rio Va’a, no Rio de Janeiro, desde 2012, enquanto a IVF estava se organizado.
Lembro-me bem de quando recebi e acompanhei o respeitado técnico taitiano David Tepava durante suas clínicas pelo Brasil, em 2023. Em uma de nossas conversas, Tepava comentou, perplexo, que no Brasil havia mais remadores de va’a do que no próprio Taiti, a grande “meca” da canoagem polinésia mundial.
Esse mesmo tipo de observação foi feito por outros nomes consagrados da Va’a com quem tive a oportunidade de conversar quando visitaram o nosso país, como Kevin Ceran-Jerusalemy e Kimokeo Kapahulehua, por exemplo. Todos impressionados com o nível organizacional da Va’a no Brasil e com a quantidade massiva de atletas praticando.
E, para ser honesto, não é de se admirar. O Brasil ocupa atualmente a 11ª posição no ranking global das maiores economias do mundo, e o esporte caiu definitivamente no gosto dos brasileiros que habitam a nossa imensa faixa litorânea, justamente onde se concentra a maior parte da população.
Hoje, vemos pessoas comprando canoas individuais de 50 mil reais sem o menor problema. A cada semana, surge um novo clube em algum ponto do litoral. Existem muitas razões que explicam esse fenômeno (o que renderia um artigo inteiro à parte), mas, basicamente, nosso país, que tem dimensões continentais, oferece clima e condições perfeitas para a canoagem. Além disso, há uma forte carga cultural canoeira que herdamos dos tupinambás e de outros povos originários, da qual, muitas vezes, nem nos damos conta (outra pauta que um dia ainda vou explorar melhor aqui no site!).
Mas é exatamente aí que entra o grande paradoxo: enquanto o esporte “bomba” por aqui, no resto do mundo ele ainda engatinha.
Sim, a Va’a tem séculos de tradição nas ilhas do Pacífico. Porém, são ilhas, com baixa influência geopolítica e uma baixa densidade populacional se comparada a grandes países. Nas outras nações onde a modalidade é praticada, a estrutura ainda é muito pequena e amadora. Isso explica perfeitamente por que o Chile não conseguiu levar o evento adiante.
Muita gente no Brasil vê esse crescimento exponencial por aqui e se ilude, achando que no resto do mundo a realidade é a mesma. Não é. Daí a minha preocupação ao ver a CBVAA encarando esse desafio de sediar um Pan assim, em cima da hora. Se der certo, não vai ser nada fácil.
Eu espero, de verdade, que os competidores entendam a situação e que sejamos poupados de ver novamente aquele festival de reclamações que acompanham eventos oficiais por aqui. Em parte, eu entendo a frustração de quem espera que tudo saia perfeito, afinal, a va’a brasileira é realmente pujante. Quem olha apenas para a bolha do que acontece aqui no Brasil acha que o mundo inteiro respira Va’a com a mesma intensidade e estrutura. Mas não é assim. Esse é um paradoxo que todo atleta brasileiro precisa entender, antes que as pessoas que estão à frente da CBVAA se cansem e desistam de encarar “oportunidades” como essa no futuro.