
Principal prova da Te Aito acontece neste sábado com transmissão ao vivo
Com transmissão ao vivo e a presença de mais de 1000 remadores, principal prova da Te Aito acontece neste ... leia mais

Gera discussão e, às vezes, até briga, falar ou silenciar na canoa. Isso divide opiniões. Porque cada um tem a sua, mas o que deve prevalecer é o bom senso, além de um briefing antes de embarcar. Impor silêncio na marra e tentar sabotar o grupo exigindo do banco 3 um hip dito bem baixinho é autoritarismo. Longos papos na canoa, por sua vez, atrapalham a sincronia e podem tornar o hip e a voz do comandante inaudíveis. Por outro lado, vários comandos ditos de vários bancos, quando o comandante é o soberano na canoa, também não ajudam em nada e até podem causar acidentes. Assim, a convite do Aloha Spirit Midia, conversei com dois remadores e duas remadoras sobre o tema com o objetivo de contribuir para um entendimento harmônico, como deve ser em uma ohana.
O remador Marcelo Bosi, 50 anos, empresário, instrutor e atleta de canoagem, fundador da escola Alma Azul Academy, com base no Lago Norte, em Brasília, e no Rancho do Kite, na praia cearense do Preá, é um dos pioneiros da canoagem no Brasil e tem uma história de sucesso no esporte, competindo há três décadas e conquistando títulos nacionais, sul-americanos e mundiais. Bosi esteve inúmeras vezes nas ilhas da Polinésia e já remou nas águas geladas da Antártica em uma V3.
Sobre silêncio e conversas na canoa, ele diz: “Quando o treino busca melhor performance, a conversa precisa ser limitada, porque com muita conversa se perde o foco, a atenção e a sensibilidade do ritmo. Mas a comunicação é muito importante. O capitão tem de saber se comunicar de uma forma bem assertiva com a tripulação, se puxa mais, se alivia um pouco, pra não deixar a canoa tensa. Se o capitão falar de forma ríspida, enérgica, os remadores ficam estressados e não flui, perde-se muita energia”.

Em relação às remadas de lazer e passeios, Bosi destaca que “é preciso ser mais livre, as pessoas não estão ali com a intenção de performar, estão ali com a intenção de se divertir, de apreciar e, muitas vezes, é a primeira vez que alguém está remando e o novato quer se expressar, quer compartilhar. Nesse caso, quem está conduzindo a canoa precisa dar liberdade, evitar que o ambiente fique tenso, porque o propósito não é de competição. É preciso ter sensibilidade para conduzir a canoa e saber qual é o objetivo de cada remada. Eu mesmo não exijo nada em passeios, quando o objetivo não é performar, deixo as pessoas se divertirem, o ambiente tem de ser leve. O condutor deve ter sabedoria para perceber quando deve intervir, mas sempre com cuidado. Não pode ser autoritário”.
Marcelo Bosi começou a remar com oito anos de idade, no Lago Paranoá, em Brasília, quando seu pai mudou para uma casa no bairro Lago Norte e comprou um caiaque de turismo. Quando completou o segundo grau, foi viver em Seattle, Washington, nos Estados Unidos. A região tem uma forte cultura de travessias em caiaque oceânico e Bosi começou a fazer expedições e viu pela primeira vez canoas havaianas, de uma comunidade tradicional, que vivia na região.
Ao retornar ao Brasil, ele continuou a fazer expedições pelo litoral e também em lagos, foi quando resolveu montar uma empresa de turismo de caiaque e foi incentivado a importar canoas havaianas para Brasília, em 2003, com o propósito de conectar as pessoas com uma atividade lúdica com a água e que é ancestral. Em 2020, Marcelo Bosi viajou 30 dias na Antártica, dos quais nove de canoa, uma V3, revivendo o mito polínésio do ano 650. Ele acompanhou a expedição do fotógrafo João Paulo Barbosa, que viajou à Antártica a bordo do veleiro Kotik.
“Cada remada tem a sua alma”, define Henrique Ferreira, 40 anos, psicólogo, remador e lemista de canoa polinésia no Clube Kalola Va’a, nas margens do Lago Guaíba, em Porto Alegre. Mais que uma frase perfeita para uma ohana, aqui há a noção exata de propósito. Quando a remada é de treino e de competição, a equipe precisa de total concentração, sincronia e silêncio para que as palavras de comando possam ser ouvidas por todos. Mas quando a remada é um passeio ou uma expedição o comportamento é outro porque existe um ambiente de socialização e a cronometragem é dispensada.
Ferreira explica com a transparência que sua formação de psicólogo ensinou: “Existe remada de passeio, leve, onde o objetivo é curtir o momento, conversar, dar risada, sentir o balanço da canoa e o clima do grupo. Claro que existe sincronia, respeito e noção de coletivo, mas sem aquela rigidez de treino. Não tem cronometragem, não tem pressão, não tem aquela exigência de silêncio absoluto. É outra energia”.

