Va’a: competir em tudo para não competir bem em nada

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competir em tudo canoa havaiana
“Criou-se uma cultura em que competir em tudo virou motivo de orgulho, quando talvez devesse ser motivo de reflexão.” Foto: Imagem gerada com IA

A canoa havaiana é um dos esportes mais democráticos que conheci. E, talvez justamente por isso, também seja um dos mais contraditórios.

Grande parte dos remadores descobre o Va’a depois dos 40 anos. São pessoas que muitas vezes nunca tiveram uma rotina esportiva consistente e que, já na maturidade, encontram algo que parecia improvável: o desejo de competir, evoluir e viver como atletas. É uma transformação admirável. Mudam os hábitos, melhora a saúde, surgem amizades e nasce um senso de pertencimento que poucos esportes conseguem oferecer. O problema começa quando a inspiração dá lugar à pressa.

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Existe uma diferença enorme entre participar de uma competição e buscar alta performance. A primeira exige coragem; a segunda exige anos de construção. Hoje, porém, é cada vez mais comum encontrar remadores tentando acelerar um processo que não aceita atalhos. Contratam treinador particular, fazem academia diariamente, investem em nutricionista, fisioterapeuta, equipamentos, viajam para todas as provas e, por alguns meses, parece que encontraram a fórmula do sucesso. Mas o corpo não entende urgência. Dinheiro compra estrutura, nunca maturidade esportiva.

Técnica, leitura de mar, resistência, sincronismo e inteligência competitiva são qualidades construídas lentamente. Quando a ansiedade assume o comando, a consistência desaparece. A recuperação deixa de ser prioridade, pequenas dores passam a ser ignoradas e cada prova vira uma necessidade de provar valor — para os outros e, muitas vezes, para si mesmo.

“Grande parte dos remadores descobre o Va’a depois dos 40 anos. São pessoas que muitas vezes nunca tiveram uma rotina esportiva consistente e que, já na maturidade, encontram algo que parecia improvável: o desejo de competir, evoluir e viver como atletas”.

O resultado costuma ser previsível: lesões, exaustão, conflitos dentro da equipe e, não raramente, o abandono do esporte. O foguete sobe rápido, mas também pode cair na mesma velocidade.

Essa mesma lógica aparece nas competições. Parece que disputar uma única categoria deixou de ser suficiente. Muitos remadores fazem questão de largar em diversas categorias da OC6 e ainda encaixar uma categoria individual e V3, como se o número de largadas fosse um certificado de excelência. Criou-se uma cultura em que competir em tudo virou motivo de orgulho, quando talvez devesse ser motivo de reflexão.

Cada prova cobra um preço. Não apenas muscular, mas também técnico e mental. A explosão da largada, a concentração, a recuperação e a capacidade de manter o sincronismo se deterioram à medida que o corpo acumula desgaste. E, no Va’a, esse desgaste nunca é individual: um remador cansado afeta diretamente o desempenho de toda a canoa.

O mais curioso é que muitos atletas jamais treinam nas mesmas condições que encontrarão no campeonato. Não simulam quatro provas no mesmo dia, não reproduzem os intervalos curtos entre baterias e não preparam o organismo para esse volume competitivo. Ainda assim, aceitam todas as categorias por empolgação, por dificuldade de dizer não ou simplesmente pela sensação de que precisam estar em tudo.

No fim do dia, acontece o pior cenário possível: distribuem energia entre várias largadas e não conseguem entregar o melhor desempenho em nenhuma delas. A frustração aparece, seguida daquela pergunta injusta: “Será que eu não tenho capacidade?” Na maioria das vezes, não é falta de capacidade. É falta de foco.

Alta performance também significa escolher. Escolher qual categoria realmente importa, qual objetivo merece prioridade e, principalmente, quais renúncias fazem sentido. Porque elas existem. O esporte ocupa finais de semana, exige investimento financeiro, cobra tempo da família e impõe um diálogo constante com um corpo que já carrega décadas de história. Depois dos 40, recuperar-se bem vale tanto quanto treinar forte.

Nenhuma medalha justifica sacrificar a saúde, a estabilidade financeira ou os relacionamentos. E nenhum atleta se torna maior apenas porque participou de quatro provas em vez de uma.

O verdadeiro atleta não é aquele que vive ocupado tentando mostrar que consegue fazer tudo. É aquele que entende que longevidade também é performance. Que respeita o processo, aceita evoluir no tempo certo e continua remando muitos anos depois que a empolgação inicial passou.

O Va’a transforma vidas. Mas essa transformação só permanece quando deixamos de romantizar o excesso. Competir em tudo não é competir melhor. Muitas vezes, é apenas a maneira mais rápida de não competir bem em nada.

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