Por que a aula coletiva não vai salvar a sua remada

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aula canoa havaiana
“Muitos remadores entram na canoa polinésia acreditando que vão evoluir tecnicamente apenas frequentando aquelas aulas coletivas dos clubes. Desculpa ser direto, mas isso não vai acontecer”, pondera Alfredo Piagibe. Foto: Imagem gerada por IA

Já começo deixando algo bem claro para evitar mal-entendidos: não sou professor graduado, não tenho diploma pendurado na parede e nem pretendo vestir a fantasia de especialista. O que segue aqui é a visão de um remador que está na água há algumas décadas e gestor da Bravus Va’a, observando, errando, acertando e, principalmente, vendo muita gente estagnar, ou até regredir, achando que está evoluindo.

Muitos remadores entram na canoa polinésia acreditando que vão evoluir tecnicamente apenas frequentando aquelas aulas coletivas dos clubes. Desculpa ser direto, mas isso não vai acontecer. Não é falta de vontade, não é falta de esforço e muito menos preguiça. É limitação de método.

A maioria dos clubes trabalha com um instrutor responsável por quatro canoas ou mais. Na prática, estamos falando de vinte e três remadores dentro d’água ao mesmo tempo. Achar que uma única pessoa vai conseguir analisar, corrigir e acompanhar tecnicamente a remada individual de todo mundo em uma hora de aula é acreditar em milagre. O máximo que acontece é alguma correção genérica, normalmente passada pelo leme da canoa, que na maioria das vezes é um aluno com nível técnico muito parecido com o restante do grupo. Com muita boa vontade, saem ajustes básicos. Evolução real, não.

Quando o instrutor resolve fazer o que deveria ser normal e começa a aprofundar a técnica, quebrar movimento, reduzir ritmo e focar em consciência corporal, o treino muda. Fica mais lento, mais repetitivo e, para muitos, simplesmente chato. E aí entra o conflito clássico: a maioria dos remadores que acorda às quatro da manhã está buscando intensidade, suor e a sensação de treino forte. Quando isso não acontece, saem frustrados dizendo que o treino foi fraco ou que não rendeu. O detalhe inconveniente é que técnica não combina com pressa. Técnica exige paciência, repetição e, muitas vezes, aceitar que você está fazendo errado há anos.

Existe ainda uma expectativa comum entre os remadores que a aula coletiva simplesmente não consegue atender. Mesmo com toda a boa vontade na formação das canoas, a cada treino você acaba remando com cinco “iluminados” de níveis diferentes. Se o remador à sua frente rema errado, rema encurtado ou fora de tempo, adivinha: você também vai remar errado. Como dizia um dos primeiros instrutores com quem tive contato no Va’a, a qual respeito muito, ele dizia que precisávamos ser camaleões e nos adaptar à remada do colega da frente. O problema é que isso cria vícios, consolida movimentos errados e pode destruir sua evolução se você não souber, de fato, qual é a técnica.

Outro ponto pouco falado é a ilusão de evolução treinando apenas duas vezes por semana em aulas coletivas. A verdade é dura, mas necessária: a evolução nesse cenário é lenta a ponto de, em muitos casos, ser quase imperceptível. O remador até ganha condicionamento físico e aprende a se virar melhor na canoa, mas a qualidade da remada muda muito pouco.

Para piorar, muitos se fecham numa bolha confortável, achando que o Va’a se resume ao próprio clube, àquela metodologia e àquela forma de ensinar. Não buscam clínicas, não fazem aulas particulares, não trocam experiências em outros clubes e não se expõem a visões diferentes. Com o tempo, passam a acreditar que já sabem remar, quando na verdade só aprenderam a repetir os mesmos erros com mais força.

A aula coletiva tem seu valor, claro que tem. É porta de entrada, é social, cria base física e mantém gente na água. Mas achar que ela sozinha vai lapidar técnica é confundir quantidade com qualidade. Aulas particulares aceleram a evolução de forma brutal, clínicas quebram vícios antigos e abrem a cabeça, e treinos de equipe com acompanhamento profissional ensinam algo que em nenhuma aula coletiva ensina: ritmo e evolução em conjunto. Quem evolui de verdade costuma misturar tudo isso. Quem não evolui, geralmente escolhe apenas o que dá menos trabalho mental.

Se você rema há anos, acorda cedo, treina certinho, se dedica e mesmo assim sente que sua remada não muda, sua eficiência não melhora e sua performance estacionou, talvez o problema não seja o seu clube. Talvez esteja na forma como você está tentando evoluir. Va’a é tradição, repetição e respeito ao processo. Não é milagre coletivo nem treino forte todo dia. Evoluir dói, cansa a cabeça e exige sair da zona de conforto. E isso, quase sempre, não cabe dentro de uma aula coletiva lotada de remadores de diversos níveis técnicos e um único instrutor.

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