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Quem é corredor de rua ou pratica algum esporte ao ar livre, como a canoagem, sabe como é mais difícil treinar durante os meses de inverno no Rio Grande do Sul. Apenas no mês de junho, o estado já enfrentou duas frentes frias polares e a temperatura média caiu 10º C em relação ao ano passado. Em Porto Alegre, capital gaúcha, por exemplo, o dia amanhece com 5º C e a temperatura máxima é de 15º ao meio-dia, hora mais quente do dia.
Os músculos ficam contraídos, o ar entra gelado nos pulmões, o corpo parece não responder aos comandos e demora muito mais para aquecer. E ainda há sérios riscos à saúde. O treinador de triatlo Rodrigo Quevedo, doutor em Ciência do Movimento Humano, com ênfase em Fisiologia do Exercício pela UFRGS- Universidade Federal do Rio Grande do Sul, explica que em baixas temperaturas “há algum risco aumentado em relação a acidentes cardiovasculares, principalmente agudos, como é o caso do infarto, e também do AVC- Acidente Vascular Cerebral, mas, geralmente, em indivíduos com fatores de risco já associados”.
Apesar desse risco aumentado ser mais comum em quem tem alguma comorbidade, o professor, que também tem licenciatura em Ciências Biológicas, salienta que quem pratica esporte com orientação de um profissional sabe que é fundamental fazer um bom aquecimento antes da prática esportiva, seja ela corrida, canoagem, escalada, ciclismo ou qualquer outra atividade. “O aquecimento promove o aumento gradual da temperatura muscular e assim evita contraturas e, até mesmo, eventos mais graves como o estiramento muscular, que pode levar ao rompimento das fibras”.
O treinador explica que as cápsulas articulares, que contém líquido sinovial, quando bem aquecidas e feita uma boa prática de mobilidade, melhoram nossa estrutura física e ajudam na corrida, porque colaboram no recebimento do impacto da pisada no solo, não distribuindo toda carga só nos músculos mas também nos ossos e outros tecidos moles, como tendões e ligamentos, por exemplo:
“Ou seja, o trabalho de mobilidade articular gera mais maleabilidade para que o músculo dê início ao processo de aumento da temperatura corporal, fazendo com que haja um aumento da ventilação e também o aumento da frequência cardíaca para promover a melhor irrigação sanguínea dos tecidos, porque o frio faz o contrário, ele contrai a musculatura e as artérias, o que chamamos de vasoconstrição”.

No frio, com a vasoconstrição, o sangue fica mais próximo dos órgãos nobres, como o coração, para proteger o organismo. A temperatura baixa promove a liberação de adrenalina e noradrenalina, aumentando a resistência vascular periférica e provocando a diminuição da circulação sanguínea, o aumento da pressão arterial e a uma maior demanda por oxigênio. Quevedo adverte que “é importante termos alguns cuidados com a alimentação e a hidratação porque no frio é comum as pessoas sentirem mais fome e menos sede, mas isso não significa que o corpo não precise de água, precisa tanto quanto em ambiente quente”.
Adriana Peppl, graduanda em Educação Física e treinadora de canoa polinésia da base Kalola, em Porto Alegre, destaca que “treinar no Sul Brasil, especialmente em Porto Alegre, traz desafios que atletas do Sudeste e Nordeste raramente enfrentam. Quem gerencia uma base ou treina por aqui sabe que a nossa rotina exige uma dose extra de resiliência. Os principais obstáculos são o clima”.
Diferente do resto do Brasil, onde o clima varia pouco ao longo do ano, o Rio Grande do Sul tem estações muito extremas, o que impacta diretamente a consistência dos treinos. Adriana diz que “remar no inverno gaúcho exige superação. Enfrentar madrugadas ou fins de tarde com temperaturas de um dígito, e sensações térmicas ainda mais baixas devido ao vento, afasta os praticantes recreativos e exige investimentos pesados em vestuário técnico, como roupas de neoprene e corta-vento”. No entanto, afirma a treinadora, “o atleta de alto rendimento treina até na geada”.
Parafraseando o escritor Euclides da Cunha, o gaúcho é antes de tudo um forte!