
Casos e acasos da Canoa Polinésia: Quando os professores são os primeiros alunos do curso
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Dias atrás vi um post da atleta, treinadora e gestora da Escola Dayone Rossii que escancara uma situação antiga e recorrente no Va’a, mas que ainda incomoda porque poucos gostam de encarar de frente. Remadores que chegam aos clubes em busca de aprendizado, absorvem conhecimento técnico e humano, evoluem dentro do ambiente e, quando chega o momento de representar a bandeira do clube em uma competição, optam por outro clube.
É preciso ser honesto desde o início: ninguém está dizendo que o atleta não pode buscar novos horizontes. O Va’a sempre foi movimento e adaptação. Entrar em uma equipe mais forte, procurar uma equipe que ofereça hoje o que o clube atual ainda não consegue proporcionar, faz parte do crescimento esportivo. Isso é legítimo e faz parte do jogo.
O que vem machucando não é a escolha em si, mas a forma como ela acontece. A ausência de transparência, o silêncio prolongado, as decisões tomadas sem diálogo. Em muitos casos, quem esteve todos os dias ao lado do remador, treinando, corrigindo, investindo tempo, energia e confiança, descobre a mudança quando ela já virou fato consumado. Transparência não é favor, é postura. É sentar, conversar e explicar. Pode ser desconfortável, mas é necessário.
Empatia, no Va’a, não é discurso bonito nem postagem emotiva. É reconhecer o processo. Ninguém evolui sozinho. Cada melhora técnica, cada ganho de ritmo, cada conquista pessoal nasce de um ambiente construído coletivamente. Ignorar quem esteve presente nas manhãs difíceis, nos treinos duros e nos momentos de dúvida é apagar parte da própria trajetória. E isso não passa ileso.
Lealdade também costuma ser mal interpretada. Lealdade não é prisão, não é contrato vitalício, não é ficar onde já não faz sentido. Lealdade é respeitar quem acreditou, quem investiu conhecimento, tempo e, muitas vezes, abriu mão de resultados imediatos para formar um atleta melhor. Em alguns momentos, lealdade significa, sim, levantar a bandeira do seu clube quando chega a hora da competição, mesmo sabendo que existiam outras possibilidades. Isso não é falta de ambição. É caráter e respeito a quem investiu em você quando ninguém acreditava.
O problema começa quando o ego cresce mais do que a canoa. Quando o Va’a deixa de ser coletivo e passa a ser individual. Quando a vaidade se sobrepõe ao processo. Esse comportamento não afeta apenas relações pessoais; ele fragiliza projetos, desestimula profissionais e faz com que clubes pensem duas vezes antes de investir em alta performance. Depois, o discurso se repete: falta estrutura, faltam equipes fortes, falta profissionalismo. O que quase nunca se menciona é a base de tudo isso: confiança.
Sem confiança, não existe equipe. Sem equipe, não existe Va’a.
Buscar crescimento é legítimo. Mudar de caminho faz parte da trajetória. Mas fazer isso sem diálogo, sem empatia e sem lealdade não é evolução, é ruptura. O verdadeiro espírito do Va’a está no respeito ao coletivo, na construção conjunta e na honra a quem remou ao seu lado quando ninguém estava olhando. O resto é vaidade. Um ego que pode até ganhar prova, mas que deixa um rastro de desgaste e desunião por onde passa.
E no Va’a, assim como no mar, tudo o que é feito sem respeito ao coletivo, mais cedo ou mais tarde, cobra seu preço.