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Quem frequenta clube de remo ou vive o ambiente da canoa havaiana há algum tempo provavelmente já assistiu a esse filme várias vezes. O roteiro quase nunca muda. Só muda o personagem principal.
Tudo começa com aquele remador aparentemente discreto. Quieto, tímido, observando tudo ao redor e tentando passar uma imagem de humildade. Frequenta as aulas, aprende o básico e, em poucas semanas, já aparece equipado como se estivesse indo disputar um campeonato mundial. Surge com um remo que custa mais caro que o salário de muita gente ali dentro.
Como a estética virou prioridade antes da técnica, o pacote normalmente inclui o clássico colete salva-vida slim ultrafino, porque segurança demais “estraga o shape”. Não importa se o cidadão nada igual a um hipopótamo com ansiedade. O importante é sair bonito na foto. Até aí, honestamente, seria apenas vaidade. Nada muito grave. O problema começa quando o ego entra na canoa antes da humildade.
Com o passar das semanas, ele começa a ganhar intimidade com a turma. Surgem então as piadinhas, os comentários “técnicos” e as análises dignas de especialista de botequim. A canoa não andou porque fulano remou mal. O leme travou a canoa. A canoa era pesada. O vento virou bem na hora. Curiosamente, o problema nunca é ele.
E é exatamente aqui que aparece uma das armadilhas mais perigosas dentro do esporte: o ego quase nunca chega fazendo barulho. Ele chega fantasiado de motivação.
Logo depois vem a fase da validação pública, que hoje acontece principalmente nas redes sociais. O treino deixa de ser apenas treino e vira conteúdo. A remada vira ensaio fotográfico. O relógio esportivo vira troféu digital. Começa o overposting diário com frases de superação copiadas de perfil gringo, print de pace, foto olhando para o horizonte, vídeo em câmera lenta e legenda sobre disciplina, resiliência e superação, como se o sujeito tivesse atravessado o Pacífico no meio de um tufão.
Tudo isso depois de quarenta minutos remando em água lisa. O problema não é postar. O problema é precisar ser validado o tempo inteiro.
Com o ego crescendo, a capacidade de ouvir vai diminuindo. O remador passa a aprender pouco porque escuta pouco. Interrompe explicações, despreza correções técnicas, acha que já sabe tudo e começa a interpretar qualquer conselho como crítica pessoal.
Aos poucos, vira aquela famosa “laranja podre” dentro das aulas. Espalha arrogância, desrespeito e uma necessidade constante de provar que é superior aos demais. Começa a tratar iniciantes com antipatia, como se poucos meses de remo já fossem suficientes para transformá-lo numa autoridade do esporte. Só que existe uma coisa maravilhosa no mar: ele não respeita personagem.
Água mexida, vento forte, mar difícil e pressão real costumam desmontar rapidamente qualquer fantasia de superioridade. O mar tem um talento especial para humilhar gente soberba.
Em algum momento, por mérito, insistência ou simplesmente porque faltou remador, ele consegue entrar numa equipe de competição. E aqui começa talvez a parte mais cômica do filme. A bio do Instagram muda imediatamente: “ATLETA DO VA’A”.
Sem histórico esportivo. Sem bagagem. Sem experiência real. Sem estrada. Nasce um atleta da noite para o dia, embalado por algumas fotos bonitas e meia dúzia de treinos.
Chega então o fatídico dia da competição. Cara fechada. Sangue nos olhos. Aquecimento cinematográfico. Concentração absoluta. Não necessariamente para remar melhor, mas principalmente para não passar vergonha e, acima de tudo, não chegar atrás.
E sendo sincero? Às vezes a frustração rápida seria até mais saudável. Porque muitas vezes no va’a, aplauso precoce costuma criar personagem antes de criar remador.
Agora, se sobe no pódio muito rápido, aí potencialmente nasce o verdadeiro problema. E não, o problema não é comemorar. Medalha deve ser comemorada mesmo.
O problema vem depois. Cria-se o falso atleta. O sujeito que sobe uma vez no pódio e passa a acreditar que já venceu dentro do esporte. Fecha-se numa bolha silenciosa de arrogância. Para de ouvir. Para de aprender. Acha que aula virou perda de tempo. Que clínica técnica é desnecessária. Que correção é perseguição pessoal. E que conselho é inveja disfarçada.
Talvez exista aqui uma das maiores ironias do va’a: um esporte que deveria ensinar humildade virou palco de vaidade para muita gente.
Os remadores mais antigos entendiam isso de forma muito simples. Sabiam respeitar quem chegou antes. Carregavam canoa sem enxergar humilhação nisso. Ajustavam a própria força para melhorar a equipe. Ensinavam iniciantes sem precisar diminuir ninguém. E principalmente entendiam que medalha nenhuma substitui caráter.
Hoje, muita gente quer viver a estética da canoa sem viver a essência dela. Quer parecer atleta antes de virar remador. Só que existe uma diferença brutal entre os dois. O falso atleta busca aplauso. O remador de verdade busca evolução.
Quem tem ego frágil precisa aparecer o tempo inteiro. Já o bom remador quase nunca precisa falar muito. A água acaba mostrando quem é quem. E cedo ou tarde o mar desmonta personagens. Sempre desmonta.
No fim das contas, remo caro não compra humildade, medalha não compra maturidade e postagem nenhuma ensina espírito da canoa.
Isso ainda continua sendo aprendido do jeito antigo: na água, na convivência, na disciplina, na paulada e, principalmente, ouvindo mais do que falando.