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Empreender no Brasil nunca foi para amador. No Va’a, então, é “modo hard”, sem tutorial e sem “save” automático. Quem entra achando que é só fazer canoa bonita e vender… já começou errado.
De um lado do balcão está o “fabricante”. Muitas vezes um cara talentoso, apaixonado pela canoa, bom de laminação e ótimo de conversa. O problema? Empresário zero quilômetro. Gestão, fluxo de caixa, prazo, custo… tudo isso ele aprende do jeito mais brasileiro possível: tomando porrada.
Começa pelo básico: matéria-prima cotada em dólar. Num dia você acorda achando que sabe quanto custa uma canoa. No outro, o câmbio resolve brincar de montanha-russa. O preço flutua, o custo explode e o fabricante segue fingindo que está tudo sob controle. Spoiler: não está.
E a odisseia não para aí. Falta matéria-prima básica: resina epóxi e poliéster, alumínio, madeira de qualidade. O impacto é óbvio — prazo estoura, preço combinado vira ficção e a entrega atrasa. Quase sempre.
Pra temperar o caos, entra a mão de obra. Escassa é elogio. Quase inexistente. A maioria aprende “na marra”, errando na sua canoa enquanto tenta acertar na próxima. Escola técnica de laminação de canoa? Não existe. Cursos On-line? Loucura. É tudo artesanal — no melhor e no pior sentido da palavra.
O mercado cresceu, isso é fato. Antes tínhamos praticamente um único fabricante de OC6. Hoje? Uns oito… talvez. Já perdi a conta. O problema é que crescimento sem base vira bagunça. Não existe fórmula mágica, ninguém reinventa a roda. O que existe é CTRL C + CTRL V de molde, com pequenas alterações para não ficar escancarado demais. Muda um detalhe aqui, outro ali, e pronto: “novo modelo”.
Nas canoas individuais, o cenário beira o insano. Fabricante brota mais rápido que mato depois da chuva. Fundo de quintal, sem estrutura, sem espaço adequado, sem controle de qualidade… mas com Instagram ativo e canoa à venda. Dá medo. Medo real.
Quem ganha dinheiro nesse jogo? Os reparadores. Pena que, pelo menos no Rio de Janeiro, eles são tipo mosca branca: raríssimos. Resultado? O remador aceita qualquer reparo torto, feio e malfeito, porque a alternativa é ficar sem remar. Isso não é exagero. É a realidade nua e crua.
E aí chegamos ao ponto mais surreal: as filas intermináveis. Fabricante prometendo prazo de 10 meses, 1 ano, às vezes mais. A desculpa oficial? “Muitos pedidos”. Ok. Mas se você é empresário e tem demanda para um ano inteiro, você aumenta a produção, contrata, cresce, entrega mais rápido e fatura mais. Simples… na teoria.
Na prática, a fila muitas vezes serve a outro propósito: equilibrar o caixa e manter a empresa respirando por aparelhos. Funciona assim: o dinheiro da sua canoa paga a canoa do primeiro da fila. A do próximo paga a seguinte. Uma pirâmide informal — sem má intenção declarada, mas perigosíssima. Enquanto entra pedido novo, o castelo fica em pé. Quando dá um escorregão… desmorona rápido.
E é exatamente isso que estamos vendo agora. A pirâmide das fábricas de canoa polinésia no Brasil está rachando. Sobrevive quem consegue manter volume de pedidos e giro constante. Quem tropeça, se enrola no próprio prazo e se enforca no caminho. E não são poucos.
E no meio desse caos todo, quem acaba pagando um preço alto são justamente os bons fabricantes. Os poucos que trabalham sério, entregam qualidade, cumprem prazos possíveis e tentam fazer o jogo certo acabam sendo colocados no mesmo balaio dos aventureiros. A bagunça generalizada cria desconfiança, e hoje muitos clientes chegam inseguros, com o pé atrás, adiando ou até desistindo de concretizar a compra. Não por falta de vontade de remar, mas por medo de entrar numa fila que não anda ou numa promessa que não se cumpre. Quando o amadorismo vira regra, até quem faz direito sofre o impacto.
O lado sombrio de algumas fábricas de canoa polinésia no Brasil não é falta de paixão. É falta de estrutura, gestão e maturidade empresarial. Enquanto isso não mudar, o remador segue pagando caro, esperando muito e torcendo para a canoa chegar algum dia.