
Copa Paulista de Va’a tem disputas eletrizantes nas águas da Guarapiranga
Realizada no último sábado (21) na capital de SP, Copa Paulista de Va’a teve disputas eletrizantes nas ... leia mais

A canoa havaiana cresceu. E cresceu bonito. Hoje tem mais gente remando, mais gente competindo e, principalmente, mais gente querendo aprender a lemear. Em tese, isso é lindo. Na prática… é preciso ter cautela. Existe uma diferença brutal entre saber mexer no leme e ser capitão de uma canoa. E essa diferença começa na responsabilidade.
Quem está no leme de uma OC6 não está só conduzindo uma embarcação. Está levando mais cinco pessoas para o mar. Cinco vidas. Cinco famílias que confiam, mesmo sem saber, que quem está ali na popa sabe exatamente o que está fazendo.
E, então, temos uma situação delicada, pois, na falta de maior controle, caminhamos para a banalização disso. São cada vez mais comuns relatos de gente aprendendo a lemear e, pouco tempo depois, já se colocando na posição de capitão, abrindo clube. Sem casca, sem vivência, sem ter passado perrengue suficiente pra entender o tamanho do buraco. Porque o mar, quando está bonito, engana. Ele dá a falsa sensação de controle. De domínio. De “tá tranquilo”.
Até o dia que não está. E o mar não manda aviso prévio. Basta um vento atravessado, uma série mais pesada, uma corrente diferente… e pronto. Ali se separa quem “sabe lemear” de quem é, de fato, capitão.
Ser capitão exige muito mais do que técnica. Exige humildade — principalmente pra reconhecer o que não sabe. Exige liderança — porque em situação de pressão não dá tempo de hesitar. Exige conhecimento de regras náuticas — porque o mar não é só nosso. Exige leitura da previsão do tempo — não do que está agora, mas do que vai acontecer. E, acima de tudo, exige responsabilidade de não colocar os outros em risco por ego, vaidade ou teimosia. E aí entra o ponto mais incômodo.
No último final de semana, na tradicional competição da Volta à Ilha de Santo Amaro, vimos uma cena que merece reflexão: canoas cruzando a frente de um navio em movimento, ignorando regras básicas de navegação, em busca de posição na prova. Não foi erro técnico. Foi uma escolha. Uma escolha de priorizar a competição acima da segurança.
E esse é o tipo de decisão que, mais cedo ou mais tarde, cobra a conta. E no mar, a conta costuma ser alta.
Também é importante reconhecer o nível de complexidade envolvido na realização de uma prova de 75 km como essa, uma das mais tradicionais do Brasil e que ocorre há 22 anos sem maiores problemas. Trata-se de uma região com intensa movimentação portuária, com navios entrando e saindo constantemente, o que por si só já exige um nível elevado de planejamento, coordenação e responsabilidade por parte da organização.
Ainda assim, situações como essa mostram como o esporte vem pedindo uma evolução natural das regras e dos critérios adotados em competição.
Talvez tenha sido uma oportunidade de reforçar um posicionamento mais claro. Não como crítica, mas como aprendizado. Porque, no fim das contas, o objetivo maior precisa ser sempre o mesmo: garantir que todos retornem em segurança.
Nesse sentido, vale destacar que, em conversa com o organizador Fabio Paiva, ficou claro que já há um movimento nessa direção. A proposta é promover ajustes no manual do competidor para o próximo ano, deixando mais explícita a obrigatoriedade do cumprimento das regras náuticas básicas, além da definição de punições adequadas. A intenção é evitar interpretações ambíguas e impedir que esse tipo de conduta possa, de alguma forma, se transformar em vantagem competitiva.
Porque, quando não há esse alinhamento, abre-se espaço para uma distorção perigosa: a de que assumir mais risco pode gerar benefício. E, nesse cenário, quem age com responsabilidade pode acabar sendo prejudicado.
Quando esse tipo de situação passa sem o devido ajuste, a mensagem que fica é perigosa: “pode”. E não pode.
O mundo Va’a precisa crescer, sim. Mas precisa crescer com responsabilidade. Não adianta formar leme em quantidade e esquecer de formar capitão em qualidade. Afinal, no fim do dia, remar bem é importante. Ganhar prova é legal. Mas nada disso importa se você não entende o básico: o mar não perdoa amadorismo travestido de confiança. E capitão de verdade sabe disso.