O que o caso do Nubank ensina ao va’a

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Caso Nubank
Antes de a canoa tocar o mar, o verdadeiro trabalho acontece na areia. Foto: Arquivo pessoal

Às vezes, uma grande confusão começa em um mero detalhe, como aconteceu recentemente com o Nubank. Segundo matérias publicadas pela imprensa, uma falha interna acabou disparando mensagens sobre liquidação extrajudicial para parte dos clientes, embora não houvesse uma situação real de falência, encerramento ou problema financeiro na instituição. Mesmo assim, a mensagem chegou e, em casos desse tipo, o susto sempre vem antes da explicação.

Ainda que o erro tenha sido resolvido, a empresa tenha se posicionado e a operação seguido normalmente, a onda já havia se formado. Foi exatamente isso que me fez pensar no va’a. Não porque um banco digital e um clube de canoa sejam parecidos — afinal, não são —, mas porque existe uma reflexão importante nessa situação: em ambientes sensíveis, pequenos erros podem gerar ondas muito maiores do que parece no começo.

Uma canoa também tem seus sistemas sensíveis 

No va’a, nem toda onda começa no mar; muitas vezes, ela tem origem em uma comunicação mal feita, em uma previsão meteorológica olhada rápido demais ou em uma amarração que ninguém conferiu. Pode surgir de um equipamento fora do lugar, de uma saída decidida no automático, de um aluno novo colocado na água sem orientação suficiente ou até mesmo de uma mensagem atravessada no grupo do clube.

Isoladas, essas coisas podem parecer pequenas, mas, dentro de um clube, elas mexem com algo muito maior: a confiança, a segurança, o clima, a percepção de cuidado e a responsabilidade coletiva. Tudo isso importa profundamente, pois um clube não é apenas um lugar onde as pessoas remam, mas sim um ambiente vivo. Ali, há pessoas aprendendo, confiando, seguindo orientações e colocando seus corpos, seu tempo e sua segurança nas mãos daquele grupo. Por isso, o detalhe nunca é apenas um detalhe.

O problema não é errar 

É inegável que erros acontecem no esporte, nas empresas, na tecnologia e na vida. O ponto central não é imaginar que tudo será perfeito o tempo inteiro, mas sim entender que ambientes maduros criam camadas de cuidado para que pequenos equívocos sejam percebidos antes de se transformarem em problemas maiores.

No va’a, essas camadas de proteção aparecem em atitudes simples, como um checklist antes da saída, uma conversa clara sobre as condições do mar ou a checagem minuciosa do ama, dos iakos, dos bujões e das amarras. Elas também se refletem em um combinado claro sobre quem está conduzindo a canoa, em uma orientação mais atenciosa para quem está começando e na decisão responsável de não ir para a água quando o dia pede prudência. Nada disso precisa transformar o clube em um ambiente pesado; pelo contrário, o cuidado bem executado traz leveza, pois garante que todos entendam perfeitamente o que está acontecendo.

Cuidado também é cultura 

Muitas vezes, quando falamos em processos, protocolos ou checklists, pode parecer que estamos lidando com burocracia, mas, no fundo, estamos falando de cultura. A cultura é exatamente aquilo que o grupo aceita repetir, o que o líder reforça, o que ninguém deixa passar e o padrão que vai sendo ensinado no dia a dia, mesmo sem a necessidade de grandes discursos. Quando um clube trata a segurança como um mero detalhe, ele transmite uma mensagem; no entanto, quando o cuidado é tratado como parte indissociável da remada, o ensinamento é completamente outro.

Talvez esse seja um dos pontos mais cruciais para o crescimento do va’a, visto que a profissionalização do esporte não passa apenas pela realização de grandes eventos, pela conquista de bons resultados ou pelo aumento do número de praticantes. Ela passa, fundamentalmente, pela criação de ambientes onde os pequenos cuidados estejam integrados à rotina.

Antes da onda ficar grande 

O caso do Nubank ilustra perfeitamente como um acionamento errado em um sistema sensível pode gerar ruído, insegurança e perda de confiança em questão de minutos. Guardadas as devidas proporções, vale a pena levar essa reflexão para o va’a e nos questionarmos: quais pequenos erros estamos deixando passar? Que detalhes do nosso dia a dia podem se transformar em ondas maiores amanhã? E quais processos simples poderiam proteger melhor as pessoas, os clubes e a própria cultura da canoa?

Possivelmente a grande lição de tudo isso seja que não se trata de ter medo de errar, mas sim de construir uma cultura em que o cuidado chegue antes que a onda fique grande. Afinal, no va’a, uma canoa forte não é aquela que nunca enfrenta ventos, erros ou imprevistos, mas sim aquela que aprende a se preparar cada vez melhor antes de sair para o mar.

Referências

  • TecMundo — “Erro de desenvolvedor disparou mensagens de liquidação extrajudicial do Nubank”
  • UOL Economia — “Nubank diz que email para clientes sobre liquidação foi erro operacional”
  • Folha de S.Paulo — “Falha do Nubank ocorreu após funcionário acionar por erro sistema ligado a avisos de liquidação de bancos”

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