
Outubro Rosa: Remadoras comemoram a vida remando
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Quem é remador raiz, gosta de desafiar os próprios limites e tenta fazer algo além do roteiro padrão já foi julgado pelo Tribunal Penal da Va’a. Eu sou cliente de carteirinha dessa instituição. Quando resolvi abrir um clube de canoa polinésia no Pontal do Recreio, ouvi de tudo. Disseram que era impossível, que ninguém iria remar ali, que o mar era perigoso demais, que eu estava montando um negócio condenado ao fracasso. Seis anos depois, a Bravus continua firme, com cerca de 150 remadores e, graças a Deus, apenas alguns poucos hulis, pequenos e totalmente controláveis. Curiosamente, nenhum dos juízes apareceu para revisar a sentença.
Também já fui julgado pelas travessias que realizei. Antes mesmo da Va’a entrar na minha vida, em 2015, resolvi remar de caiaque oceânico do Rio de Janeiro até São Vicente. A resposta da Marinha foi simples: “é por sua conta e risco”. Os amigos da época foram ainda mais diretos: “você é louco”. Anos depois começamos a percorrer rotas semelhantes de OC6 sem barco de apoio e recebemos exatamente as mesmas críticas. É engraçado como esse tribunal nunca muda suas teses. Mudam os réus, mas a acusação continua sempre a mesma.
Na minha visão existe uma diferença enorme entre desafiar limites e ser imprudente. Aliás, acredito que uma das maiores confusões da Va’a moderna seja justamente a incapacidade de separar uma coisa da outra. Hoje parece que qualquer atividade que ultrapasse a zona de conforto de alguém vira automaticamente irresponsabilidade. Se o mar está grande, é loucura. Se tem downwind, é loucura. Se a remada tem 50 quilômetros, é loucura. Se tem 100 quilômetros, então é praticamente crime hediondo. Seguindo essa lógica, os polinésios teriam descoberto meia dúzia de ilhas e parado por ali para não desagradar os especialistas e VAR das redes sociais.
O problema é que o Tribunal da Va’a não consegue enxergar contexto. Não vejo problema algum em um remador experiente, com equipamento adequado, usando colete, conhecendo meteorologia, navegação e os próprios limites, decidir encarar um mar pesado. Também não vejo problema algum em uma equipe experiente realizar uma travessia de 100 quilômetros sem barco de apoio. Essas pessoas sabem exatamente quais riscos estão assumindo. Elas entendem as consequências, se prepararam para aquilo e tomaram uma decisão consciente. Isso se chama responsabilidade individual.
A imprudência, na minha opinião, mora em outro lugar. Ela aparece quando alguém coloca terceiros em situações que eles não têm capacidade de avaliar ou suportar. É colocar um remador que não sabe nadar em uma travessia oceânica. É levar iniciantes para condições que você próprio não domina. É insistir numa aula porque o aluno pagou, mesmo sabendo que o mar está acima da capacidade dele. É navegar com uma canoa velha, cheia de remendos, rezando para que ela continue inteira até o final da remada. Isso não é aventura. Isso não é coragem. Isso é irresponsabilidade.
O curioso é que muitas vezes o tribunal ignora completamente essas situações e prefere atacar quem se preparou durante anos para realizar um desafio. O sujeito que estudou navegação, treinou, investiu em segurança e decidiu cruzar um trecho de oceano vira o inconsequente. Já quem coloca alunos iniciantes despreparados em risco frequentemente recebe ajuda de todos para abafar a situação ridícula. É uma lógica curiosa, mas esse tribunal raramente trabalha com lógica.
No final das contas, a linha que separa desafio de imprudência é muito mais simples do que parece. Se você está assumindo conscientemente os riscos da sua própria decisão, estamos falando de aventura. Se você está transferindo esses riscos para pessoas que não têm conhecimento, preparo ou escolha real, estamos falando de imprudência. O problema é que essa conclusão costuma ser simples demais para um tribunal que prefere condenar primeiro e pensar depois.