A prova que tirou o Va’a do aquário

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OC6 Storm
Prova OC6 Storm do Aloha Spirit Saquarema nos lembra um ponto fundamental: a canoa polinésia pertence ao mar. Foto: Victor de Jesus @bico.delacre

O último fim de semana em Saquarema lembrou muita gente do que realmente é o Va’a quando ele encontra o seu ambiente natural: o mar. Durante a etapa OC6 STORM do Aloha Spirit Festival, realizada na famosa Praia de Itaúna, remadores e organização tiveram diante de si um daqueles cenários que fazem qualquer um entender que organizar uma competição de canoa havaiana no oceano é assumir uma responsabilidade enorme. Pode dar tudo certo, como também pode dar muito errado se algum detalhe falhar. Um planejamento mal calculado, uma mudança de condição no mar ou até um simples erro humano pode transformar rapidamente um evento esportivo em um grande problema logístico. Quem organiza sabe disso e carrega esse peso nas costas o tempo todo.

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E o mar em Saquarema não estava para brincadeira. As condições eram grandes, pesadas, daquele tipo que muitos remadores brasileiros raramente enfrentam. Em vários momentos lembrava as condições de algumas provas tradicionais do Havaí, onde a canoa polinésia foi forjada ao longo de séculos de navegação oceânica. Mas o desafio não estava apenas no tamanho do mar. Logo na saída da praia, as equipes precisavam costear uma laje com bastante ondulação e ondas quebrando. Era um trecho que exigia atenção máxima de todos dentro da OC6. Um pequeno erro de leitura, um remador que se desorganizasse ou um momento de indecisão poderia resultar em um huli daqueles, uma capotagem épica que certamente colocaria as equipes em dificuldade e a organização em situação ainda mais delicada.

“Em um momento em que grande parte do Va’a brasileiro se acostumou a remar em águas protegidas, lagoas e ambientes confortáveis, eventos como esse lembram um ponto fundamental: a canoa polinésia não nasceu para ser domesticada”.

Justamente por isso, ver a prova acontecer foi algo que merece reconhecimento. Em um momento em que grande parte do Va’a brasileiro se acostumou a remar em águas protegidas, lagoas e ambientes confortáveis, eventos como esse lembram um ponto fundamental: a canoa polinésia não nasceu para ser domesticada. Ela nasceu no oceano. Foi criada por povos que cruzavam ilhas e enfrentavam ventos, correntes e ondulações em viagens que podiam durar dias. O mar aberto sempre foi o verdadeiro campo de prova da canoa.

Remar em um cenário como o de Saquarema não exige apenas técnica de remada. Técnica ajuda, claro, mas ali entram outras qualidades que muitas vezes são esquecidas quando se rema apenas em condições perfeitas. Liderança dentro da canoa, leitura de mar, espírito de equipe, resiliência, tomada de decisão rápida, foco sob pressão e capacidade de adaptação às condições do oceano passam a ser tão importantes quanto a própria força física. E existe ainda um fator que não pode faltar: muita coragem. O mar grande expõe rapidamente quem está preparado para enfrentar o desafio e quem ainda está confortável demais em ambientes controlados.

Hoje é comum ver muitos remadores optando por remar apenas em águas mais protegidas e previsíveis. Não há necessariamente problema nisso, mas esse cenário está longe de representar completamente o espírito do Va’a. A canoa polinésia sempre teve uma relação direta com o oceano e com os desafios que ele impõe. Limitar o esporte apenas a ambientes calmos é quase como tirar parte da sua essência.

Talvez a melhor forma de explicar isso seja através de uma analogia simples: é como colocar um tubarão dentro de um aquário. Ele continua sendo um tubarão, mas claramente não está no ambiente para o qual foi feito. O oceano sempre foi o verdadeiro habitat da canoa.

Por tudo isso, a etapa realizada em Saquarema merece ser lembrada. Não apenas pelos remadores que encararam um mar exigente, mas também pela coragem de quem decidiu colocar à prova de pé mesmo diante de condições adversas. Organizar um evento desse porte exige preparo, responsabilidade e muita leitura de cenário. Fica aqui o reconhecimento ao trabalho de João Castro e de toda a equipe do Aloha Spirit Festival por conseguirem realizar uma prova desafiadora, técnica e fiel ao espírito da canoa.

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