Segurança na Va’a e o papel das entidades

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segurança na va'a
Entre protocolos publicados e práticas toleradas, qual deve ser o papel das entidades da Va’a no Brasil? Foto: Jess Loiterton / Pexels

Quem se propõe a representar um esporte precisa assumir a responsabilidade de enfrentar seus problemas. Na Va’a, isso significa colocar a segurança no centro da atuação institucional, com regras claras, acompanhamento e consequências para quem descumpre as exigências.

Associações, Federações e Confederação Brasileira de Va’a (CBVA) precisam ser cobradas por esse compromisso. Organizar calendários, promover competições e incentivar o crescimento da modalidade são tarefas importantes. Mas representar o esporte também exige estabelecer limites, enfrentar resistências e tomar decisões impopulares quando a segurança dos praticantes está em jogo.

Há tempos discutimos protocolos, equipamentos de segurança e preparação para emergências. Precisamos colocar as entidades no centro desse debate e cobrar o exercício de suas atribuições. Na minha percepção, ainda falta uma atuação suficientemente clara, firme e visível. A comunidade precisa de respostas e de medidas que possa acompanhar.

Um protocolo publicado não demonstra, por si só, que existe uma política de segurança funcionando. É necessário definir responsáveis, orientar os clubes, apurar irregularidades e acompanhar as correções. Sem isso, acumulamos documentos enquanto práticas inseguras podem continuar sendo toleradas.

A partir do que observo no Rio de Janeiro e em Niterói, preocupa-me a distância entre o discurso e algumas condutas na modalidade. O uso do colete salva-vidas não deveria ser tratado como conveniência. Defendo que seja uma exigência clara nos protocolos dessas entidades, com orientação, cobrança efetiva e sanções previstas para o descumprimento. Uma regra ignorada sem consequências perde credibilidade e normaliza a infração.

A prevenção é uma responsabilidade permanente. Não pode depender da repercussão de uma tragédia. Essa cobrança deve coexistir com o respeito à memória da remadora que perdemos e à dor de sua família e de seus amigos. Não cabe especular sobre as circunstâncias nem atribuir responsabilidades sem apuração. A discussão aqui é sobre o compromisso contínuo das instituições com a prevenção.

Será que já não passou da hora de associações, federações e CBVA adotarem uma postura mais enérgica? Imagine uma Federação ou CBVA prevendo a suspensão por um ano do direito de participar de suas competições para um remador, uma equipe ou um clube que cometa uma infração grave de segurança ou reincida no descumprimento das exigências.

A possibilidade de perder uma temporada competitiva mudaria a atenção dedicada ao assunto? Faria gestores e atletas levarem mais a sério regras que hoje podem ser relativizadas?

Essa proposta exige previsão regulamentar, critérios objetivos, apuração, direito de defesa e possibilidade de recurso. A sanção deve ser proporcional e aplicada por uma entidade competente. No caso de equipes ou clubes, é necessário demonstrar sua responsabilidade, sem presumir culpa coletiva pelo ato isolado de um integrante. Advertências, adequações, formação obrigatória e suspensões podem compor um sistema que considere a gravidade da infração, o risco criado e a reincidência.

O que precisa acabar é a possibilidade de uma exigência ser obrigatória no discurso e facultativa na prática.

As associações também precisam atuar junto ao poder público. Pela proximidade com os clubes, devem assumir o compromisso de receber relatos, documentar possíveis irregularidades e encaminhar denúncias fundamentadas aos órgãos competentes. Diante de indícios consistentes de descumprimento das exigências, esperamos que solicitem fiscalização e acompanhem as providências.

Nos casos graves ou reiterados, a cobrança deve alcançar a interrupção das atividades inseguras e, quando houver fundamento legal, medidas sobre licenças e alvarás, inclusive suspensão ou cassação. A decisão cabe ao poder público competente: uma associação não pode retirar um alvará por conta própria, e a violação de um protocolo esportivo não gera automaticamente essa consequência. Pode, porém, provocar as autoridades e cobrar uma resposta fundamentada.

A possibilidade de um clube perder o direito de funcionar precisa entrar nessa discussão com seriedade, critérios e respaldo legal. O direito de defesa deve ser respeitado, e situações de risco precisam receber uma resposta compatível com sua gravidade. As entidades também devem propor que requisitos de segurança da modalidade sejam considerados nas regras de licenciamento e nas autorizações aplicáveis.

Representar os clubes exige cobrar sua adequação e comunicar situações que demandem intervenção. Relações pessoais, interesses comerciais e receio de perder filiados não podem determinar o tratamento dado a tantas irregularidades.

As entidades têm atribuições e alcances distintos. Precisam esclarecer quem estabelece critérios, orienta, recebe denúncias, apura e aplica medidas. A comunidade tem o direito de conhecer as exigências, os canais para relatar riscos e as providências previstas diante das infrações. Onde houver lacunas, cabe propor soluções e buscar sua implementação.

Essa responsabilidade institucional não elimina a dos gestores, professores, treinadores e remadores. Nos clubes, as decisões são diárias: avaliar a navegação, adequar o percurso ao perfil do grupo, exigir equipamentos de segurança, preparar a equipe para emergências e cancelar uma remada quando necessário. Quem faz cumprir as regras precisa de respaldo institucional, inclusive diante de pressões comerciais. Quem as descumpre precisa saber que haverá apuração e possíveis consequências.

A Va’a cresce, e esse crescimento amplia a responsabilidade de quem a administra e representa. Representar a Va’a exige coragem para cobrar, corrigir e, quando necessário, sancionar ou acionar as autoridades. Esperamos das associações, das Federações e da CBVA regras claras e ações concretas, com responsabilidade e resultados que a comunidade possa acompanhar.

A segurança precisa ter mais peso do que a conveniência de evitar conflitos. As entidades que representam o esporte precisam demonstrar, em suas ações, que estão dispostas a assumir essa responsabilidade.

*As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Aloha Spirit Midia.

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