
Alto astral na 5ª Volta à Ilha Grande de Va’a
Volta Ilha Grande de Va'a realiza sua quinta edição da já tradicional expedição de canoa polinésia por um ... leia mais

Quando comecei a remar canoa polinésia — e isso não faz nem dez anos — a expressão “ser leme” nem era tão banalizada. Quem comandava a canoa normalmente era chamado de capitão. Eram os remadores mais experientes, muitas vezes donos de clube: gente que conhecia aquele mar, aquela praia, as limitações da embarcação e, principalmente, o peso de colocar outras cinco pessoas dentro de uma canoa.
Hoje, a impressão que tenho é que basta conseguir manter a canoa minimamente em linha reta para alguém bater no peito e anunciar: “Sou leme.”
A expressão não está errada. O problema é reduzir uma função complexa a uma habilidade básica. É como achar que, porque conseguiu tirar o carro da garagem sem derrubar o portão, já está pronto para dirigir um ônibus escolar na Serra das Araras sob chuva forte.
O crescimento do Va’a trouxe muita coisa boa: mais gente praticando esporte, mais clubes, mais eventos, mais competição e mais visibilidade. Mas trouxe também uma espécie de uberização do banco 6. Existe uma demanda crescente por alguém que “toque a canoa”, então forma-se rapidamente uma geração de lemes que, muitas vezes, ainda nem sabe remar, não faz uma boia razoável e nem consegue seguir outra canoa em linha reta. Pronto: recebe a chave imaginária da embarcação e a autorização moral para levar sozinho vidas ao mar.
Vejo lemes inexperientes assumindo canoas em travessias, competições, provas de longa distância e mares que claramente ainda não têm capacidade de interpretar. Pergunte a alguns deles onde ficam os pontos cardeais, qual o sentido da corrente, se a maré está enchendo ou vazando, como o vento atuará naquela rota, como ler corretamente um aplicativo de previsão ou diferenciar uma brisa moderada de uma condição capaz de virar problema. Em muitos casos, a resposta será um silêncio constrangedor — seguido de alguma frase inspiradora sobre “sentir o mar”. Sentir o mar é ótimo. Mas, até onde se sabe, 99,9% dos remadores não são caiçaras.
Não faltam imprudências, sustos, acidentes e quase-acidentes para mostrar que a formação de um leme deveria ser tratada com muito mais seriedade. Ainda assim, seguimos banalizando. Todo mundo fala em segurança; alguns dão clínicas de leme; outros falam sobre o tema nas redes sociais. Mas, na prática, muitas vezes parece murro em ponta de faca. Sempre haverá alguém disposto a acreditar que prudência é medo, protocolo é burocracia e experiência é apenas um obstáculo entre ele e a próxima foto heroica no Instagram.
E aqui começa um nó na cabeça de muita gente: leme não precisa ser, obrigatoriamente, o capitão da canoa. Pode ser. Mas ocupar o banco 6 ou saber manejar um remo de leme não basta. Antes de qualquer título, essa pessoa precisa ser capaz de liderar, decidir e, principalmente, contrariar expectativas quando necessário.
Um bom capitão precisa ter humildade para respeitar o mar. Precisa ter coragem para olhar para amigos, alunos ou equipe e dizer: “Hoje não vamos.” Ou: “Hoje vamos, mas por outra rota.” Ou ainda: “Você ainda não está pronto para essa condição de mar.”
Cancelar não é fracasso. Fracasso é insistir para provar alguma coisa, colocar seis pessoas em risco e depois tentar transformar imprudência em narrativa de superação.
Também é preciso saber liderar e, quando necessário, ser liderado. Respeitar os protocolos do clube, ouvir quem tem mais experiência, seguir a rota definida em terra e entender que uma aula coletiva não é palco para testar vaidade, coragem ou necessidade de reconhecimento. Não é porque você está no banco 6 que virou dono do oceano, comandante da frota ou a reencarnação de um navegador polinésio.
E, sim: conhecer as regras náuticas, vento, corrente, maré, previsão e navegação importa muito. Mas isso também não basta. Há gente tecnicamente competente que toma decisões ruins porque quer provar que consegue. Há quem saiba ler o Windy, mas não saiba ler a própria vaidade.
O leme precisa olhar além da própria canoa, além da sua equipe e além da vontade de cumprir a rota planejada. Existem outras canoas na água, surfistas, nadadores, banhistas, alunos iniciantes e remadores que podem não ter a mesma leitura de risco. Uma decisão errada não termina apenas em uma história ruim. Pode gerar acidente, trauma, prejuízo, afastamento do esporte e cicatrizes que ninguém gostaria de carregar.
Infelizmente, ainda vemos poucos lemes com esse conjunto completo de características. O que aparece com frequência é uma necessidade permanente de autovalidação: gente tratando o banco 6 como um trono, disputando quem encarou o mar mais difícil, quem remou mais provas, quem fez a maior distância ou quem passou pela condição mais insensata sem afundar. Mas sobreviver a uma decisão ruim não a transforma em uma decisão boa.
O banco 6 não é troféu. Não é atalho para status. Não é licença para improvisar. É muita responsabilidade.
Ser capitão não é ser o mais corajoso, o mais técnico, o mais medalhado ou o dono da melhor história de mar. Ser capitão é entender que, naquele momento, sua vaidade precisa ficar em terra. Porque, no mar, diferente da conversa de pós-remada, erro não se apaga, não se edita e não se resolve com uma boa justificativa.