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As viagens do capitão inglês James Cook são amplamente celebradas por seu papel no mapeamento da Austrália e de inúmeras ilhas do Pacífico. Pouco se menciona, no entanto, que o navegador taitiano Tupaia foi essencial para o êxito dessas navegações, uma participação que a história oficial costuma ignorar.
No final de 1768, o HMB Endeavour partiu da Inglaterra e contornou o Cabo Horn, no extremo sul da América do Sul, com o objetivo de explorar o Oceano Pacífico. Essa foi a primeira viagem do capitão James Cook na região. A justificativa pública da expedição era observar o Trânsito de Vênus pelo Sol, previsto para junho daquele ano. O propósito real, no entanto, era mapear a região para atender aos interesses expansionistas do Império Britânico.
O HMB Endeavour chegou à Baía de Matavai, no Taiti, em 13 de abril de 1769. Como a observação do Trânsito de Vênus só ocorreria em junho, a tripulação permaneceu na ilha por cerca de três meses. Durante esse período, os britânicos estabeleceram intensas relações comerciais com os taitianos, trocando machados de ferro, tecidos e pregos por porcos, cocos, frutas-pão e bananas. O ferro, em especial, tinha um valor imenso para os nativos, que não conheciam a metalurgia.
Um dos momentos mais marcantes da estadia foi a aproximação com Tupaia, um mestre navegador, tradutor e sumo sacerdote polinésio que rapidamente compreendeu os objetivos dos europeus e se interessou pela expedição. O botânico Joseph Banks, um dos oficiais da missão, fascinado pela cultura local e pela erudição de Tupaia, convenceu o capitão Cook a convidá-lo para se juntar à tripulação durante a viagem pelo Pacífico.
Tupaia, por sua vez, tinha seus próprios interesses: seu povo havia perdido terras em uma guerra recente para os vizinhos de Bora Bora, e ele esperava obter ajuda dos britânicos para recuperar sua ilha natal, Raiatea. Em troca, ele ofereceu seu vasto conhecimento geográfico e influência na região. Assim, em agosto de 1769, o navio HMB Endeavour partiu do Taiti levando dois passageiros especiais: Tupaia e seu jovem aprendiz, Taiata.

Tupaia era um mestre nas tradicionais técnicas de navegação polinésia, um conhecimento que impressionou profundamente o capitão britânico. Logo após a partida, James Cook confiou a Tupaia a tarefa de guiar o navio pelas Ilhas da Sociedade. Diferente dos europeus, que dependiam de instrumentos cartográficos, a navegação de Tupaia era baseada na leitura atenta do meio ambiente. Ele guiava a embarcação orientando-se pelos “caminhos das estrelas”, além de observar minuciosamente as correntes marítimas, o comportamento dos ventos, a profundidade das águas e até mesmo as rotas de voo dos pássaros. Esse entendimento do oceano permitiu que ele mapeasse recifes e rotas seguras, unindo a sabedoria milenar de seu povo às necessidades da expedição britânica.
Contudo, além de suas habilidades de navegação, Tupaia era um mestre da diplomacia. Quando a expedição chegou à Nova Zelândia, sua presença evitou um desastre. Os britânicos não compreendiam os protocolos locais e os primeiros contatos com os Maori resultaram em confrontos violentos. No entanto, o mestre navegador taitiano conseguiu intervir e sua atuação foi vital para que a expedição não acabasse em uma tragédia. Valendo-se do parentesco entre os idiomas polinésios orientais, ele conseguiu dialogar fluentemente com os Maori, superando a barreira linguística que antes gerava conflitos. Com essa vantagem, Tupaia assumiu o papel de diplomata, apresentando os ingleses aos chefes locais e conduzindo cerimônias de paz. Essa habilidade de negociação foi crucial para a sobrevivência da tripulação, pois permitiu que ele garantisse suprimentos essenciais, como água e comida, além de assegurar um porto seguro para o navio.

Segundo relata uma reportagem da ABC Austrália, sua influência na expedição se tornou tão grande que a notícia de sua chegada se espalhou rapidamente pela costa, e muitos nativos acreditavam que o Endeavour era, na verdade, o navio de Tupaia.
O cenário mudou drasticamente quando a expedição chegou à Austrália. Tupaia tentou, mas não conseguiu se comunicar com os povos indígenas australianos, pois as culturas e os idiomas eram completamente diferentes.
Sem poder atuar como tradutor e mediador, seu status a bordo foi marginalizado. Para piorar, durante a viagem pela costa australiana, ele contraiu escorbuto. Mais tarde, quando o navio atracou em Batávia (atual Jacarta) para reparos, a tripulação enfrentou um ambiente totalmente insalubre, com esgoto a céu aberto e muitas doenças. Tupaia e seu aprendiz adoeceram gravemente e faleceram em novembro de 1770.
Enquanto Cook e Banks retornaram à Europa como heróis, o nome de Tupaia ficou esquecido nos diários de bordo por cerca de 250 anos. A história tradicional creditou o mapeamento do Pacífico exclusivamente aos europeus.
Contudo, atualmente, com o avanço da pesquisa histórica e a descoberta de novas evidências, incluindo a comprovação das extraordinárias habilidades de navegação das populações do oceano pacífico, especialistas apontam que Cook dificilmente teria chegado à Austrália sem a ajuda do navegador polinésio. O sucesso da expedição foi, na verdade, o resultado da união das tecnologias marítimas europeias com o conhecimento milenar de Tupaia.