
I Simpósio Niteroiense de Va’a ao vivo
Acompanhe ao vivo o I Simpósio Niteroiense de Va’a com presença de nomes de destaque da canoagem ... leia mais

No Va’a, existe um ritual silencioso que todo mundo conhece, mas pouca gente gosta de admitir: o famoso “cata cata” na véspera das competições. De repente, aquela equipe que treinou junta o ano inteiro começa a se dissolver como areia na maré. Os melhores se procuram, as mensagens privadas começam a pipocar, e quando você percebe, a canoa que treinava todo dia já não é mais a mesma. Antes que alguém torça o nariz, vamos ser honestos: é natural. Sempre foi assim no esporte. Quem quer competir de verdade quer estar numa equipe forte. Isso não é pecado, é ambição esportiva. O problema não é buscar performance. O problema é como e quando isso acontece.
No Va’a, especialmente em provas longas, sinergia não é detalhe, é fundamento. Basta olhar para as grandes referências do esporte, como o que se vê no Molokaʻi Hoe, onde as equipes passam meses — às vezes anos — ajustando cadência, timing, confiança e leitura de mar. Aquilo não nasce na semana da prova. Não é encaixe de última hora. É construção. É repetição. É desgaste junto. É errar junto até acertar. Canoa havaiana não é futebol de botão que você troca a peça e pronto. São seis corpos que precisam respirar no mesmo ritmo, reagir ao vento e à ondulação quase por instinto. Isso exige convivência e confiança. Exige quilometragem compartilhada.
Quando o “cata cata” acontece na véspera, principalmente para longa distância, o que se vê muitas vezes é uma soma de talentos sem alma coletiva. Remadores fortes, sim. Mas sem leitura fina um do outro. Sem aquele microsegundo de sintonia que faz diferença depois de duas horas de prova. A conta chega. E às vezes chega em forma de frustração. Porque expectativa sem base sólida vira pressão. E pressão sem preparo vira decepção.
Mas tem algo ainda mais delicado: a comunicação. O esporte é competitivo, mas também é relação. É amizade de treino às cinco da manhã, é parceria de chuva e mar mexido. Quando alguém simplesmente some para “trocar de equipe” sem uma conversa franca, o que fica não é só a lacuna técnica. Fica a sensação de descarte. E isso corrói equipe, corrói ambiente, corrói confiança. Não é sobre impedir ninguém de buscar crescimento. Pelo contrário. Evoluir faz parte. Só que lealdade e diálogo também fazem. O Va’a tem raiz polinésia, tem espírito de coletividade. Não nasceu para ser palco de ego inflado.
Se a intenção é montar equipe forte, que isso seja feito com planejamento, antecedência e transparência. Quer testar uma nova formação? Treine meses antes. Quer subir de nível? Converse com quem sempre remou ao seu lado. O esporte aguenta ambição. O que ele não aguenta é vaidade mal resolvida.
No fim das contas, medalha enferruja. Troféu junta poeira. Mas reputação fica. E no Va’a, onde o mar ensina humildade todo dia, talvez a pergunta mais importante não seja “com quem eu vou ganhar a próxima competição?”, mas “como eu quero ser lembrado dentro do Va’a?”