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Aos 29 anos de idade, a navegadora brasileira Tamara Klink tem a experiência de uma veterana dos mares e é autora de seis livros. O mais recente, “Bom dia, inverno”, é um diário de bordo com 255 páginas, ilustrado pela própria autora. No livro ela conta sua experiência de oito meses vivendo isolada em seu veleiro Sardinha, ancorado no gelo de um fiorde na Groenlândia em 2023, quando se tornou a primeira mulher a passar um inverno inteiro sozinha no Círculo Polar Ártico. Ela estava com 26 anos.
Antes desse feito histórico, em 2020, Tamara fez sua primeira travessia em solitário, cruzando o Mar do Norte entre Alesund, na Noruega, e Dunquerque, na França. No período de agosto a novembro de 2021, ela fez mais uma viagem solitária, a travessia do Oceano Atlântico, velejando da França ao Brasil. E, em 2025, realizou mais uma grande viagem sozinha, navegando por 60 dias desde a Groenlândia até o Alasca, cruzando a perigosa Passagem Noroeste, que é um canal com icebergs e centenas de ilhas, feito que fez de Tamara a primeira pessoa da América Latina e a mais jovem e segunda mulher do mundo a concluir a Passagem em solitário.
Navegadora profissional, arquiteta por formação e escritora por vocação, Tamara é filha de um casal inspirador, a fotógrafa Marina Bandeira Klink e o lendário navegador Amyr Klink. Desde muito pequena, Tamara teve contato com o mar e em 2010 publicou junto com suas irmãs Laura e Marina Helena, seu primeiro livro- Férias na Antártica, resultado de uma série de viagens realizadas em família ao Círculo Polar Antártico. O livro foi adotado no currículo de diversas escolas brasileiras.
Apesar dessa ampla experiência acumulada desde criança, Tamara enfrentou sérios desafios e a incredulidade de patrocinadores para colocar em prática o projeto da invernada na Groenlândia. Na França, um diretor de vendas de uma marca de roupas para frio extremo, quando procurado por Tamara, não teve escrúpulo algum para fazer o seguinte comentário: “Posso te fornecer as roupas da viagem, mas sou muito melhor em despir mulheres do que em vesti-las”. Na Dinamarca, um mecânico de embarcações declarou: “Prefiro falar direto com o dono do barco”.
Para Tamara, ficou claro que o maior desafio não era enfrentar o mar, o gelo, e os animais do círculo popular, e sim o comportamento machista dos homens com quem precisava lidar para colocar seu projeto em prática. Foram inúmeras as advertências de que poderia ser estuprada caso fosse encontrada por algum homem enquanto seu barco estivesse retido no gelo, confirmando sua suposição de que o predador mais perigoso dessa jornada seria o macho da sua mesma espécie.
Ao longo dos oito meses de sua invernada voluntária, Tamara percebeu as severas alterações climáticas que atingem todo o planeta e não poupam os pólos, levando lixo plástico onde antes só havia gelo. Em um dos capítulos do livro ela reflete: “Chamaram de civilizados os que deixam ruínas e de primitivos aqueles cujo rastro é um solo mais fértil e a biodiversidade multiplicada. E por razões parecidas, conhecidas e evitáveis, o branco e o verde desaparecem cada vez mais rápido”.
Bom dia, inverno, de Tamara Klink, é editado pela Companhia das Letras.