O fiscal da remada alheia 

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Fiscal de remada
Ninguém evolui sob vigilância constante, ninguém acorda 4h30 da manhã para remar errado. Foto: sobreposição de images Rodolfo Gaion / Jonathan Borba

Tem um ponto curioso no mundo da Va’a que anda merecendo uma boa reflexão: em que momento o remador perdeu o direito de errar?

A Va’a é um esporte de repetição quase obsessiva. É técnica, coordenação, concentração e consistência. Um treino comum de 60 minutos pode facilmente passar de duas mil remadas. Duas mil oportunidades de acertar… e, inevitavelmente, algumas de errar também. Só que parece que muita gente esqueceu disso.

Hoje existe uma espécie de “tribunal flutuante” dentro da canoa. Tem fiscal para tudo. Fiscal da entrada do remo, da saída, da postura, do tempo, da puxada, do quadril, da respiração e até do olhar. Às vezes o sujeito está sentado de costas para você, mas somehow consegue analisar até sua alma no meio do mar. É quase uma mistura de treinador, VAR e médium polinésio.

E o mais curioso é que muitos de nós, em algum momento, entramos nesse jogo. Eu mesmo me coloco nesse pacote. Já fui o cara que olhava demais para o erro do outro e de menos para o meu próprio processo. Mas venho tentando mudar essa postura porque comecei a perceber uma coisa simples: ninguém evolui sob vigilância constante, ninguém acorda 4h30 da manhã para remar errado.

Existe uma diferença enorme entre corrigir e caçar erro. Corrigir é construir. Caçar erro é alimentar ego. A correção faz parte do esporte. Sempre fez. Foi assim que a Va’a cresceu tecnicamente no mundo inteiro. Mas quando o ambiente vira uma disputa para ver quem aponta mais defeito, a canoa deixa de ser um espaço de aprendizado e vira um ambiente de tensão.

E aí nasce um problema silencioso: o remador começa a remar travado. Ele para de sentir a canoa. Para de experimentar ajustes. Para de ousar melhorar. Fica apenas tentando “não errar”. E remar preocupado em não errar é o caminho mais rápido para errar ainda mais.

Os antigos entendiam algo que talvez a modernidade da performance tenha esquecido: evolução vem da repetição consciente. E repetição consciente inclui falha. Sempre incluiu. Nenhum grande remador nasceu encaixando técnica perfeita no primeiro mês. Nem no primeiro ano. A diferença é que antigamente existia mais paciência com o processo.

Hoje parece que todo mundo quer parecer especialista antes mesmo de virar aluno. O cara compra um remo de carbono ultra tecnológico, assiste meia dúzia de vídeos, aprende três termos em havaiano e pronto: já se sente apto a julgar a remada dos outros como se fosse o guardião ancestral da técnica polinésia.

Mas o mar recompensa a humildade. Ele devolve a verdade para todo mundo. Não existe currículo que sobreviva a vento contra, mar mexido e quilômetros acumulados. No fim, a água expõe quem ainda está aprendendo — e isso vale para todos nós.

Talvez esteja faltando na Va’a um pouco mais de compreensão sobre o processo humano. Porque errar não é sinal de incompetência. Muitas vezes é justamente sinal de que a pessoa está tentando evoluir. O remador que nunca erra normalmente é o mesmo que nunca muda nada, nunca testa nada e nunca sai da própria zona confortável.

E existe outro detalhe importante: ninguém permanece no esporte por muito tempo em um ambiente onde só recebe julgamento. A Va’a sempre teve algo especial justamente porque a canoa representava união, parceria e construção coletiva. Quando o ego sobe demais dentro da canoa, a essência começa a afundar.

Isso não significa abandonar disciplina ou técnica. Muito pelo contrário. Técnica importa. Correção importa. Busca por excelência importa. Mas tudo isso precisa caminhar junto com respeito ao tempo de evolução de cada um.

Talvez a pergunta seja simples: queremos formar remadores melhores… ou apenas parecer mais inteligentes apontando erros? Porque são coisas completamente diferentes.

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