
7ª edição da VIBE acontece nesse sábado
7ª edição da VIBE – Volta de Ilhabela acontece nesse sábado, 02 de dezembro, com 36 equipes inscritas e ... leia mais

A canoa havaiana cresceu. E cresceu bonito. Hoje tem mais gente remando, mais gente competindo e, principalmente, mais gente querendo aprender a lemear. Em tese, isso é lindo. Na prática… é preciso ter cautela. Existe uma diferença brutal entre saber mexer no leme e ser capitão de uma canoa. E essa diferença começa na responsabilidade.
Quem está no leme de uma OC6 não está só conduzindo uma embarcação. Está levando mais cinco pessoas para o mar. Cinco vidas. Cinco famílias que confiam, mesmo sem saber, que quem está ali na popa sabe exatamente o que está fazendo.
E, então, temos uma situação delicada, pois, na falta de maior controle, caminhamos para a banalização disso. São cada vez mais comuns relatos de gente aprendendo a lemear e, pouco tempo depois, já se colocando na posição de capitão, abrindo clube. Sem casca, sem vivência, sem ter passado perrengue suficiente pra entender o tamanho do buraco. Porque o mar, quando está bonito, engana. Ele dá a falsa sensação de controle. De domínio. De “tá tranquilo”.
Até o dia que não está. E o mar não manda aviso prévio. Basta um vento atravessado, uma série mais pesada, uma corrente diferente… e pronto. Ali se separa quem “sabe lemear” de quem é, de fato, capitão.
Ser capitão exige muito mais do que técnica. Exige humildade — principalmente pra reconhecer o que não sabe. Exige liderança — porque em situação de pressão não dá tempo de hesitar. Exige conhecimento de regras náuticas — porque o mar não é só nosso. Exige leitura da previsão do tempo — não do que está agora, mas do que vai acontecer. E, acima de tudo, exige responsabilidade de não colocar os outros em risco por ego, vaidade ou teimosia. E aí entra o ponto mais incômodo.
No último final de semana, na tradicional competição da Volta à Ilha de Santo Amaro, vimos uma cena que merece reflexão: canoas cruzando a frente de um navio em movimento, ignorando regras básicas de navegação, em busca de posição na prova. Não foi erro técnico. Foi uma escolha. Uma escolha de priorizar a competição acima da segurança.
E esse é o tipo de decisão que, mais cedo ou mais tarde, cobra a conta. E no mar, a conta costuma ser alta.
Também é importante reconhecer o nível de complexidade envolvido na realização de uma prova de 75 km como essa, uma das mais tradicionais do Brasil e que ocorre há 22 anos sem maiores problemas. Trata-se de uma região com intensa movimentação portuária, com navios entrando e saindo constantemente, o que por si só já exige um nível elevado de planejamento, coordenação e responsabilidade por parte da organização.
Ainda assim, situações como essa mostram como o esporte vem pedindo uma evolução natural das regras e dos critérios adotados em competição.
Talvez tenha sido uma oportunidade de reforçar um posicionamento mais claro. Não como crítica, mas como aprendizado. Porque, no fim das contas, o objetivo maior precisa ser sempre o mesmo: garantir que todos retornem em segurança.
Nesse sentido, vale destacar que, em conversa com o organizador Fabio Paiva, ficou claro que já há um movimento nessa direção. A proposta é promover ajustes no manual do competidor para o próximo ano, deixando mais explícita a obrigatoriedade do cumprimento das regras náuticas básicas, além da definição de punições adequadas. A intenção é evitar interpretações ambíguas e impedir que esse tipo de conduta possa, de alguma forma, se transformar em vantagem competitiva.
Porque, quando não há esse alinhamento, abre-se espaço para uma distorção perigosa: a de que assumir mais risco pode gerar benefício. E, nesse cenário, quem age com responsabilidade pode acabar sendo prejudicado.
Quando esse tipo de situação passa sem o devido ajuste, a mensagem que fica é perigosa: “pode”. E não pode.
O mundo Va’a precisa crescer, sim. Mas precisa crescer com responsabilidade. Não adianta formar leme em quantidade e esquecer de formar capitão em qualidade. Afinal, no fim do dia, remar bem é importante. Ganhar prova é legal. Mas nada disso importa se você não entende o básico: o mar não perdoa amadorismo travestido de confiança. E capitão de verdade sabe disso.