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Desde que o Bravus Va’a nasceu, em 2020, havia uma ideia que não me deixava em paz. Não era devaneio nem bravata. Era um chamado insistente: sair do Pontal do Recreio e chegar a Angra dos Reis de canoa havaiana. Uma linha no mapa que parece simples, mas esconde uma travessia técnica, longa, exigente e cheia de riscos. Daquelas que não perdoam improviso e escancaram qualquer fraqueza — física, mental ou até de caráter.
Essa travessia ficou guardada por muito tempo. Não por medo, mas por responsabilidade. Faltavam remadores dispostos e, mais importante, com condições reais de completar algo desse tamanho. O mar também não ajudava. Cancelamos diversas vezes por condições ruins, somadas à logística pesada e cara de trazer a canoa de volta ao Rio de Janeiro. Não era só remar. Era planejar, sustentar e assumir as consequências.
Em 2023, esse sonho começou a ganhar forma. Fizemos uma travessia teste entre o Pontal e Mangaratiba: 75 quilômetros em 11 horas. Uma remada dura, daquelas que ensinam. Fomos surpreendidos por um terral violento na Restinga da Marambaia, que quase nos obrigou a abortar e retornar. Ali ficou claro: o projeto era possível, mas não seria gentil. O mar estava avisando.

Depois disso, vieram novas tentativas frustradas. Datas marcadas e desmarcadas. Janelas que fechavam em cima da hora. Previsões que mudavam. Parecia que algo insistia em dizer para não irmos, para não encarar esse desafio. Confesso que, em alguns momentos, me questionei se conseguiríamos completar ou se teríamos que abortar no meio do caminho. Não por fraqueza, mas porque liderança também é saber a hora de parar.
E então, como costuma acontecer, tudo começou a se alinhar de forma quase absurda. Uma previsão limpa para o dia 20/12. Uma equipe 100% Bravus, que treina junta semana após semana, que se conhece no cansaço e no perrengue do mar bravo do Pontal. E uma equipe de terra nos monitorando: saindo do Rio de Janeiro, depois na Ilha Grande e, por fim, na chegada em Angra dos Reis.
O plano era simples e brutal. Saímos às três da manhã do Pontal. Sim, navegamos 15 quilômetros à noite entre o Pontal e a Barra de Guaratiba. Canoa sinalizada, iluminada, respeito total aos protocolos. A ideia era entrar no mangue da Restinga da Marambaia por volta das quatro e meia, já no início do crepúsculo. O dia nasce enquanto estamos em movimento. O mundo acorda e a gente já está no jogo há horas.

Houve ainda um fator decisivo para que essa travessia fosse possível: a preparação da equipe na semana anterior. Reduzimos a carga de treino, priorizamos descanso, hidratação constante e alimentação simples e funcional. Nada de heroísmo de última hora. O corpo chegou inteiro, a mente lúcida, e o rendimento se manteve estável ao longo de todo o percurso. Travessias longas não se vencem no dia — se vencem antes.
Fizemos paradas rápidas para hidratação e quatro paradas secas, de no máximo dez minutos, para alimentação e descanso. Nada além disso. No total, foram cerca de doze horas remando, descontadas todas as paradas. Sem apoio externo. Sem troca de remador. Em um único dia. Do jeito antigo. Do jeito que o mar gosta de testar quem se propõe a esse tipo de desafio.
Isso não foi uma prova. Não foi um evento. Não foi marketing. Foi uma travessia raiz. É sobre preparo, confiança, lealdade e responsabilidade. É sobre honrar a cultura do Va’a, respeitar o mar e entender que coragem não se mede em discurso, mas em preparo quando tudo silencia e vira dor.
Cento e dois quilômetros não perdoam ninguém.
Mas recompensam quem chega com humildade, disciplina e lealdade.
Isso é ser Bravus Va’a.
Link Mapa c/ Horários e locais c/ sinais de celular. Os pontos azuis, são paradas molhadas em alto mar, os amarelos em praias, o vermelho em uma Ilha: AQUI.