
Clubes de va’a do Rio se reúnem para criar protocolo de segurança
Clubes de va’a do Rio criam grupo de trabalho para elaborar protocolo de segurança que minimize acidentes ... leia mais

Que a Va’a cresceu, ninguém discute. O calendário de competições pelo Brasil parece bloco de carnaval: todo mês tem desfile, digo, prova nova. E sim, hoje temos uma elite de alta performance que merece aplauso. Mas… (sempre tem um mas), quase ninguém fala de quem realmente mantém o esporte vivo: a massa dos amadores.
E é justamente aí que o samba desafina. No papel, tudo parece perfeito: existe a tal categoria “estreante” para acolher os novatos. Na prática, é terra de ninguém. Falta critério, falta fiscalização — sobra a velha “boa fé do pecador”.
Se você tem mais de 19 anos, já cai direto no chamado “limbo Va’a”. Pode até brincar de “estreante” por dois anos, mas depois a porta da categoria Open escancara sem dó nem piedade. Aí é o amador de três treinos por semana contra o atleta de planilha, nutricionista, personal e suplementação importada. Alguns parecem até dormir plugados no soro.
O resultado é previsível: o remador amador, aquele que divide tempo entre trabalho, família e faculdade, se vê duelando com quem vive como profissional. É como colocar um peladeiro de fim de semana pra marcar o Neymar em final de campeonato. Adivinha quem desiste primeiro?
O problema não é a elite existir — pelo contrário, ela puxa o nível e inspira. O problema é insistir em misturar água e óleo na mesma panela. Algumas competições, como o Aloha Spirit, já tentam separar melhor isso nas provas individuais, mas a grande porta de entrada do esporte continua sendo a OC6, onde essa mistura é ainda mais evidente.
Enquanto isso, Federações e Associações posam de pais orgulhosos. Regulamento? Fiscalização? Bobagem. O que vale é ter canoa na água e a panelinha da elite no pódio para foto no Instagram.
O ciclo se repete: o amador se frustra, a base não se fortalece, e o topo continua ocupado pela mesma elite. O discurso segue bonito: coletividade, Ohana, espírito polinésio. Mas, na prática, a vaidade e a desigualdade dão as cartas.
Talvez seja hora de encerrar o teatro. Criar, de verdade, uma categoria amadora para modalidade OC6, fiscalizar quem é estreante e valorizar quem está começando a competir. Porque, no fim das contas, a Va’a não respira só pela elite: vive de quem paga mensalidade religiosamente, de quem encara competir já sabendo que vai tomar um baile e, ainda assim, traz o amigo desavisado. Sem essa base, não tem competição, não tem festa, não tem futuro.
Até lá, seguimos nesse embate silencioso: a elite coleciona medalhas e pódios, enquanto os amadores bancam a festa e, aos poucos, desistem de competir. O brilho das medalhas pode até ofuscar, mas não paga a conta. E quando a maré baixar, talvez fique claro: o futuro da Va’a nunca esteve no topo do pódio — ele sempre dependeu da base que insiste em remar.