A conversa não é um problema. E o silêncio de monastério também não. “O problema existe quando alguém tenta impor o estilo errado para o tipo de remada que está acontecendo. Silêncio total em remada de passeio não faz sentido e conversa solta em treino técnico atrapalha. O que importa é alinhar antes, com respeito e maturidade. Quando isso acontece, a canoa navega redondo. Todo mundo se sente parte. E a água agradece”.
Quando a gente fala de treino e competição, o jogo muda, destaca Ferreira. A sinergia precisa ser combinada antes. Banco 1, 2 e 3 não podem estar remando focados enquanto 4, 5 e 6 estão batendo papo, por exemplo. Isso desorganiza, quebra o ritmo e mexe com o espírito da remada. Já competi em guarnições que treinavam em silêncio total, quase um ataque furtivo. Hip suave, pouca água batendo, remo sem barulho, todo mundo conectado no mesmo propósito. Era a cultura daquele time. Já estive em outras equipes onde o hip vinha forte, cheio de energia, e isso dava o tom da remada. E tudo funcionava porque havia um acordo.
Conversei também com duas remadoras sobre silêncio e conversas. Adriana Peppl, 57 anos, de Porto Alegre, é atleta de alta performance, Eni Braga, 51, bióloga, rema no Lago Paranoá, em Brasília.
Adriana é uma atleta conhecida nas raias de provas. Segundo ela mesma: “Carrego no remo meu caminho, minha identidade e minha força. Minha história na água começou cedo, do bodyboard à juventude, do SUP às primeiras remadas e, em 2016, encontrei no va’a o lar onde corpo e espírito se alinham. Hoje vivo a canoa em todas as suas formas, OC1, OC2, V3 e OC6”. A atleta conta que “rema com o propósito de honrar a cultura, fortalecer a equipe e seguir aprendendo com o oceano, meu maior mestre”.

Para Adriana, “o silêncio não é vazio, é o instante em que todos respiram no mesmo ritmo, quando o mar parece guiar a embarcação e cada remador sente o outro sem precisar de palavras. É ali que a canoa vira um só corpo, e o oceano, um mestre. Silenciar é honrar a ancestralidade, escutar o coração da água e deixar que ela conte o caminho”.
Ela reconhece que também há o momento da palavra, “poucas, precisas e verdadeiras. Conversar antes de entrar no mar, alinhar intenções, partilhar o espírito da remada. Falar para orientar, para cuidar, para fortalecer o laço que une a equipe”. Adriana ainda destaca que “na canoa, cada grupo aprende que a travessia acontece nesse balanço: falar quando a alma precisa se alinhar, silenciar quando o mar pede escuta. A remada, então, torna-se um fluxo natural entre esses dois estados”.
As marés a levaram a conquistas que moldaram quem Adriana se tornou: pódios na cena gaúcha de SUP e de canoa polinésia, Black Medal no Aloha Spirit, e voltas a algumas ilhas que guardam histórias, como Ilha Grande, Ilhabela, Florianópolis e Porto Belo. Ela já cruzou 50 km de mar entre Itapema e Governador Celso Ramos, celebrou o título de Campeã Brasileira 2022 – Estreantes, garantiu a vaga na Seletiva Sprint 2023 em Brasília, e viveu a honra de competir no Mundial de Sprint 2024, em Hilo, no Havaí.
A remadora de Brasília, Eni Braga, conta que “curto muito o va’a justamente na sua vertente coletiva. Nesses três anos de esporte, apesar das recomendações de amigos e professores, ainda não tive vontade de remar canoa individual. Sintonizar com os companheiros para um deslocamento eficiente na água, enfrentando o desafio físico, ao mesmo tempo em que a natureza está ali também buscando a minha atenção junto com tudo que se passa na canoa, é o grande barato desse esporte. Me faz sentir muito viva e potente!”
A remadora, que compete na categoria master, salienta que “conexão e sintonia, fundamentais na prática desse e de outros esportes coletivos, envolvem comunicação e ela acaba acontecendo de diferentes formas. Conversa e silêncio, cada qual tem o seu momento e serventia. Aulas, passeios e até treinos, por que não? – indaga Eni, são momentos pra, junto com a técnica, também compartilhar emoções, percepções, experiências. Falar, ouvir, rir, brincar, pedir e dar atenção no momento certo faz parte e ajuda a criar a atmosfera de ohana tão própria desse esporte que, feliz e lindamente, tenho encontrado nas bases de Brasília”.

