
Hawaiki Nui Solo 2021 confirmada
Organização da Hawaiki Nui confirmou a realização da versão solo de uma das mais importantes provas de ... leia mais

Confesso que fui um dos defensores da criação dos protocolos de segurança na Va’a após os diversos incidentes ocorridos no Rio de Janeiro. Parecia uma medida óbvia: estabelecer regras mínimas para evitar acidentes e preservar vidas. O problema é que aquilo que deveria ser um instrumento de proteção acabou se transformando em algo muito mais modesto: uma simples recomendação. Daquelas que todo mundo aplaude, mas poucos seguem.
A primeira justificativa é que as associações não possuem poder de fiscalização. A segunda, mais grave na minha opinião, é que ninguém quer apontar o dedo para ninguém. E assim nasceu a grande ilusão da segurança na Va’a: criamos protocolos para fingir que estamos enfrentando um problema que, na prática, continuamos fingindo não existir. Todo mundo sabe quem descumpre as regras, quem sai para o mar sem equipamentos básicos e quem dá maus exemplos. Mas o silêncio parece ser parte do regulamento não escrito do esporte.
Enquanto isso, quem deveria exercer algum protagonismo como a Federação e Confederação, limita-se a organizar campeonatos, distribuir medalhas, buscar patrocínios das prefeituras e garantir transmissões ao vivo. Sobre os incidentes, pouco ou nada se fala. A impressão é que o importante é manter as canoas na água e as fotos nas redes sociais. Segurança parece ter virado um detalhe administrativo, algo menos interessante do que troféus e likes.
O caso do colete salva-vidas é quase cômico, se não fosse tão sério. Ainda hoje existem clubes renomados que toleram remadores saindo para o mar sem o equipamento. A desculpa é sempre a mesma: “não podemos obrigar ninguém”. Talvez não possam obrigar, mas podem impedir que participe das atividades. Podem criar regras internas. Podem proteger a reputação do clube. O que falta não é autoridade. É disposição para assumir desgaste.
Também já ouvi a clássica frase: “somos apenas uma guarderia de canoas”. Curioso. Recebem embarcações, recebem mensalidades e convivem diariamente com os remadores, mas não teriam qualquer responsabilidade sobre a cultura de segurança daquele ambiente. Se existe um protocolo definido pelas associações locais, exigir seu cumprimento deveria ser o mínimo. Quer guardar sua canoa aqui? Siga as regras. Não parece exatamente um desafio filosófico.
Recentemente vimos um vídeo de um remador à deriva em alto-mar, sem colete, exausto e sendo resgatado por pescadores. Nessas horas acontece algo curioso: ninguém sabe de qual clube ele é, ninguém conhece, ninguém viu. Mas a Va’a é pequena demais para esse teatro durar muito. A notícia corre rápido e, quase sempre, descobre-se a mesma coisa: não se trata de um iniciante perdido, mas de alguém experiente, muitas vezes ligado a equipes de competição que deveriam servir de exemplo para quem está começando.
O mais irônico é que o protocolo não fracassou porque era ruim. Fracassou porque ninguém teve coragem de transformá-lo em obrigação. Preferimos a confortável política da recomendação. Afinal, recomendar não gera conflitos, não afasta alunos e não cria inimigos. O problema é que também não salva vidas. E quando acontecer a próxima fatalidade, muitos irão chamá-la de tragédia. Eu prefiro outro nome: negligência de todos nós.