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Neste final de semana, a Bravus Va’a recebeu Henrique Vogel, capitão da Team Mirage e fundador da He’e Nalu Roots Club. Para quem acompanha o va’a brasileiro, Henrique dispensa grandes apresentações. Para quem ainda não o conhece, estamos falando de um dos nomes mais respeitados da modalidade no país, com uma longa trajetória como atleta, treinador e capitão de equipes de alto rendimento.
Foram duas manhãs de bate-papo em terra. Nenhuma canoa precisou entrar na água para que vários de nós começássemos a afundar nas próprias convicções.
Durante esse período, Henrique apresentou uma quantidade enorme de informações sobre remos, técnica, formação de equipe, regulagem, posicionamento e eficiência. A clínica mostrou que muitas das nossas certezas talvez sejam apenas hábitos repetidos por tempo suficiente até começarem a parecer ciência.

Um dos primeiros pontos apresentados por Henrique foi a importância da padronização dentro de uma equipe de alta performance.
Segundo a metodologia que aprendeu com os taitianos, todos os remadores devem utilizar o mesmo modelo de remo, o mesmo tamanho de pá e — preparem-se para esta parte — o mesmo comprimento de remo, independentemente da altura de cada atleta.
Nesse momento, foi possível sentir algumas certezas abandonando silenciosamente o local. Afinal, estamos acostumados a realizar aquela medição básica, quase ancestral, que Henrique conseguiu desmistificar em poucos segundos.
A explicação é muito mais lógica do que seria possível apresentar neste artigo. Por isso, nem tentarei reproduzi-la. Vale a pena ouvi-la diretamente dele, principalmente porque Henrique não apresenta apenas uma conclusão: ele explica o raciocínio, demonstra na prática e relaciona a escolha do equipamento ao comportamento de toda a canoa.
O mais desconfortável é que, depois de ouvir a explicação, tudo parece bastante óbvio.E não existe nada mais irritante do que alguém destruir uma crença de décadas utilizando apenas lógica.
Outro tema muito discutido na canoa havaiana é o sincronismo. Desde as primeiras remada, aprendemos que todos devem colocar o remo na água juntos e retirá-lo ao mesmo tempo. É o famoso “entrar junto e sai junto”.
Evidentemente, isso é importante. O problema é que, de acordo com Henrique, representa apenas o básico do básico. A partir daí, ele apresentou um conceito muito utilizado pelos taitianos: a harmonia.
Uma equipe pode estar visualmente sincronizada e, mesmo assim, não estar verdadeiramente conectada. Os remos entram e saem juntos, mas será que todos começam a aplicar força no mesmo momento? A pressão sobre a pá acontece na mesma fase do movimento? Todos utilizam o tronco da mesma maneira? A recuperação possui o mesmo ritmo? Essas diferenças podem parecer pequenas para quem observa da praia, mas são enormes para a canoa.
A harmonia exige muito mais do que seis remos aparentemente organizados. Exige que os remadores executem a mesma técnica, apliquem força no mesmo momento e compreendam coletivamente cada fase da remada. Quando isso acontece, a equipe deixa de ser formada por seis atletas individuais e passa a funcionar como um único organismo. A remada se transforma em uma espécie de balé.
Portanto, da próxima vez que alguém assistir a um vídeo e disser “está todo mundo entrando junto”, talvez seja necessário fazer outra pergunta: eles estão apenas entrando juntos ou estão realmente remando em harmonia?
O terceiro grande tema da clínica foi a regulagem da canoa. Aqui, algumas crenças foram oficialmente colocadas em risco.
No mundo da va’a, existem diversos métodos tradicionais de regulagem. Há quem meça o iako utilizando os dedos. Há quem faça uma pequena marca com fita adesiva. Há quem utilize o próprio palmo. Outros observam a canoa à distância, dão dois passos para trás, apertam os olhos e decretam: “Agora ficou boa”. Também existe o método científico conhecido, mas o que vale de verdade é a prática, a experiência e o que já foi testado e comprovado.
Henrique Vogel, entretanto, apareceu com instrumentos um pouco mais rústicos e precisos: uma trena, um nível e alguns calços. Foi quase ofensivo.
O grau de precisão ficou ainda mais evidente quando ele trouxe de Cabo Frio para o Rio de Janeiro a própria ama e os próprios iakos para realizar as demonstrações. Não era apenas uma conversa teórica sobre regulagem. Ele queria mostrar exatamente como analisa o conjunto, quais referências utiliza e como pequenas alterações podem modificar completamente o comportamento da canoa.
A grande lição não foi simplesmente abandonar os dedos e comprar uma trena. O ponto principal foi compreender que a regulagem precisa seguir referências claras e reproduzíveis.
Quando utilizamos medidas objetivas, podemos testar uma configuração, analisar o comportamento da canoa e repetir exatamente a mesma montagem em outro momento. Sem isso, cada regulagem se transforma em uma nova experiência baseada em memória, sensação, tradição e fé.
E, convenhamos, fé é importante, mas talvez não seja o melhor instrumento para ganhar uma competição.

É praticamente impossível colocar neste artigo tudo o que foi apresentado durante a clínica. Cada um dos três temas citados poderia render um artigo completo. E esses foram apenas alguns dos assuntos abordados ao longo do final de semana.
Além disso, muitas informações precisam ser demonstradas. Uma explicação sobre a técnica ganha outro significado quando o movimento é executado, corrigido e comparado diante dos remadores. Há detalhes que simplesmente não cabem em palavras ou em vídeos curtos publicados nas redes sociais.
A clínica deixou uma mensagem bastante clara: na va’a, tradição é importante, a experiência conta muito e o detalhe faz muita diferença.