No entanto, Eni percebe que, por outro lado, “o silêncio é o que proporciona conexão nos momentos em que os corpos e mentes de todos estão focados no balanço, deslocamento e comandos. Nesse momento, qualquer som fora do combinado quebra tudo e dificulta que essa unidade tão forte e, ao mesmo tempo delicada, se estabeleça. Quem dirá gritos desesperados de vai, força ou comandos aleatórios vindos de todos ou qualquer um em momentos de cansaço ou dificuldade”. A remadora de Brasília já participou de competições e conquistou quatro medalhas. Eni revela que adora as provas, mas não faz delas o seu propósito na canoagem.
Comandos aleatórios, vindos de qualquer banco, confrontando quem está conduzindo a canoa, é mais grave do que uma conversinha a bordo e podem provocar acidentes. Imagine uma situação em que o condutor já calculou todo o trajeto mentalmente e está conduzindo o leme com destreza, quando alguém da canoa resolve acelerar e dar ordens porque acha que a canoa vai bater na embarcação que está próxima. É aí que tem huli!

A navegação polinésia e o povoamento do Oceano Pacífico começaram há milhares de anos. Os habitantes das ilhas do Pacífico atravessavam vastas extensões oceânicas em canoas de casco duplo, conhecidas como catamarã, ou com estabilizadores, guiando-se exclusivamente pelo conhecimento das estrelas e pelas observações dos padrões do mar, dos ventos, das nuvens e das aves. Todo o conhecimento era passado de geração em geração em conversas e o ensinamento dos jovens era dentro da canoa, em longas conversas e troca de experiência com os mais velhos.
A pesquisadora Kim Martins, da Nova Zelândia, com várias publicações sobre povos ancestrais, em especial os polinésios, destaca que os “habitantes das ilhas eram navegadores habilidosos que memorizavam instruções de navegação e transmitiam seus conhecimentos por meio de folclore, heróis culturais e histórias orais simples”. A escritora, além de ser bacharel em História e Direito, é mestra em Ciência do Caos e Complexidade.
O Oceano Pacífico cobre um terço da superfície da Terra, com 165,25 milhões de quilômetros quadrados e suas ilhas remotas foram as últimas a serem alcançadas por navegadores. Os ancestrais dos polinésios, o povo Lapita, partiram de Taiwan e colonizaram a Oceania Remota entre 1100 e 900 a.C. Os Lapita eram navegadores habilidosos que memorizavam instruções de navegação e transmitiam seus conhecimentos por meio de folclore, heróis culturais e histórias orais simples.
E ainda tem a área geográfica da Oceania Remota conhecida como triângulo polinésio, que abrange Aotearoa (Nova Zelândia), Havaí e Ilha de Páscoa, no Chile, e inclui mais de 1.000 ilhas. Entre algumas dessas ilhas, as distâncias superam 1.000 quilômetros. A navegação exigiu conhecimento e habilidades extraordinárias para deslocar em uma canoa de casco duplo ou com estabilizador por cinco a seis semanas em direção a um destino esperado. Sim, os navegadores não se deslocavam à deriva numa viagem só de ida, eles sabiam para onde iam e que poderiam voltar caso necessário.