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Logo após o encerramento do Campeonato Pan-Americano em Rapa Nui, uma equipe 100% feminina do Brasil participou da tradicional competição Teka Varua Rapa Nui, que consiste em uma desafiadora volta completa à Ilha de Páscoa. Superando ventos e correntes, as remadoras brasileiras conquistaram a primeira colocação, um feito histórico por ser a primeira vez que uma equipe do Brasil vence a prova. Embora outros atletas brasileiros tenham participado desta edição integrados a equipes de outras nações, a equipe feminina se destacou por ser inteiramente composta por brasileiras e por alcançar o lugar mais alto do pódio.
Doze remadoras — entre 15 e 48 anos — navegaram pela presença (MANA) do oceano polinésio conquistando o ouro em uma das provas mais simbólicas da cultura Rapa Nui. “A gente sabia que seria um grande desafio, mas também que iríamos nos divertir, era um sonho individual e coletivo, uma grande honra participar da Teka”, resumiu Marcela Antunes da base Ke Aloha Ilhabela.
Para Jimena Bermedo, organizadora local com o Team Varua e guardiã do espírito da Teka, a prova transcende qualquer lógica meramente esportiva. Ela descreve o evento, que é realizado há alguns anos depois do tradicional Tapati (festival que celebra a cultura polinésia de Rapa Nui), como um pacto de conexão com a ancestralidade da ilha, algo que o remador precisa sentir primeiro, para só depois entender: “Aqui, não se rema por medalha. Se rema para honrar quem veio antes, para conversar com o mar”, diz Jimena.

Essa dimensão cultural, somada ao desafio físico extremo de contornar toda a ilha sob o humor imprevisível do Pacífico, dá à Teka um caráter quase místico — e foi justamente isso que atraiu as brasileiras. A ideia de competir nasceu da mistura incomum entre coragem e oportunidade: um impulso coletivo de provar que era possível ocupar esse espaço com respeito e força.
As atletas vieram de diferentes regiões do Brasil, unidas pela paixão pela Va’a e pela vontade de representar o país e o feminino em um território de tradição. Treinaram à distância, ajustaram agendas, estudaram a prova e construíram, pouco a pouco, uma equipe consistente. A chegada à ilha, porém, marcou um novo capítulo: adaptação ao vento instável, leitura rigorosa de correntezas, ajustes na canoa e imersão no ritmo polinésio. “A ilha pede silêncio e humildade. Você precisa escutar antes de remar”, conta Jimena.
Competir o Pan-Americano de 2025 dias antes foi crucial para alinhar corpo e mente ao desafio que viria. No dia da prova, o Pacífico mostrou por que é conhecido como um mestre severo. “Ondas longas, vento lateral cortante e trechos de pedra exigiram precisão absoluta. Cada troca parecia uma coreografia estudada; cada quilômetro, um teste emocional”, diz a remadora Maíra Pita, da base Guanabara Va’a , do Rio de Janeiro.

Mesmo preparadas, elas foram surpreendidas pela intensidade das correntes e pelo frio provocado pelo vento. As trocas, feitas de forma diferente das provas brasileiras, exigiram energia calculada e foco absoluto. Mas foi o impacto emocional de remar tão perto de um território sagrado que deixou marcas mais profundas. “É como se o mar estivesse vivo, observando cada gesto”, diz a remadora Eva Rosa, da base EVA’A, de Praia Seca, Araruama, RJ.
Nesse cenário, a participação das juniores ganhou ainda mais simbolismo. Se no masculino jovens já participam de provas de revezamento há anos, no feminino isso ainda é raro — e as brasileiras quebraram essa barreira. “Se os meninos podem ocupar esse espaço desde cedo, elas também podem — e devem”, afirma a remadora Nicole Saback, da base Kirymurê, Bahia. As jovens, de 15 e 16 anos, tornaram-se um símbolo de continuidade e coragem.
A chegada em primeiro lugar coroou a travessia. A equipe completou o percurso dentro do tempo esperado e celebrou o ouro com a consciência de que o resultado era apenas uma parte da conquista. “O verdadeiro marco foi provar que mulheres brasileiras podem não só competir, mas honrar a cultura polinésia”, acredita a remadora Dani Dillan, da escola V1da, na praia da Glória.

Durante a premiação, as atletas participaram de um almoço tradicional com famílias locais, ouvindo histórias, cantos e explicações sobre símbolos da ilha. A recepção calorosa selou a conexão. “A ilha não abre o coração para quem chega correndo. Ela abre para quem chega aberto”, diz Jimena.
Ao final, o legado é claro: força feminina, representatividade e respeito a uma cultura ancestral. As doze brasileiras abriram caminhos para meninas e mulheres de todas as idades que sonham grande, mostraram que resiliência não tem gênero e escreveram um capítulo irreversível na história da Teka. “A gente não veio só remar. Veio honrar. E a ilha reconheceu isso”, concluiu a remadora Aline, gestora esportiva, reside em Santos.
Marcela Antunes, Aline Savieto, Nicole Saback, Sue Wicks, Eva Rosa, Mariana Daufenbach, Rafaela Alarcao, Valentina Santos, Zuca Bacellar, Dani Dillan, Fernanda Thedim e Maíra Pita.
Apoio barco: Vanessa Andrade
*Texto escrito em parceria por Aline Savieto, Marcela Antunes e Fernanda Thedim. Revisão: Luciano Meneghello