
Com inscrições gratuitas, Barra de São João recebe 1º Sprint de Canoas Havaianas
Barra de São João (RJ), será o palco do aguardado 1º Sprint de Canoas Havaianas. Evento acontece nesse ... leia mais

Acidentes em canoas polinésias quase nunca são fruto de azar. Eles são fabricados dia após dia, muito antes da canoa sequer tocar a água. Quando tudo finalmente dá errado, surge a frase mágica, confortável e socialmente aceita: “foi aprendizado”. Curioso como esse tal aprendizado quase sempre nasce de decisões ruins disfarçadas de coragem, liderança ou “espírito aventureiro”.
Tudo começa pelo erro mais básico de todos — e não, não é técnico, é comportamental. O instrutor olha o mar grande, o vento forte, a condição claramente acima do razoável e decide que “dá pra ir”. Quando volta contando história, vira experiência. Quando dá errado, vira narrativa épica. Se estiver sozinho, problema dele. Coragem pessoal, risco pessoal. O problema começa quando esse mesmo raciocínio leva alunos amadores junto. Aí deixa de ser ousadia e passa a ser irresponsabilidade. Mar não é laboratório. Aluno não é cobaia.
Logo depois vem o clássico desprezo pelo colete salva-vidas. Ainda existe quem acredite que colete é coisa de remador fraco, como se o mar estivesse interessado em currículo, ego, tempo de prática ou quantidade de fotos no Instagram. A realidade é bem menos poética: com colete, a chance de sobreviver praticamente dobra. Mas admitir isso exige maturidade. E maturidade, infelizmente, não rende boa postagem. Se o seu clube não usa, não exige e ainda faz cara feia pra quem usa, ele não está preocupado com sua segurança.
Depois vem a manutenção — ou melhor, a ausência elegante dela. O iako de madeira fica ali, largado no sol e na chuva, dia após dia, sem inspeção, sem cuidado, sem carinho. Ninguém testa, ninguém questiona, ninguém se incomoda. Até o dia em que ele quebra no meio do mar e deixa todo mundo à deriva. A surpresa é geral, quase ofensiva, como se madeira apodrecida tivesse alguma obrigação moral de suportar esforço extremo.
A fé excessiva também marca presença, geralmente materializada naquele cabo responsável por manter ama e iako unidos. Gente que economiza usando material inadequado ou qualquer coisa “que sempre funcionou”, acreditando que vai dar. O detalhe é que, quando o cabo arrebenta, a ama não acredita em tradição nem em boas intenções. A canoa simplesmente vai para o fundo — ou pior, quebra. E o risco vira realidade em segundos.
Some a isso a amarração mal-feita — ou pior, a amarração que ninguém sabe explicar como foi feita. Fica lá, eterna, esquecida, como se não fosse afrouxar nunca, como se carga dinâmica fosse um conceito abstrato. Quando falha, a culpa recai sobre o mar, nunca sobre quem achou que amarrar errado era detalhe.
Em seguida entram em cena os parafusos. Apertados uma única vez e abandonados para sempre. Só que a canoa trabalha, flexiona, vibra, sofre. Parafuso afrouxa. Sempre. Quando chega o dia de mar mais pesado, a estrutura cede, a canoa quebra, e a culpa, como manda a tradição, recai sobre o fabricante. Nunca sobre a falta de manutenção básica.
Poucos se preocupam com a vedação. É invisível, não aparece em foto, não dá status. Até o dia em que começa a falhar: a água entra, o peso aumenta, o desempenho cai e a segurança vai embora devagar. Tudo isso poderia ser evitado com substituição periódica, mas como não é urgente, fica sempre para depois — até virar emergência.
E por fim, o gelcoat do casco. Tratado como se fosse indestrutível. Arrasta na areia, deixa no sol, pega chuva, transporta mal, bate em prova, ignora trincas, fissuras e desgaste. O casco avisa. Mas aviso exige olhar. E olhar exige responsabilidade. Quando algo falha, a surpresa é a mesma de sempre, como se a canoa tivesse obrigação de aguentar qualquer abuso em silêncio.
No fim das contas, acidentes não acontecem no mar. Eles começam muito antes, na negligência diária, no ego inflado e na falsa sensação de controle. O mar não pune ninguém. Ele apenas responde. E quase sempre responde exatamente do tamanho da irresponsabilidade.