
“Bom dia, inverno”: o que Tamara Klink aprendeu sobre o mar, homens e o planeta
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O oceano Pacífico nunca foi uma barreira para os povos polinésios, mas sim uma vasta rodovia ancestral que conecta ilhas, histórias e gerações. É exatamente essa profunda ligação com o mar que o documentário “Family of the Wa’a” (A Família da Canoa) captura com maestria. A obra transporta o espectador para as águas do Havaí, acompanhando uma expedição à bordo de uma canoa OC6, ao longo das ilhas que compõe o arquipélado, que vai muito além do desafio físico: trata-se de um resgate espiritual e cultural, onde cada remada é um passo em direção ao passado e uma lição de sobrevivência para o futuro.
A espinha dorsal do documentário é a filosofia havaiana resumida no provérbio “He wa‘a he moku, he moku he wa‘a“, que significa “a canoa é uma ilha, e a ilha é uma canoa“. A produção ilustra como a dinâmica dentro de uma canoa havaiana reflete a necessidade de sustentabilidade e trabalho em equipe.
Durante a travessia de centenas de milhas que percorre todo o arquipélago havaiano, os membros da Hawaiian Outrigger Canoe Voyage Society (HOCVS) precisaram remar em turnos ininterruptos de uma hora. O filme utiliza imagens a bordo, depoimentos e registros da navegação para mostrar que, assim como em uma ilha, os recursos na canoa são limitados e a sobrevivência depende do cuidado mútuo e do respeito às regras coletivas.

A narrativa é ancorada pela presença carismática e inspiradora de Kimokeo Kapahulehua, mestre havaiano que ficou conhecido no Brasil durante sua passagem pelo Aloha Spirit Saquarema em 2025. O documentário revela sua missão pessoal, nascida após assumir um propósito sagrado (kuleana) diante de seu tio, Kawika Kapahulehua, que em 1976 fez história ao capitanear a lendária canoa de casco duplo Hokule’a em uma viagem do Havaí ao Taiti. Para cumprir a promessa de reconectar todo o arquipélago ancestral, Kimokeo passou por uma profunda transformação pessoal, deixando para trás um passado turbulento na juventude para se tornar um verdadeiro líder e mestre cultural. Antes de cada etapa da viagem, ele conduz danças e cânticos que não apenas unem a equipe diversificada, mas também educam os remadores sobre suas raízes. No filme, sua missão é clara: “Nós devemos e nós podemos ensinar a todos sobre o espírito aloha”.
Além de seu valor antropológico, “Family of the Wa’a” entrega um poderoso impacto social ao redefinir o conceito de Ohana (família). O momento mais emocionante da obra, amplamente destacado em análises e exibições do filme, é a dedicação da jornada a Kendall Struxness.
Struxness era um dos remadores da equipe que lutava contra um câncer de cólon em estágio quatro. Recusando-se a ficar em casa, ele suportou dores físicas severas e exaustão extrema para chegar ao fim da expedição. Em um de seus depoimentos no filme, ele revela que encontrou forças simplesmente porque a equipe o queria lá. Ele faleceu pouco tempo após a conclusão da viagem, transformando o documentário em um testamento sobre como o esporte e o pertencimento a uma comunidade podem oferecer suporte incondicional até o último momento.
“Family of the Wa’a” transcende o formato tradicional de documentários esportivos ou de aventura. Ao documentar a travessia épica que culminou na remada de 400 milhas até o Atol de Kure, a obra se consolida como um registro vital da resistência da cultura polinésia. O filme prova que a canoa havaiana, mais do que uma embarcação, é um veículo de transformação humana, capaz de ensinar sobre respeito, luto, união e a importância de manter vivas as vozes de nossos ancestrais.