A síndrome do pódio precoce

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pódio precoce
Uma situação que aparece em praticamente todo clube de canoa polinésia e que pode abalar a hamornia dos treinos: o pódio precoce. Foto: Imagem gerada por IA

Existe um personagem curioso que começa a aparecer em praticamente todo clube de canoa polinésia depois de algum tempo. Quem está na canoa há anos reconhece esse perfil de longe. Ele não chega fazendo barulho. Pelo contrário. Surge silenciosamente, normalmente depois de um ou dois anos de canoa. É o remador de pódio precoce.

A história quase sempre é a mesma. A pessoa começa na canoa cheia de entusiasmo, aprende o básico, melhora a remada, participa da primeira competição e, em algum momento, sobe no pódio. Às vezes numa prova pequena. Às vezes numa categoria com poucas canoas. Às vezes numa situação em que simplesmente havia três equipes largando. Mas isso pouco importa. O que realmente importa é o efeito psicológico que aquele pódio causa.

Para alguns remadores, funciona como combustível. A pessoa percebe que ainda tem muito a aprender, começa a treinar mais, escuta mais os mais experientes e passa a respeitar ainda mais o esporte. Para outros, porém, o pódio vira uma espécie de certificado invisível de superioridade.

De repente, aquele remador que até ontem estava aprendendo começa a agir como se tivesse concluído uma longa jornada dentro do esporte. Na cabeça dele, a fase de aprendiz acabou. Agora ele se vê como alguém que pertence a um grupo seleto: o grupo dos “remadores fortes”. E é aí que nasce um problema silencioso dentro de muitos clubes.

Remar com iniciantes passa a incomodar; treinos mistos começam a ser vistos como perda de tempo; dar orientação para quem está começando vira quase um fardo. O discurso muda. Surgem frases como “essa canoa está fraca”, “não gosto de remar com quem está começando”, ou “quero remar com fulano, com minha equipe e etc.”. Só existe um detalhe curioso nessa história: ele ainda é iniciante também.

Dentro da cultura da canoa polinésia, um ou dois anos de canoa significam muito pouco. O esporte tem uma profundidade técnica enorme. Remada, sincronismo, leitura de mar, estratégia de prova, posicionamento de pá, cadência, troca, comando, navegação em mar mexido — tudo isso leva muitos anos para amadurecer.

Os grandes remadores do esporte carregam uma década ou mais de canoa nas costas. Muitos têm quinze, vinte anos dentro da canoa e continuam humildemente aprendendo todos os dias. Esse é um dos valores mais antigos da cultura polinésia: humildade dentro da canoa.

A canoa nunca pertence a um indivíduo. Ela pertence ao grupo. E existe uma regra não escrita que sustenta praticamente todos os clubes que sobrevivem ao longo do tempo: quem chegou antes ajuda quem chegou depois.

Todo remador experiente carrega na memória seu primeiro dia na canoa. A remada torta. A pá entrando errada. A falta de ritmo. A troca atrasada. A famosa “manteigada” — quando a pá entra na água e sai sem tracionar nada, como se estivesse mexendo sopa. Todo mundo já passou por isso.

E enquanto isso acontecia, havia pessoas mais experientes dentro da mesma canoa. Pessoas que tiveram paciência. Que corrigiram. Que explicaram. Que muitas vezes remaram mais forte para compensar o novato. Esse é o verdadeiro ciclo da canoa. Alguém te carrega no início. Depois chega o momento de você carregar alguém. Quando um remador quebra esse ciclo, algo importante se perde. Porque o problema não é apenas técnico. Ele passa a ser comportamental.

Quando alguém começa a se colocar acima do grupo, cria-se uma fissura dentro do clube. Começam a surgir divisões invisíveis: os “fortes” de um lado, os “fracos” do outro. Os “que prestam” e os “que atrapalham”. Essa mentalidade é o oposto do que sustenta a essência da canoa polinésia, pois a canoa é, antes de tudo, um exercício coletivo de humildade.

Se um remador está desalinhado, a canoa inteira sente. Se um está fora do ritmo, todos pagam o preço. Se um erra, a canoa inteira perde eficiência. Não existe vitória individual dentro de uma canoa.

Por isso, quando alguém se recusa a remar com iniciantes ou a compartilhar conhecimento, ele deixa de contribuir com o crescimento do grupo. Pior do que isso: passa a enfraquecer a estrutura que um dia permitiu que ele próprio evoluísse. É nesse ponto que muitos clubes começam a perceber algo desconfortável: que verdadeiro problema não é o remador fraco, mas o remador que acha que já chegou lá.

Porque o iniciante, por definição, quer aprender. Já aquele que acredita que não tem mais nada para aprender se torna algo muito mais difícil de lidar. Ele para de evoluir, não ensina e ainda cria atrito.

Dentro de um ambiente coletivo como a canoa, esse tipo de comportamento funciona quase como uma fruta estragada dentro de um cesto. No início parece pequeno, quase irrelevante. Mas, se ignorado, acaba contaminando todo o ambiente.

Por isso os clubes mais sólidos aprendem uma lição importante ao longo do tempo:

  • Talento ajuda.
  • Força ajuda.
  • Experiência ajuda.
  • Mas nenhuma dessas qualidades sustenta um grupo se vier acompanhada de arrogância.

No final das contas, os remadores mais respeitados dentro da canoa raramente são os que mais se vangloriam de resultados ou os que evitam remar com iniciantes. São aqueles que continuam remando forte, mesmo quando a canoa está cheia de novatos.

São aqueles que orientam sem subir no pedestal e que lembram exatamente de onde vieram. Porque na canoa existe uma verdade que o tempo sempre confirma: quem não aprende a remar com os outros… acaba remando sozinho.

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