
Porque minha média na prova é maior que nos treinos?
Treino específico, prova de natação consistente: entenda a importância de planejar volume, intensidade e ... leia mais

Fala, moçada! Estamos chegando ao fim de mais uma temporada e pra quem não sabe, novembro é o mês de uma das provas de maratona aquática mais tradicionais do calendário: a 14 Bis. Os nadadores encaram um percurso de 24 quilômetros, com início no Forte de São João, em Bertioga (SP) e chegada na Base Aérea de Santos, no Guarujá (SP).
Essa é uma travessia muito especial para aqueles que são apaixonados por provas de longa distância ou mesmo quem busca um novo – e grande – desafio. Por isso, eu e minha equipe realizamos um trabalho que vai muito além da preparação física, técnica e mental. O estudo do clima e da geografia local também é parte fundamental do nosso planejamento.
Mesmo que você não esteja se preparando para essa prova, gostaria de aproveitar a oportunidade para falarmos sobre como esse conhecimento pode e deve fazer parte da sua vivência como maratonista aquático – seja em provas longas ou curtas.
Em uma ultramaratona aquática, não basta estar fisicamente preparado para nadar longas distâncias. Conhecer as características do local da prova, entender o comportamento das marés e acompanhar as condições climáticas também são fatores fundamentais para garantir a segurança e construir uma boa estratégia.
Um dos aspectos mais importantes é compreender o comportamento das marés e das correntes marítimas. Nadar a favor de uma corrente pode representar uma vantagem significativa, permitindo avançar mais rapidamente e economizar energia. Por outro lado, enfrentar uma corrente contrária pode reduzir drasticamente a velocidade de deslocamento, aumentando o desgaste físico e, em situações extremas, fazendo com que o atleta praticamente não saia do lugar.
Outro ponto de atenção é a mudança das marés. Em provas de longa duração, o nadador pode enfrentar diferentes fases de enchente e vazante ao longo do percurso. Antecipar essas alterações, considerando também a influência dos ventos e das correntes locais, permite ajustar a estratégia de navegação e evitar esforços desnecessários.

Na natação em águas abertas, nem sempre o caminho mais curto é o mais rápido. Dependendo das condições, uma rota ligeiramente mais longa pode ser mais eficiente se permitir aproveitar correntes favoráveis. Por isso, o reconhecimento prévio do local do percurso é relevante. Identificar pontos de referência na costa, como montanhas, edifícios e faróis, ajuda o atleta a manter a orientação e evitar desvios que podem acrescentar distância à prova.
Além da navegação, é fundamental conhecer os possíveis obstáculos naturais da região, como costões rochosos, recifes, bancos de areia e áreas de arrebentação. Esses elementos podem representar riscos importantes, especialmente quando combinados com ondas fortes ou mudanças de maré. Quanto maior o conhecimento sobre o percurso, menores as chances de surpresas durante a travessia.
A temperatura da água é outro fator que merece atenção especial. A exposição prolongada ao frio pode comprometer o desempenho e aumentar o risco de hipotermia. Já temperaturas elevadas também podem trazer dificuldades para a regulação térmica do organismo.
Em algumas regiões, correntes oceânicas e fenômenos locais também provocam mudanças significativas na temperatura da água ao longo do percurso. Conhecer essas características ajuda a definir estratégias de preparação, alimentação, hidratação ou mesmo o uso de roupas de neoprene, quando permitido pelo regulamento da prova.
Acompanhar as previsões meteorológicas e conhecer os padrões de vento da região também pode ser um diferencial. O vento pode ser tão determinante quanto a corrente. Dependendo da intensidade e da direção, ele pode provocar ondas curtas e irregulares. Essas condições dificultam a orientação, interferem na respiração e aumentam o esforço necessário para manter o ritmo.
Quando o vento sopra em direção contrária à corrente, o mar pode ficar ainda mais agitado. Em determinados locais, por exemplo, as primeiras horas da manhã costumam apresentar condições mais tranquilas, enquanto o vento ganha intensidade ao longo do dia.
A fauna marinha também deve ser considerada. Informações sobre a presença de águas-vivas, caravelas e outros animais ajudam o atleta e sua equipe a avaliar os riscos e adotar medidas preventivas adequadas. Eu tenho muito medo de peixe, então, procuro sempre saber sobre o comportamento da vida marinha da região para não ter nenhuma surpresa e preparar a mente para agir caso encontre algum pelo caminho.
Todas essas informações ajudam a planejar melhor sua prova, mas é importante lembrar que as condições podem mudar rapidamente. Mesmo com um planejamento detalhado, a capacidade de adaptação e leitura de prova é essencial para ajustar rapidamente a estratégia e o nado diante de mudanças nas condições ambientais.
Conhecer as águas é tão importante quanto conhecer os próprios limites. O treinamento prepara o corpo para a distância, mas é o planejamento, aliado à experiência e ao respeito às condições da natureza, que ajuda o atleta a enfrentar o desafio com mais segurança e eficiência.
Espero que esse material seja útil e vamos nessa, fechar o ano com chave de ouro!