
Equipe Parava’a de deficientes visuais fala sobre inclusão e Brasileiro de V6
Em podcast apresentado por Celilia Faour, equipe de Parava'a de deficientes visuais fala sobre inclusão e ... leia mais

Acidentes em canoas polinésias quase nunca são fruto de azar. Eles são fabricados dia após dia, muito antes da canoa sequer tocar a água. Quando tudo finalmente dá errado, surge a frase mágica, confortável e socialmente aceita: “foi aprendizado”. Curioso como esse tal aprendizado quase sempre nasce de decisões ruins disfarçadas de coragem, liderança ou “espírito aventureiro”.
Tudo começa pelo erro mais básico de todos — e não, não é técnico, é comportamental. O instrutor olha o mar grande, o vento forte, a condição claramente acima do razoável e decide que “dá pra ir”. Quando volta contando história, vira experiência. Quando dá errado, vira narrativa épica. Se estiver sozinho, problema dele. Coragem pessoal, risco pessoal. O problema começa quando esse mesmo raciocínio leva alunos amadores junto. Aí deixa de ser ousadia e passa a ser irresponsabilidade. Mar não é laboratório. Aluno não é cobaia.
Logo depois vem o clássico desprezo pelo colete salva-vidas. Ainda existe quem acredite que colete é coisa de remador fraco, como se o mar estivesse interessado em currículo, ego, tempo de prática ou quantidade de fotos no Instagram. A realidade é bem menos poética: com colete, a chance de sobreviver praticamente dobra. Mas admitir isso exige maturidade. E maturidade, infelizmente, não rende boa postagem. Se o seu clube não usa, não exige e ainda faz cara feia pra quem usa, ele não está preocupado com sua segurança.
Depois vem a manutenção — ou melhor, a ausência elegante dela. O iako de madeira fica ali, largado no sol e na chuva, dia após dia, sem inspeção, sem cuidado, sem carinho. Ninguém testa, ninguém questiona, ninguém se incomoda. Até o dia em que ele quebra no meio do mar e deixa todo mundo à deriva. A surpresa é geral, quase ofensiva, como se madeira apodrecida tivesse alguma obrigação moral de suportar esforço extremo.
A fé excessiva também marca presença, geralmente materializada naquele cabo responsável por manter ama e iako unidos. Gente que economiza usando material inadequado ou qualquer coisa “que sempre funcionou”, acreditando que vai dar. O detalhe é que, quando o cabo arrebenta, a ama não acredita em tradição nem em boas intenções. A canoa simplesmente vai para o fundo — ou pior, quebra. E o risco vira realidade em segundos.
Some a isso a amarração mal-feita — ou pior, a amarração que ninguém sabe explicar como foi feita. Fica lá, eterna, esquecida, como se não fosse afrouxar nunca, como se carga dinâmica fosse um conceito abstrato. Quando falha, a culpa recai sobre o mar, nunca sobre quem achou que amarrar errado era detalhe.
Em seguida entram em cena os parafusos. Apertados uma única vez e abandonados para sempre. Só que a canoa trabalha, flexiona, vibra, sofre. Parafuso afrouxa. Sempre. Quando chega o dia de mar mais pesado, a estrutura cede, a canoa quebra, e a culpa, como manda a tradição, recai sobre o fabricante. Nunca sobre a falta de manutenção básica.
Poucos se preocupam com a vedação. É invisível, não aparece em foto, não dá status. Até o dia em que começa a falhar: a água entra, o peso aumenta, o desempenho cai e a segurança vai embora devagar. Tudo isso poderia ser evitado com substituição periódica, mas como não é urgente, fica sempre para depois — até virar emergência.
E por fim, o gelcoat do casco. Tratado como se fosse indestrutível. Arrasta na areia, deixa no sol, pega chuva, transporta mal, bate em prova, ignora trincas, fissuras e desgaste. O casco avisa. Mas aviso exige olhar. E olhar exige responsabilidade. Quando algo falha, a surpresa é a mesma de sempre, como se a canoa tivesse obrigação de aguentar qualquer abuso em silêncio.
No fim das contas, acidentes não acontecem no mar. Eles começam muito antes, na negligência diária, no ego inflado e na falsa sensação de controle. O mar não pune ninguém. Ele apenas responde. E quase sempre responde exatamente do tamanho da irresponsabilidade.